Bahia

Waldir Pires teve vida marcada por lutas e vitórias grandiosas; relembre série especial

Ao longo de três matérias especiais vamos conhecer a história de vida deste baiano que tem fundamental importância na história política do Brasil

[Waldir Pires teve vida marcada por lutas e vitórias grandiosas; relembre série especial ]
Foto : Cindi Rios/ Ascom - Uneb

Por Nardele Gomes no dia 22 de Junho de 2018 ⋅ 11:00

Uma história de vida digna de livro. Um homem que entrou muito cedo na vida pública, disputas acirradas, uma derrota apertada e vitórias memoráveis, o exílio, o retorno, uma renúncia complicada de compreender, a aclamação das urnas. Lutas e vitórias igualmente grandiosas. A entrega a uma biografia política mantida reta e contínua.

Estamos falando de Dr. Waldir Pires. Ao longo de três matérias especiais vamos conhecer a história de vida deste baiano que tem fundamental importância na história política do Brasil.

Francisco Waldir Pires de Souza nasceu em Acajutiba, leste da Bahia, em 21 de outubro de 1926. Passou a infância em Amargosa e Nazaré. Queria se preparar para a Faculdade em Salvador e, para conseguir recursos, deu aulas de datilografia e latim, ainda com 15 anos. Aos 16 começou os estudos de Direito, foi orador da turma em sua formatura.

Sempre muito precoce, Waldir assumiu, aos 24 anos, a Secretaria de Estado do Governador Régis Pacheco, órgão que hoje equivale à Secretaria da Casa Civil. Casou-se com Dona Yolanda Avena, com quem viveu até o ano da morte dela, 2005. Elegeu-se deputado estadual aos 28 anos. Com 32, deputado federal, tendo sido escolhido vice-líder do governo de Juscelino Kubitschek.

Quatro anos depois, em 1962, candidatou-se ao Governo da Bahia. Na ocasião, Waldir Pires disputava com Antônio Lomanto Jr. e Aristóteles Góes, mas o eleitorado se dividia entre os dois primeiros. Àquela época, Lomanto Jr. tinha o apoio do jornal A Tarde, então muito influente, e da Igreja Católica. Waldir não se opunha à Igreja, mas representava o novo, tinha ideias menos conservadoras. O arcebispo primaz era Dom Augusto Álvaro da Silva, o Cardeal da Silva, que em determinado momento exigiu que Waldir negasse o apoio dos comunistas em sua campanha. Ele não aceitou e acabou sofrendo uma intensa propaganda contra ele, promovida pelo Cardeal da Silva.

Mário Kertész fala mais sobre a campanha de 1962. "Eu me lembro bem porque eu tinha 18 anos de idade. Todos os comunistas - eu não era do partido comunista, mas tinha muitos amigos - apoiaram ele e as forças de esquerda também. Ele perdeu por poucos votos para Lomanto Jr. muito por influência da Igreja Católica que na época era muito forte. O Cardeal Dom Álvaro da Silva chamou Waldir e disse, você tem que renunciar explicitamente o voto dos comunistas. Ele disse: 'Não sou comunista e também não vou renunciar isso porque não participa dos meus conceitos democráticos'. A igreja através do Cardeal que era um sujeito muito rigoroso mandou um comunicado para todas as paróquias pedindo para que não votasse nele e ele perdeu a eleição. Creio que muito por conta disso. Lomanto na época não era uma pessoa conhecida e acabou levando a eleição nessa leva aí", disse.

O político, professor, escritor e jornalista baiano Emiliano José também comenta este episódio da história política da Bahia. "Eu venho falar com a dureza da história. A participação do Cardeal da Silva foi uma participação ofensiva e que contou de modo muito forte para a derrota de Waldir, inegavelmente. Ele chamou o Waldir e disse: 'Olhe, você tem que dizer que nega o apoio dos comunistas'. Waldir disse: 'Óh Cardeal, eu não farei isso. O senhor sabe que eu sou um católico, meu pai é um católico, minha mãe também. Eu não vou negar o apoio que os comunistas estão me dando, não vou de jeito nenhum'. A partir daí o Cardeal recomendou que não votassem no Waldir e em candidatos comunistas. Isso, seguramente, é só ver os resultados, contou decisivamente para a derrota do Waldir e a vitória de Lomanto", contou. Lomanto Jr acabou eleito com pouco mais de 4% de diferença na quantidade de votos.

No ano seguinte, Waldir seguiu para Brasília, onde foi professor de Direito Constitucional e logo foi convidado pelo Presidente João Goulart para ocupar o cargo de Consultor Geral da República, e a partir daí tornou-se responsável pelas análises e pareceres da juridicidade e da constitucionalidade de leis.

1964. Com a eclosão do golpe militar Waldir Pires torna-se uma das duas últimas autoridades da democracia brasileira a deixarem o Palácio do Planalto antes da chegada dos militares. Foi o próprio Waldir Pires que contou essa história, durante o evento Café com Mário Kertész, realizado em novembro de 2013.

"Nós fomos Darcy Ribeiro, chefe da Casa Civil, eu consultor-geral da República, as duas últimas pessoas que saímos do Palácio do Planalto. Fiz o último documento da República e dizendo assim: 'Excelentíssimo presidente do Congresso Nacional, o presidente da República me incumbiu de comunicar que se dirigiu para o Rio Grande do Sul para assumir o controle das Forças Armadas e insistiremos, lutaremos para manter a ordem democrática e impedir o golpe de estado", declarou.

A saída de Waldir e de Darcy Ribeiro do Palácio do Planalto foi organizada pelo deputado Rubens Paiva. Para não serem presos, os dois precisaram fugir do país. Ficaram escondidos numa mata esperando um avião, e viajaram carregando galões de gasolina para abastecer a aeronave no caminho para o Uruguai.

Ouça a série na íntegra:

 

 

Notícias relacionadas