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Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Os gays, a violência e os cardápios de gente

Quando se fala no assassinato de gays, é inevitável esbarrar nas teses sobre a homofobia e a intolerância

Os gays, a violência e os cardápios de gente

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 30 de novembro de 2023 às 00:00

Diante de cada morte violenta gay, espraia-se um debate que ultrapassa as fronteiras do luto familiar e da comoção social e se estende à legislação e às políticas publicas de segurança e de combate à homofobia. Quando uma pessoa homossexual é assassinada no ambiente de sua própria casa, o cuidado exigido para falar do assunto esbarra no medo e no risco de, ao abordá-lo, ser tomada por uma voz mal-entendida que se desloca do furacão da violência do mundo e se volta para a vítima que já não está aqui para contextualizar os elementos de sua tragédia irreversível.

Mais uma vez, na esfera local, passamos a semana informados a conta-gotas sobre detalhes horríveis de um dentista jovem encontrado morto em seu apartamento e a relação de sua morte com imagens de câmeras de segurança do edifício que registraram um homem com o rosto protegido por um capuz circulando em corredor, elevador, garagem e saindo com o carro da vítima. Vivemos numa sociedade com índices ainda alarmantes de homofobia? Sim. Somos desamparados, diante de índices alarmantes de violência e uma desproporcional capacidade do estado de assegurar segurança pública na justa medida da necessidade dos cidadãos? Sim.

Há políticas públicas e garantias legais que protejam grupos vulneráveis de intolerância, desrespeito e violência? Em relação a um passado recente, avançou-se muito, mas nunca chegaremos a garantias absolutas. E em casos como o ocorrido na última semana, no Rio Vermelho, que e quais instâncias ou medidas poderiam ter protegido a vida da vítima? Não há respostas fáceis e não nos leva a lugar nenhum procurá-las ou elencá-las. Noticiou- -se que vizinhos e porteiros ouviram, em algum momento, pedidos de socorro vindos do apartamento. Indo lá, ninguém atendeu à campainha e o silêncio no interior da casa foi lido como sinônimo de que um conflito que poderia ter ocorrido foi cessado.

Quando se fala no assassinato de gays, é inevitável esbarrar nas teses sobre a homofobia e a intolerância que matam, nos índices que dizem ser o Brasil o país que mais mata homossexuais e na omissão da polícia de modo geral diante da violência urbana. Mas em casos como esse, com contornos, pelo que se sabe até aqui, semelhante às circunstâncias da morte de um professor do IFBA encontrado morto no próprio apartamento, em Brotas, em 2018, quem poderia fazer o quê? Nesses casos, e há muitos semelhantes a esses, pode-se falar em homofobia, em omissão da segurança pública? O tema é delicadíssimo e entram em cena novos elementos do espírito do tempo: a forma como os encontros sexuais se dão, seja entre pessoas do mesmo sexo ou entre heterossexuais.

Cardápio de carne e AIDS

A violência da vida em sociedade é sempre a mesma, mas a digitalização da vida trouxe novos e múltiplos riscos decorrentes das novas formas de encontros afetivos e sexuais. As camadas dos modos de vida on-line são muitas, paradoxais, e tanto podem garantir mais segurança, por possibilitar que em dois ou três cliques saibamos quase tudo de um desconhecido, como pode abreviar o salto num precipício trágico rumo a armadilhas de onde ninguém poderá nos resgatar.

Os aplicativos de pegação são cardápios imediatos de carne de gente desconhecida, que, num clique, praticamente é catapultada para o carro, a casa e a cama de quem os escolhe, com todos os riscos que isso pode implicar. Pode soar broxante, cafona e embolorado falar em consciência dos riscos de desconhecidos cruzarem a soleira de sua casa. Mas, hoje, importar corpos dos cardápios on-line para o espaço sagrado ou profano da casa parece exigir agora tanto cuidado quanto a emergência da AIDS nos anos 80 exigia de quem queria sobreviver a ela.