Comemoração de suicídio e dengo em credos

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Comemoração de suicídio e dengo em credos]
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Por Malu Fontes no dia 12 de Novembro de 2020 ⋅ 08:04

Um voluntário da vacina Coronavac é encontrado morto no banheiro de sua casa com uma seringa enfiada no braço, em São Paulo, no dia 29 de outubro. Se um voluntário de uma pesquisa que está desenvolvendo uma vacina morre - se de acidente de trânsito, de infarto, do vírus que está sendo estudado, de suicídio ou overdose de medicamentos ou drogas ilícitas -, o desenvolvedor da pesquisa deve ser informado e, em seguida, a agência reguladora da saúde no país. 

Estamos falando do Instituto Butantan, em São Paulo, e da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Na sopa burocrática e científica de termos para não leigos, uns chamaram o suicídio do voluntário em São Paulo de evento adverso grave inesperado, outros de efeito adverso grave inesperado e outros de reação. É tudo morte, do mesmo jeito. São expressões do Corona no mundo, que vão se juntar a “novo normal”, “protocolos”, “aglomeração” etc. Mas mesmo os leigos sabem que evento, reação e efeito são coisas bem distintas. Efeito e reação já explicitam que houve algo relacionado à vacina. Evento pode ser uma queda de escada que leva à morte. Um suicídio consumado, que foi o termo usado pela polícia técnica, deve ser elemento para interromper a pesquisa de uma vacina? Talvez sim, desde que, tecnicamente, as autoridades envolvidas nos estudos apresentem razões para isso. Por exemplo: se estiver lá, nos tais protocolos, que entre os efeitos do vírus e dos sinais estudados estão distúrbios emocionais que levem à depressão e, consequentemente, a eventuais ideações suicidas. 

Nada disso se diz sobre detalhes dessa natureza e o que o país e o mundo assistem, após um suicídio não ou mal comunicado é uma sucessão de aparentes equívocos. O mais imoral: o presidente da República, por sua birra eleitoral com o governador de São Paulo, João Doria, vai para as redes sociais “comemorar” uma morte. Ao dizer que Jair Bolsonaro ganhou mais uma, falando assim, em terceira pessoa, o presidente está dizendo, sem rodeios, que foi bom para ele que alguém tenha morrido. Disse ainda mentiras sobre a vacina em estudo. Que causa anomalia, deficiência, morte. Errou rude e a Anvisa errou junto. A agência já vive sendo acusada de ser mais ideológica que sanitária, por conta da participação do presidente, Antônio Barra, em eventos contra o Congresso Nacional, durante a epidemia, e sem máscara. Acreditar em isenção nessas circunstâncias é coisa para ingênuos. 

Mas, se Bolsonaro erra, se a Anvisa erra ou exagera, há muito mais pontas soltas nesse curto-circuito científico do que essa óbvia mistura de política com ideologia. O Instituto Butantan, ao saber da morte de um voluntário, por suicídio, comunicou por e-mail a informação incompleta da morte. Não o fez pelas vias técnicas oficiais, onde caberiam todas os dados científicos do caso, porque o sistema havia sido sofrido um ataque hacker. O Butantan ficou esperando a Anvisa abrir o e-mail, ler o e-mail e ligar perguntando coisas. Não ligou. Deu um clique, interrompeu a pesquisa e o instituto ficou sabendo pela imprensa. 

ROTEIRISTA - O roteirista ruim do episódio da interrupção da Vacina já tinha começado errando lá do início de tudo, quando da descoberta da morte. Ao informar ao Butantan o suicídio, a família do morto pediu que a causa não fosse revelada, por razões religiosas. Sim, o suicídio é tabu para religiões e até para a imprensa. Mas daí ao fato de um instituto de ciência não mencionar imediatamente um suicídio à Anvisa, por razões religiosas, a não ser quando fosse perguntado, faz crer que, no Brasil, a ciência faz dengo às crenças religiosas dos participantes de uma pesquisa.

O clichê é velho, mas a emenda ficou péssima. Agora, o mundo inteiro sabe do suicídio, e o morto, à revelia da família, já entrou para a história da pesquisa da vacina para a Covid no mundo. O que aconteceu a partir de um suicídio em um banheiro em São Paulo foi uma sucessão de erros: do tal e-mail, a Anvisa foi direto para o próprio site comunicar a interrupção, o Butantan ficou sabendo pela imprensa, a família viu o morto virar manchete, o presidente transformou a morte de um voluntário em vitória pessoal e o resto da confusão todo mundo pode acompanhar agora em qualquer meio. E aproveitemos para descer alguns degraus. O presidente da República já desafiou a nação chamando-a de  país de maricas, voltou a normalizar a morte pelo vírus e ameaçou Joe Biden com guerra. Chega de saliva, partamos para a pólvora, sob o comando de Heleno, o general. 

 

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