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Bem-vindos a Sucupira

Malu Fontes é jornalista, doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professora da Facom/UFBA e colaboradora da Rádio Metrópole

[Bem-vindos a Sucupira]
Foto : Angeluci Figueiredo

Por Malu Fontes no dia 25 de Fevereiro de 2021 ⋅ 08:09

A distopia brasileira não é um arremesso do país para um buraco no futuro, mas para uma caricatura do passado. O calendário parece ter sido aberto aleatoriamente num ano qualquer da década de 70. O Brasil de fevereiro de 2021 está mais para 1973 do que para o mundo futurista high tech que o cinema anunciava como sendo o cenário provável do século XXI. Foi em 1973 a estreia da novela O Bem-Amado, um clássico escrito pelo baiano Dias Gomes, a primeira produção em cores da teledramaturgia nacional. 

Num clique no Google, a personagem central da trama é descrita nesses termos: “O prefeito Odorico Paraguaçu é um político demagogo e corrupto que ilude o povo simplório da pequena Sucupira, no litoral baiano, com seus discursos inflamados e verborrágicos.” Quaisquer semelhanças, do protagonista, da trama, do contexto dela e das demais personagens, e do tempo em que a telenovela foi exibida, não parecerão mera coincidência. Agora disponível em streaming, no Globoplay, O Bem-Amado foi visionária. 

Está tudo lá: uma epidemia, um gestor antivacina, um pistoleiro de estimação religioso que mata em nome de Deus, jornalistas e cientistas odiados e perseguidos pelo político caricato no poder, o discurso moral e católico em nome da família e dos bons costumes, a corrupção e as estripulias sexuais embaixo dos panos. Não à toa, a censura da época, nos anos de chumbo da ditadura militar, sob a gestão de Emílio Garrastazu Médici, mandou cortar de cenas já gravadas da novela as palavras coronel, capitão, ódio e vingança, além de proibir a música tema de abertura, Paiol de Pólvora, de Toquinho e Vinícius, por conta do verso: “estamos trancados no paiol de pólvora”.

PADRE LADRÃO - Uma zapeada no streaming, na TV aberta e na fechada e está lá o trem desgovernado e descarrilhando do projeto fracassado de Brasil 2021. Corta de Odorico e entra a historinha real do padre Robson, uma celebridade católica de Goiânia protagonista de uma trama que faria o roteiro de Dias Gomes para Roque Santeiro, outro clássico do dramaturgo, parecer um rascunho descartável. O imbróglio do padre envolve desvio de milhões de reais da Igreja, por meio da construção de uma basílica de um bilhão e meio de reais numa obra que parece a do interminável metrô de Salvador, que levou 16 anos para inaugurar o primeiro trecho e devorou milhões dos cofres públicos. 

O roteiro do padre Robson vai muito além de roubo do dinheiro de Deus doado pelos fiéis. Há sexo com homens e mulheres, hackers, extorsão com cobranças milionárias, participação de uma delegada e policiais, execução cogitada de chantagistas, jornalistas que cobrem o caso tirando lasquinhas, avião particular e impérios imobiliários, incluindo condomínios, fazendas e até uma casa de praia do padre em Guarajuba, litoral norte da Bahia, avaliada em R$ 2 milhões. 

Vistas em camadas simultâneas, como é a realidade, a atualidade de O Bem-Amado, a história do padre ladrão milionário e a envergadura retórica dos novos protagonistas do núcleo duro do poder em Brasília revelam que nunca parecemos tão anos 70. Em discursos confortáveis e assertivos, um dos homens fortes do governo, o deputado federal Ricardo Barros, do partido Republicanos do Paraná e líder do Governo na Câmara, vem defendendo com a maior naturalidade do mundo o nepotismo, a contratação de parentes de autoridades pela máquina pública. Mais Odorico, impossível. Esse roteiro atual de Brasil tem mais em comum com os de Dias Gomes do que ele ousaria sonhar nos anos 70, ou se vivo estivesse agora. Bem-vindos. Sucupira é agora e aqui.  

 

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