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Sexta-feira, 01 de dezembro de 2023

Cidade

Sem perspectivas de revitalização, rio Camarajipe se transforma em canal de esgoto e causa prejuízo a moradores

Prefeitura de Salvador informou ao Metro1 que há um estudo do Sistema de Microdrenagem da Bacia do rio

Sem perspectivas de revitalização, rio Camarajipe se transforma em canal de esgoto e causa prejuízo a moradores

Foto: Reprodução/Redes sociais

Por: Bélit Loiane no dia 17 de novembro de 2023 às 09:31

Atualizado: no dia 17 de novembro de 2023 às 10:06

Lixo, mau cheiro, água com espuma, resíduos tóxicos. O que hoje parece um esgoto a céu aberto já foi fonte de renda e abastecimento para Salvador. O maior rio urbano da capital baiana, o Camarajipe, enfrenta poluição em seu trajeto de 14 quilômetros há mais de 50 anos.

A revitalização da bacia hidrográfica é uma ambição discutida entre ambientalistas, população, historiadores e prometida por políticos que flertam com a causa desde quando entendeu-se que o rio estava sendo perdido para a grande quantidade de sujeira despejada em toda a sua extensão, no início da década de 70. O desejo já resultou em propostas e projetos, mas com iniciativas pequenas e pouco resolutivas.

Em junho de 2021, por exemplo, um projeto de indicação com o objetivo de estudar a viabilidade para a criação e execução da recuperação do rio foi apresentado pelo vereador André Fraga (PV), aprovado em sessão plenária da Câmara de Vereadores e encaminhado para a prefeitura. Desde então, nada foi feito.

O Metro1 buscou a prefeitura para saber quais são as medidas tomadas em relação à limpeza do rio. Por meio de nota enviada pela Secretaria de Comunicação, a gestão municipal informou que “existe um estudo do Sistema de Microdrenagem da Bacia do Rio Camurujipe no intuito de buscar soluções para o local”.

Voluntários 

Com o intuito de bloquear o processo de poluição do rio, um grupo voluntário de trabalho foi criado pela população. Encabeçado por Paulo Fernando de Almeida, o projeto SOS Camarajipe tenta reduzir a contaminação, através de reflorestamento e recomposição da planta que deu origem ao rio, a Camará. 

“Tem diversos tipos de lançamentos clandestinos no rio desde a nascente até a foz no Costa Azul. É complexo, estamos vendo na história um rio que já teve sua glória e hoje se encontra nessa situação, parte dele tamponado, inclusive os afluentes. E estamos aí com o projeto há quase dois anos aprovado e não move, não sai, não temos nenhuma resposta. Ninguém está interessado no rio, só em torná-lo um veículo de esgoto”, explicou Paulo.

Da nascente à foz

No último relatório técnico divulgado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) sobre o rio, no ano de 2020, das seis amostras de água coletadas de diferentes pontos do rio, cinco foram consideradas com qualidade péssima.

Não é preciso nenhum tipo de estudo para que os moradores de regiões próximas ao Camarajipe saibam disso. Moradora do Alto do Cabrito há 50 anos, próximo à nascente do rio, Zilda Fagundes, 69, relatou que ao decorrer das décadas assistiu vizinhos que dependiam da pesca para sobreviver a se reinventarem, devido à perda da vida saudável no rio.

“Era uma área muito importante, muito linda. Tinha gente que vivia da pesca aqui, mas agora tem esgoto caindo dentro da água. O rio está cheio de mato, água fedida, peixes mortos, muita baronesa. É muito descaso, falta limpeza”, contou.

Os relatos de Ana Lavigne complementam a situação narrada por Zilda. Ela convive com a situação desde 2001, na Avenida Magalhães Neto, foz do Camarajipe. No ano de 2021, a revolta de Ana com a situação resultou na criação do abaixo assinado Camarajipe Limpo.

“É ruim há 22 anos. A gente sempre vê essa lixarada toda vindo descendo o rio. Já vi aqui sofá, já vi geladeira. É uma coisa deplorável, é o lixo de toda Salvador que acaba aqui. A coisa é longa e envolve mais estrutura e boa vontade política”, afirmou.

Pesadelo da urbanização

O meio ambiente como um todo sofre quando uma região começa a se “modernizar” de maneira desordenada e Salvador não foge à regra. Assim como a verticalização da orla soteropolitana, o historiador Pablo Sousa acredita que a resposta para o que levou à contaminação do Camarajipe está na urbanização.

“Salvador foi se expandindo enquanto cidade e, no início do século 20, não se visava muito a proteção dos rios, eles eram vistos como problemas. Então, muitas vezes era negada a existência do rio, faziam suas obras desviando os cursos ou tampando esses leitos de água e isso foi trazendo um efeito negativo”, afirmou. 

A sujeira espalhada pela cidade potencializa a contaminação do rio. Como ponto de drenagem, as águas pluviais levam até a bacia hidrográfica os dejetos das ruas, criando um ciclo de poluição no Camajaripe, da cidade suja ao rio sujo. Para Pablo, o processo de revitalização do rio é urgente para a qualidade de vida dos soteropolitanos

“Enxergo a revitalização como algo vital para a população de Salvador, a cidade e o poder público. São leitos de água que eram limpos, naturais, que traziam benefícios para as pessoas, seja pela pesca ou pela própria saúde, porque um rio poluído acaba sendo um centro de doenças. Então, a revitalização do rio acaba sendo uma coisa fundamental para a melhoria da qualidade de vida não só do bioma, mas também para as pessoas”, disse.

O Metro1 procurou a Embasa - empresa responsável pelo saneamento básico da Bahia - e o Inema para tratar sobre o assunto. Em nota, a estatal informou que a poluição no rio “não se trata de uma questão relacionada à rede de esgoto operada pela Embasa”. Também afirmou que a “manutenção dos equipamentos de drenagem pluvial e manejo dos resíduos sólidos [lixo], serviços que são de responsabilidade da prefeitura municipal”. 

Já o instituto não se posicionou até a publicação desta reportagem.