
O prefeito, o peixeiro e a corrida mais honesta da política
A história se passa ali no Mercado do Peixe, quando a TV Globo resolveu fazer uma daquelas reportagens que todo governante teme: o microfone aberto para o cidadão comum

Foto: Reprodução Jornal Metropole
Política, como se sabe, tem dessas coisas improváveis. Mas poucas cenas são tão improváveis — e tão saborosas — quanto a de um prefeito correndo atrás de um peixeiro no meio de um mercado popular.
A história se passa ali no Mercado do Peixe, quando a TV Globo resolveu fazer uma daquelas reportagens que todo governante teme: o microfone aberto para o cidadão comum. E o cidadão, no caso, era um vendedor de peixe.
Não economizou nas palavras. Criticou, esculhambou e passou a limpo a administração municipal com a precisão de quem limpa um robalo. Quando a matéria foi ao ar, o esperado seria uma nota oficial, uma resposta indignada, talvez um ataque à emissora. Mas não. A reação do prefeito foi outra:
Ele tem razão.
Pronto. Aí já começa a dar errado — ou certo demais, dependendo do ponto de vista.
A televisão, meio desconfiada daquela sinceridade fora de moda, fez um convite: ir até o mercado conversar com o homem. E lá foi o prefeito, com equipe e câmera, disposto a fazer algo ainda mais raro que admitir erro, agradecer a crítica.
Só que ninguém avisou ao peixeiro.
Quando ele viu o prefeito chegando, cercado de gente e com câmera ligada, pensou o pior. E fez o que qualquer cidadão faria naquele tempo: saiu correndo. E correu bonito. Desviando de bancas, pulando caixas, serpenteando entre pilhas de mercadorias como se estivesse numa final olímpica do Mercado.
E o prefeito? Foi atrás.
A cena era digna de cinema: o peixeiro disparado, o prefeito correndo atrás, gritando “para aí, para aí!”, enquanto o povo assistia sem saber se era briga, campanha ou pegadinha.
Até que o homem parou. Sem fôlego, assustado, esperando o pior. Mas veio o inesperado.
Eu vim aqui lhe dar um abraço. Vim lhe agradecer. Você está certo. Isso aqui está uma esculhambação mesmo.
O peixeiro não acreditou. Ninguém acreditaria. Era 1980, em plena ditadura militar, e governante não costumava correr atrás de crítico, muito menos para concordar com ele.
O prefeito era eu.
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