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Da poesia concreta à urna eletrônica

Frases de efeito, à esquerda e à direita, não são apenas as que lacram nas redes sociais mas também, consequentemente, as que vencem eleições

[Da poesia concreta à urna eletrônica]
Foto : Divulgação

Por James Martins no dia 18 de Fevereiro de 2021 ⋅ 13:05

No último domingo (14) o poeta Augusto de Campos, um dos criadores da poesia concreta, comemorou 90 anos de vida. Eternamente novo, ele segue em plena produção, criando poemas-visuais (“agitprops”) sobre a política nacional, que publica regularmente no Instagram: @poetamenos. Ao recusar entrevistas pela efeméride, o poeta não resistiu porém a cunhar trocadilhos mordazes em um recado direto e claro: "Tudo o que tem o Brasil a fazer hoje é livrar-se da Coronavírus-19 e do Bolsonavírus-22 (e por este último entendo toda a corja que acompanha o nosso ‘presidemente’). Um vírus mata. O outro imbeciliza". Política, pois é, política. E pensar que as críticas mais comuns à poesia concreta quase sempre se dirigiram à sua suposta alienação. Em uma crônica publicada no Jornal do Brasil, no dia 13 de fevereiro de 1957, portanto na véspera do aniversário de 26 aninhos de Augusto, o consagrado Manuel Bandeira defendeu os jovens da sanha de um “constante leitor” que o alertara para não levar a “pândega” do grupo concreto a sério. 

Escreveu Bandeira: “Não são uns pândegos, acredite o ‘constante leitor’. Bem ao contrário, são impressionantemente sérios, a ponto de acreditarem que a sua concepção de arte poderá clarificar a consciência brasileira, melhorar a condição social do Brasil”. Eis enfim a razão deste artigo: Agora, quando estamos todos impressionados com a facilidade com que os mais torpes e toscos discursos vicejam no país e elegem as figuras mais grotescas para os mais importantes cargos, como a “concepção de arte” de um Augusto de Campos poderia/pode ajudar a clarificar a consciência nacional e evitar um tal desarranjo mental coletivo?

Ora, desde o princípio os poetas concretos chamam atenção para os perigos da retórica, da emoção fácil, das frases empoladas, do simplismo, dos malabarismos demagógicos. E é justamente por aí que estamos entrando pelo cano. Basta uma olhada rápida no Congresso Nacional, mas também nas principais cadeiras do Executivo, para notar que o nosso povo gosta de se deixar enganar por soluções simplistas e emprenha fácil pelo ouvido. Frases de efeito, à esquerda e à direita, não são apenas as que lacram nas redes sociais mas também, consequentemente, as que vencem nas urnas eletrônicas. Seja “pelo respeito à família tradicional” ou “contra a elite branca paulistana”, o que se ouve e se lê nos discursos políticos é um perfeito reflexo da poesia tida tradicionalmente como melhor representante de nossa sensibilidade tropical. E não é por acaso. Lembra o diagnóstico de João Cabral sobre o que classificou como “o único estilo nacional: / ler como discurso um soneto”.

É um falso enigma que a poesia que viraliza nas redes sociais não seja a do próprio Augusto de Campos (embora os seus 26 mil seguidores seja algo a se celebrar) ou a de um e. e. cummings, por exemplo. Poetas que, em larga medida, inventaram a própria linguagem digital, dando voz aos sinais de pontuação, acentos, espacialização, caixa alta/caixa baixa, etc. Sem falar na economia e diretidade que, dizem, é o que se pede na internet. Não, aqui o que faz sucesso mesmo é a velha lenga-lenga sentimentalóide, ainda que vez ou outra sob um verniz de inovação digital. Poemas que são como aqueles livros para colorir, só que já vêm (e muito) coloridos. O fato é que, econômicas como sejam, as obras de cummings, Cabral, Augusto são exigentes. Não dá pra ler enquanto se joga na outra aba. São jogos em si mesmos. E o que se procura na internet não é enxutez como se alardeia, mas facilidade mesmo. Banalidade, pra ser mais claro.  

Sei que pode soar exagerado, mas sempre que me deparo com o enorme sucesso, não apenas digital mas também editorial, de arrobas como "textoscrueisdemais" e/ou "zackmagiezi", penso que esse país não irá "clarificar" sua consciência tão cedo e que nossas discussões políticas seguirão na mesma pouca titica. E o resultado é esse aí que estamos vendo. O messianismo nacional que nos impede de tomar o Brasil de fato nas mãos passa seguramente pela via da linguagem. Medula e osso continuam fazendo falta na geleia geral. E nunca como hoje. VIVA VAIA!

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