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Contardo Calligaris elogia manifestações e alerta para 'fuga de cérebros' do Brasil

Psicanalista reforça tom heroico dos atos contra o governo Bolsonaro em meio à pandemia de coronavírus

[Contardo Calligaris elogia manifestações e alerta para 'fuga de cérebros' do Brasil]
Foto : Fronteiras do Pensamento / Luiz Munhoz

Por Matheus Simoni no dia 03 de Junho de 2020 ⋅ 12:44

O psicanalista e escritor Contardo Calligaris comentou o período em que se encontra isolado por conta da pandemia de coronavírus. Em entrevista a Mário Kertész e à jornalista Malu Fontes hoje (3), durante o Jornal da Metrópole no Ar da Rádio Metrópole, ele apontou que os rumos da sociedade mudaram por conta da proliferação do vírus. "Estou no Skype o dia inteiro, atendendo pacientes à distância em vez de atendê-los presencialmente. Isso vai ser uma mudança para a psicoterapia, psicanálise e no geral. O atendimento à distância veio para ficar, mesmo sem a pandemia. Estou esperando que termine, estou afim de viajar e na idade de que não querem descobrir lugares novos e sim voltar para lugares onde já estiveram. Essa idade chega", brincou.

Questionado sobre o que pensar sobre mudanças efetivas no mundo pós-pandemia, Calligaris demonstrou que não está tão otimista. "Não acho que vamos ser muito melhores por causa da pandemia. Para mim, estaria bem se pudéssemos manter a mesma coisa. Mas a gente nunca volta à mesma coisa. Acho que tem uma dimensão de desconfiança da proximidade física que vai levar um certo tempo para ser vencida e retomada. Aquela coisa natural de se aproximar, tocar um no outro e outras coisas menos católicas e levarão um certo tempo", comentou. 

Contardo falou ainda do movimento negacionista que tomou conta do país diante da pandemia. Ele afirmou que as visões paranoicas e teorias da conspiração levam à negação da ciência. "É muito cômodo, o vírus, como as bactérias, são invisíveis. Tem essa ideia de que você está facilmente disposto a achar que é uma invenção de alguém. Também estamos sempre dispostos a aceitar uma explicação paranoica do mundo de alguém fazendo isso contra nós", disse. " As bolsas para as pesquisas científicas foram massacradas, tanto em humanas como exatas. A fuga de cérebros do Brasil vai ser cada vez forte. Primeiro porque o país se torna, infelizmente, mais triste. As pessoas que têm uma chance de ir embora começam a pensar nisso seriamente. Sobretudo por não ter meios financeiros para continuar uma pesquisa. Um dos grandes prazeres da vida é exercer a competência que você tem. Se te impedem de fazer aquilo porque não te dão dinheiro para continuar uma pesquisa, não há dúvidas disso", acrescentou.

O escritor ainda falou das manifestações no país em meio à pandemia de coronavírus. No último final de semana, torcidas organizadas, manifestantes antifascismo e grupos contra o racismo marcharam no Rio de Janeiro e em São Paulo para protestar. Um dos alvos foi o presidente Jair Bolsonaro. "Acho interessante que, até aqui no Brasil no domingo passado com a manifestação das torcidas, os progressistas tenham retomado um pouquinho a posse da rua. Do ponto de vista político, ela é muito importante. É muito difícil encarar um governo como esse, que é profundamente antipopular sem poder manifestar. Essa pandemia torna a manifestação ou ato ao mesmo tempo suicidário", comentou. "Se não tivesse a pandemia hoje, talvez tivesse clima para convocar manifestações do tamanho das Diretas Já. Com a pandemia, como vamos nos unir a 100 mil pessoas na Paulista ou na Castro Alves, mesmo com todos de máscara? Achei corajosa essa presença de rua nesse último fim de semana", finalizou. 

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