Terça-feira, 26 de outubro de 2021

Mil dias no precipício e ‘pode piorar’

A essa altura, ao longo desses mil dias de queda livre do país rumo a fundos falsos, aos 20% que  aplaudem tudo o que está aí não interessam fatos, dados, realidade ou ciência

Mil dias no precipício e ‘pode piorar’

Foto: Reprodução Jornal da Metropole

Por: Malu Fontes no dia 30 de setembro de 2021 às 09:49

A cinco mil mortes de o país atingir o número trágico de 600 mil vidas perdidas para a Covid, o presidente Jair Bolsonaro saiu pelo país adentro em campanha eleitoral, a pretexto de comemorar os seus 1.000 dias de governo e, em cima de picapes, inaugurando aqui e ali pedaços de pontes ou 10 quilômetros de asfalto, avisou: nada é tão ruim que não possa piorar. Se disse isso como ameaça ao país ou como estratégia para encorpar ainda mais a caricatura do presidente simplão, que come pão com leite moça, toma café em copo reutilizado de requeijão cremoso, veste meias com chinelão de plástico e se orgulha de se besuntar com gordura de pizza mastigada nas calçadas de Nova Iorque, vá saber. 

É sabido por todo mundo que o presidente tem cerca de 22% de aprovação da sua gestão. Bolsonaro foi eleito no segundo turno, em 2018, com quase 58 milhões de votos e números não se questionam, são matemáticos. Já o resíduo de aprovação, esses 22%, poderiam explicar aos 53% que o desaprovam como se faz para enxergar os méritos e acertos deste governo. E não vale a saída pelos fundos dos argumentos, a estratégia de dizer que o governo não anda porque não deixam, essa frase de sujeito inexistente. Qual o projeto, executado ou interrompido, em qualquer área, seja na área de saúde, educação, infra-estrutura, ciência ou tecnologia, neste governo? 

São apenas questionamentos retóricos. A essa altura, ao longo desses mil dias de queda livre do país rumo a fundos falsos, aos 20% que  aplaudem tudo o que está aí não interessam fatos, dados, realidade ou ciência. Tornou-se uma questão de fé, como se vivessem na dimensão do encantado, do mágico e da escolha irracional entre realidade e pensamento mágico. No mesmo dia em que uma advogada, Bruna Morato, depôs na CPI da Covid, representando 12 médicos que denunciam a seguradora de saúde Prevent Sênior de acelerar a morte de idosos com Covid (já que ‘obtito também é alta’), não foram dois nem três senadores que irromperam furiosos na sessão e na imprensa. 

TRAFICANTE E JORNALISTAS 

A fúria, de senadores como Marcos Rogério, Eduardo Girão, Marcos do Val ou Flávio Bolsonaro, não era contra uma empresa de plano de saúde que, para manter o lucro numa pandemia que era devastadora para idosos, o seu nicho de clientela, planeja com o apoio da Presidência da Republica, monta uma estratégia que em tudo se assemelha a uma eutanásia, à revelia de pacientes, famílias e coagindo médicos. A raiva dos senadores era da advogada que acusa a empresa, com provas, documentos, fartas evidências. 

Em entrevista à GloboNews, na noite de terça, o senador Marcos do Val disse que dar credibilidade à Bruna Maroto em suas acusações na CPI seria o mesmo que a emissora dar credibilidade ao traficante Elias Maluco (morto, aliás, em setembro do ano passado) se este aparecesse em público defendendo jornalistas que a Rede Globo demitiu nos últimos meses, acusando a emissora de absurdos. Quem quiser saber como de uma coisa chegou-se a outra, como aquilo virou isso, cartas para o senador do Espírito Santo. 

A versão alternativa da realidade dos 20% do bolsonarismo e dos senadores que comparam a advogada Bruna Maroto ao traficante Elias Maluco, os mortos da Prevent Sênior aos jornalistas demitidos da Globo durante a pandemia e a mãe morta de Luciano Hang à mãe viva do humorista morto Paulo Gustavo, já tem até bordão: “vai vendo, Brasil”. Marcos Rogério, ao desmontar a realidade toda para caber na versão que os apoiadores do presidente desejam, repete-o a cada apelo desinformativo que faz aos seus. Isso não tem como acabar bem. Vai vendo, Brasil.

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