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Sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Iemanjá, uma tradição em movimento

A grande modificação da Festa de Iemanjá está se fazendo aos poucos, graças ao gesto genial de Mãe Stella de Oxóssi

Iemanjá, uma tradição em movimento

Foto: Reprodução

Por: James Martins no dia 01 de fevereiro de 2024 às 00:00

A tradicional festa de Iemanjá, no Rio Vermelho, nem sempre foi de Iemanjá e nem sempre foi no Rio Vermelho. E nem sempre se restringiu ao dia 2 de Fevereiro. Por falar em mudanças, a própria Iemanjá nem sempre foi reconhecida como a Rainha do Mar, mas importante divindade de um rio entre Ifé e Ibadan, portanto, cultuada, mesmo aqui no Brasil, nas águas doces. "O mar está sempre em movimento para não sair do lugar", escreveu o poeta Arnaldo Antunes. E registros de poetas, historiadores, cronistas, pesquisadores, curiosos, populares, antropólogos e folcloristas mostram a festa dela, que também tem vários nomes (Janaína, Inaê, Princesa do Aioká, Mucunã, Dandalunda etc) se movendo por diversos pontos da cidade da baía até se fixar onde está atualmente. Movimento, tradição típica das águas vivas.

Em "Bahia - imagens da terra e do povo", Odorico Tavares afirma: "Ninguém se lembra mais dos festejos em frente ao antigo forte de São Bartolomeu, em Itapagipe, onde os senhores deixavam, numa folga de até quinze dias, os seus escravos festejarem a sua rainha". E sobre essa mesma festa, Manuel Querino registrou que reunia mais de dois mil africanos, "presentes todos os pais de terreiro da cidade, sob a direção suprema do tio Ataré (...) Os pais de terreiro trajavam roupas de brim de linho branco e chapéu Chile, ostentavam relógio, chapéu de sol de seda e comprido correntão de ouro Porto, o qual passava por entre uma das casas do colete e em volta do pescoço".

O presente da Mãe d'Água, depositado com fervor e alegria em vários pontos onde havia água abundante, como próximo ao Farol da Barra e no Dique do Tororó (ainda hoje, na noite de 1° de fevereiro, um presente é deixado, destarte a Oxum) foi se tornando a Festa de Iemanjá do Rio Vermelho, aquela que Dorival Caymmi (um dileto filho dela) descreveu maravilhosamente em canção inesquecível: "Dia 2 de fevereiro / Dia de festa no mar...". E à qual, religiosamente, todo ano comparecia o cantor carioca Jamelão da Mangueira. Recentemente, grupos se reúnem em frente à Lalá e veem, com shows e isopores, o dia amanhecer. A festa também é de rockenrol, com Márcio Mello e do soundsystem do Ministério Público. Tudo Iemanjá acolhe.

A grande modificação, porém, está se fazendo aos poucos, graças ao gesto genial de Mãe Stella de Oxóssi, que em 2016 lançou a semente da revolução: "Meus filhos serão orientados a oferendar Iemanjá com harmoniosos cânticos. Quem for consciente e corajoso entenderá que os ritos podem e devem ser adaptados às transformações do planeta e da sociedade". Odoiá!