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Isolamento ressalta papel da individualidade para casados e solteiros, diz psicanalista

Em entrevista à Rádio Metrópole, Regina Navarro Lins falou sobre as queixas comuns dos comprometidos durante a pandemia: "Recebo mensagens de pessoas que se dizem sufocadas"

[Isolamento ressalta papel da individualidade para casados e solteiros, diz psicanalista]
Foto : Metropress

Por Juliana Rodrigues no dia 15 de Julho de 2020 ⋅ 12:44

O isolamento social provocado pela pandemia do coronavírus deve provocar transformações significativas nas relações amorosas, acredita a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins. Em entrevista à Rádio Metrópole, hoje (15), a especialista, que é autora de doze livros sobre o assunto, relacionou o ideal do amor romântico, que pressupõe exclusividade e "tornar-se um só", às constantes reclamações de casais que se sentem "sufocados" durante a quarentena.

"O que eu vejo é o casal que sempre trabalhou, cada um pro seu lado, acordava de manhã e ia pro trabalho, almoçava com os amigos do trabalho, chegava de noite, jantavam rapidinho, porque estavam cansados, e agora estão passando 24 horas por dia, 7 dias por semana, juntos. Recebo mensagens de pessoas que se dizem sufocadas. Nesse aspecto do casal, acontece uma coisa que agora ficou evidente. Somos regidos na nossa cultura pelo amor romântico, que é apenas uma das formas de amor. Esse amor prega a idealização, e no cotidiano você começa a perceber outros aspectos e se desencanta. Mas ele traz outros ideais e expectativas que não se cumprem, inclusive a ideia de que os dois vão se tornar um só. Todo mundo encara com a maior naturalidade, em um casal, um se meter na vida do outro, se mete até na roupa que o outro usa. Nós aceitamos esse não-respeito à individualidade do outro como se fosse normal. (...) Eu espero que quando acabar a pandemia, as pessoas que estão vivendo isso se deem conta da importância do respeito à individualidade para uma relação amorosa", pontuou.

A sexóloga acredita que a pandemia também poderá fazer com que as pessoas solteiras aprendam a estar bem sozinhas. "As pessoas solteiras que estão com medo de sair me escrevem se queixando que não podem encontrar outras pessoas em bares. Agora elas vão ter que desenvolver uma coisa muito importante, que é a capacidade de ficar bem sozinho, sem ter um par amoroso fixo, estável. Isso é muito importante, porque as pessoas não aprendem isso. Na nossa cultura ninguém incentiva as pessoas a ficarem bem sozinhas, que aliás elas ficam bem mais aptas para escolher uma relação amorosa nessas condições", afirmou.

Regina Navarro Lins ainda apontou a problemática do machismo nas construções dos relacionamentos afetivos. Citando a expressão "ideologia de gênero", usada constantemente por conservadores, a sexóloga ressaltou a importância de se debater relações de gênero desde a infância. "Acho que as escolas deveriam se reunir e começar a incluir educação sobre igualdade de gênero. Se espalhou uma coisa errada, e muita gente acredita, que ideologia de gênero é fazer menino virar menina e vice-versa. Ideologia de gênero é o que existe há 5 mil anos, quando o sistema patriarcal se instalou e criou um ideal masculino, de força, sucesso, poder, coragem e superioridade", explicou.

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