Sexta-feira, 30 de julho de 2021

É tudo meme: Lázaro, rã, drone, deputado

Com uma ficha criminal extensa e caçado por cerca de 300 policiais numa microrregião de Goiás, Lázaro transformou-se no mais novo dos protagonistas da distopia brasileira

É tudo meme: Lázaro, rã, drone, deputado

Foto: Reprodução

Por: Malu Fontes no dia 25 de junho de 2021 às 09:47

O presidente em surtos de raiva com quem não lhe aplaude. Uma epidemia global que ainda parece muito longe de permitir rotinas mais próximas daquilo que nos parecia normal em 2019. O Congresso agitadíssimo, montando balcões de vendas, lobbies e jabutis. O crescimento acelerado da pobreza, da fome, da ansiedade e de toda a sorte de distúrbios psíquicos. No meio disso tudo, uma assombração humana irrompe, disputando espaço nas primeiras páginas dos jornais brasileiros há duas semanas: Lázaro Barbosa, 32 anos, um fugitivo da polícia. Com uma ficha criminal extensa e caçado por cerca de 300 policiais numa microrregião de Goiás, Lázaro transformou-se no mais novo dos protagonistas da distopia brasileira.

Lázaro é tudo. De assassino e estuprador temido a criminoso mais procurado do país e rei dos memes, o baiano tornou-se objeto de acirradas discussões sobre racismo, xenofobia, intolerância religiosa, armamentismo, segurança pública, bioma do cerrado, guerrilha na selva, sobrevivência, tecnologia militar e rastreamento na mata. No fluxo da caçada ao fugitivo, o deputado-pastor-sargento Isidório já lacrou nas redes e em vídeos onde aparece de tronco nu, camuflado com folhagens e restos retorcidos de raízes e tocos de pau, invocando Deus, o diabo, a Bíblia e batalhões da polícia baiana para capturá-lo. Na terça-feira, os jornais anunciavam em fundo preto os novos heróis da série Lázaro: três cachorros de alta patente levados a Goiás por conta de seus currículos estrelados na função de caça a gente. Ou deveríamos escrever cachorres, já que há uma cadela na equipe? 

Cristal, Dart e Hope são os novos nomes candidatos ao heroísmo nacional. A border collie, o pastor alemão e o bloodhound, cães do Corpo de Bombeiros de Goiás, foram incorporados esta semana às equipes de quase 300 agentes que há 15 dias procuram Lázaro a pé, de carro, por rios, de helicópteros e com o uso de sensores e drones, sem nenhum sucesso. Na falta de novidades sobre a localização do procurado, cada bacia d’água encontrada revirada num quintal no entorno dos distritos por onde ele passou torna-se imediatamente notícia de jornal. A leitura das notícias sobre o assunto torna-se uma experiência literária que vai do humor ao realismo fantástico, com parágrafos que se confundem com verbetes de livros de biologia e geografia do ensino médio e direito a glossário com definições sobre habilidades específicas de raças de cães de caça e definição de mateiro e matas ciliares. 

Há quem reclame muito do fato de Lázaro Barbosa ter se transformado em meme, em humor. Os argumentos dos sensíveis à memificação até fazem sentido. Mas só até abrimos um site noticioso que supostamente quer ser levado a sério e ler algo assim: “Imagens que mostram os restos mortais de uma rã e cascas de fruta foram divulgadas nesta terça-feira pela polícia e são vestígios do que, possivelmente, fariam parte da alimentação do assassino durante a perseguição”. 

Desculpe-nos a polícia e a imprensa, mas nada é mais candidato ao humor que o jornalismo descrevendo os restos mortais de uma rã desossada com cascas de frutas como parte da dieta estratégica de um homem sozinho, no mato há meio mês, com pouca munição e nenhuma comida driblando 300 policiais armados, com sangue nos olhos e auxiliados por cachorros de faro estrelado. Quem lê numa notícia a expressão “restos mortais de uma rã” como rastro de um criminoso e pista da localização de um sentido killer, automaticamente a converte em verbete na gramática dos memes. 

A DIETA DA RÃ - Os grupos dos psi, os profissionais da psicologia, da psiquiatria e todo o universo de estudiosos, pesquisadores e especialistas em distúrbios mentais, também estão insatisfeitos com a cobertura da imprensa e com as descrições da polícia e da justiça. Reclamam que estão errados os conceitos e a terminologia usados para descrever Lázaro Barbosa. Quem inventou que a ele se aplicaria o termo serial killer? Para esse tipo de dúvida, consultar também o jornalismo, cujos textos trazem como enunciado: “em alta: afinal, Lázaro Barbosa é um serial killer? Ainda é cedo afirmar que baiano se encaixa em perfil de matador em série; saiba por que e reveja casos”.

Também não vem passando incólume pelo ativismo de redes e de sofás o gentílico usado para descrever o fugitivo. Quando a expressão “o serial killer do DF” aparece num texto, logo aparece alguém para corrigir. ‘Do DF, não. Ele é baiano, baianíssimo’. Como nada estará bom nunca mais, outra contenda se inicia: ‘por que ressaltar tanto que é baiano? Só porque é criminoso? Será que se fosse para falar de alguém famoso fariam tanta questão de reiterar isso? Não, não fariam. Adoram dizer que é baiano por preconceito, com a Bahia e com o Nordeste’, et cetera, et cetera. Enquanto isso, sob os drones e os aviões, Lázaro, esse contemporâneo do vírus que já matou mais de meio milhão de brasileiros, inscreve no jornalismo e na polícia nacionais a referência aos restos mortais das rãs. Rãs degustadas reduzidas ao aroma de cascas de frutas. É tudo meme.
 

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