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O ano em que um vírus proibiu o Carnaval

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[O ano em que um vírus proibiu o Carnaval]
Foto : Angelucci Figueiredo/Divulgação

Por Malu Fontes no dia 11 de Fevereiro de 2021 ⋅ 08:09

Não há racionalidade capaz de normalizar sem espanto o imponderável do mundo que impõe e determina a uma cidade como Salvador o cancelamento do Carnaval. O primeiro ímpeto é recorrer ao clichê e perguntar-se como, no século XXI, com o progresso científico que permite enviar cientistas ao espaço sideral, não éramos capazes de, há apenas um ano, imaginar tamanha transformação do mundo por um vírus.

Se um desses videntes que anunciam saber das coisas afirmasse, na terça-feira de Carnaval do ano passado, que quem tivesse se divertido na festa agradecesse, pois em 2021 ela seria cancelada em todo o mundo... Se fosse numa ficção das mais bizarras ou na boca de um picareta caricato, uma previsão dessas seria de tal modo inverossímil que nem riso de descrédito despertaria. A realidade, no entanto, é esta: o Carnaval do calendário chegou e o das ruas foi cancelado. E junto virou nada toda uma engrenagem da qual pouca gente se dá conta, fixados que ficamos na magnitude de gente nas ruas, na potência da música, no delírio coletivo e na catarse.

O poder público e a imprensa adoram uma hipérbole quando se trata de falar dos dinheiros e dos empregos gerados pelo Carnaval de Salvador. Os números são sempre colossais. Cerca de R$ 1,8 bilhão em circulação na economia. A geração de 250 mil empregos. Mais de 850 mil turistas. 95% de ocupação nos hotéis. 16,5 milhões de pessoas circulando nas ruas no período, entre as festas pré-carnavalescas e a Quarta-Feira de Cinzas. Se as contas forem feitas direito, não deve ser tudo isso, mas façamos de conta. Independentemente da precisão numérica, o cancelamento equivale a um terremoto da festa, sem sobreviventes. O dinheiro em circulação e os postos de trabalho gerados nessa temporada, em 2021, nunca poderão ser compensados. Quando a festa voltar, se a ciência permitir em 2022, não haverá reposição do que se perdeu.

ABADÁ NA SALA - O dinheiro, os empregos, os lucros, e até as pessoas, tudo será outra coisa no próximo Carnaval. O de agora, o vírus matou. As lives, os programas especiais montados pelos meios de comunicação, os projetos das entidades ligadas à festa para que as pessoas vejam, se entretenham e fiquem em casa são opções, consolos e ajustes frágeis que as circunstâncias permitem. Servirão, no final das contas, não para produzir sensações, mas como produtos e memória para contar à história como velamos os rituais de alegria no ano da peste mundial. Em algum lugar do futuro, certamente todo mundo que gosta da festa terá uma resposta curiosa para essa pergunta: onde você estava no Carnaval da Covid, aquele que não houve? A alguns soará improvável se a resposta narrar o uso de um abadá patrocinado na sala de casa, um colar de plástico havaiano e purpurina e olhos na TV.

Em janeiro de 2019, Daniela Mercury e Caetano Veloso lançavam o que seria um dos hits do Carnaval daquele ano: Tá proibido o Carnaval. Era uma crítica aos ataques de grupos conservadores a performances e manifestações artísticas em exposições e museus, e uma provocação à pauta de costumes do presidente Jair Bolsonaro e da ministra Damares Alves, a das meninas de rosa e dos meninos de azul. Os conservadores e o governo não conseguiram cancelar o Carnaval, mas dois anos depois de o presidente reduzir a festa a uma cena de golden shower, em São Paulo, a canção alegre de Daniela e Caetano soa como um quê de premonitório. O vírus proibiu o Carnaval. E no mundo inteiro.

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

 

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