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A Lanterna Mágica de Mólotov

Para ser lido com a música ‘Amur’s Waves’; versão do The Red Army Choir.

[A Lanterna Mágica de Mólotov]
Foto : Ilya Kabakov. O homem que voou para o espaço do seu apartamento, 1985

Por Pedro Oliveira no dia 28 de Janeiro de 2021 ⋅ 02:03

 

Uma canção de amor a um lugar maluco, o livro “A Lanterna Mágica de Mólotov: uma viagem pela história da Rússia” (Todavia, 365 pp. Tradução: Sergio Santos Filho)  apresenta o maior país do mundo através das relações entre pessoas, lugares obscuros, livros perdidos e cidades inconscientes dos segredos que guardam. 

O ensaio teve início quando a escritora Rachel Polonsky estava em Moscou e foi presenteada com as chaves do apartamento que pertenceu a Viatcheslav Mólotov, braço direito de Josef Stálin. A biblioteca de Mólotov deu régua e compasso para Rachel desenhar aquilo que o historiador Simon Sebag Montefiore chamou de “um mapa sinuoso da alma e da vida cotidiana da Rússia e uma luminosa, charmosa e fascinante aula sobre literatura, poder, tragédia e morte”.

A obra nos lembra que, durante a maior parte da história da União Soviética, o uso de certos livros era um crime invariavelmente punido com a execução. “Um dos grandes privilégios do poder político sob Stálin era a posse de uma biblioteca privada”. Daí o interesse em ler a história de um país a partir dos exemplares que foram proibidos. E daí o conflito que presenciamos no contato da escritora britânica com aquela biblioteca: “Tinha sido educada para valorizar os livros, mas aqueles volumes deteriorados eram resíduos de uma força maligna, ainda não extinta. Durante décadas o seu proprietário fora o segundo homem mais poderoso do império de Stálin, chefe da sua máquina de governo e o camarada mais próximo e confiável, um homem que havia diligentemente colaborado para os crimes do tirano, condenando milhões à morte”.

Mas Rachel atravessa o conflito, assume a peleja e nos mostra como essa pessoa, responsável pelas diretrizes de um Estado, atendeu a ligação do melhor amigo: “Ao ouvir sua voz pela linha, Mólotov desligou o telefone duas vezes. Aróssev ligou uma terceira vez e disse a Mólotov que podia ouvi-lo respirar. Depois de várias chamadas, Mólotov pronunciou apenas duas palavras, comunicando a Aróssev que tomaria conta de seus filhos”. Ao combinar histórias e memórias de marechais, assassinos e  poetas com passeios investigativos pela Rússia contemporânea, A Lanterna Mágica de Mólotov criou um ponto de vista singular para elaborar a definição de Winston Churchill sobre o país: “A Rússia é um enigma envolto num mistério dentro de um enigma”.

Com o livro, assistimos a mitologia desta nação impossível, de tão vasta, que se tornou viável através da liderança de personalidades maciças - Ivan, o Terrível, Pedro e Catarina, os grandes, Alexandre, o Libertador. Com a condução de Rachel Polonsky, vemos Stálin fazendo exercícios de simbologia para modernizar esses mitos ao escolher um nome - ‘stal’, em russo, significa ‘aço’. ‘Molotok’, ‘martelo’. Acompanhamos as camadas de violência instauradas para que uma cidade com o nome de Stalingrado e sua ambição de se tornar a capital de um mundo perdurem. Rachel gostaria do mantra de Ferreira Gullar no Poema Sujo, escrito em 1975: “Stalingrado resiste”. Parte do livro é o relato de como esta imagem se converteu em um sonho cercado de pesadelos por todos os lados - pesadelos, corrupção e medo; “uma força maligna, ainda não extinta”.

A outra parte, todavia, faz coro ao mantra. Stalingrado, Moscou e tudo que foi ou é Rússia resistiram com escritores, donos de biblioteca, políticos traídos, piadistas e poetas. Com Rachel, passamos um tempo com figuras como Nikolai Fiódorov, o curador mais famoso da Biblioteca Estatal Russa e um dos teóricos do Cosmismo, movimento que defendia o uso de métodos científicos que possibilitassem a imortalidade humana e a ressuscitação de pessoas mortas - tudo com o auxílio luxuoso dos livros. “Fiódorov acreditava, quase literalmente, que livros são seres animados, por expressarem os pensamentos e as almas de seus autores. Um livro é a mais elevada das reminiscências do passado, pois o representa em seu aspecto mais humano, o passado enquanto pensamento. ‘Estudar’, para Fiódorov, significava ‘não censurar nem louvar, mas restaurar a vida’”.

O urso, majestoso e feroz, é o animal que representa a Rússia. O geógrafo Tim Marshall conta que, embora haja uma palavra russa para urso, os russos temem usá-la, para não evocar seu lado mais sombrio. A poeta brasileira Maria Cecília Nachtergaele chama o animal pelo nome (“A história terminou,/ Mas a dorzinha persiste./ Talvez cinema adiante/ .../ Bem-aventurados os ursos, porque deles é/ a hibernação”). Rachel Polonsky também chama. Volta e meia, cutuca o bicho com vara curta. Mas nas outras voltas que A Lanterna Mágica de Molotóv dá, ressuscita gente como as poetas Anna Akhmátova e Marina Tsvetaeva, e os escritores Liev Tolstói e Fiódor Dostoiévski. Mostra que Fiódorov tinha razão - “a ressurreição dos mortos não é uma ideia tão absurda quanto parece”. Mas pergunta se a lógica vale para os sonhos - e projetos de nação, futuro e sociedade.

 



 

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