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Cidade

Com Semob conivente, parte dos taxistas começa a agredir motoristas do Uber

A polêmica envolvendo o aplicativo Uber em Salvador teve início em março. Apesar de chegar aqui bem depois de outras capitais, a plataforma foi rejeitada pela Prefeitura, que classifica o Uber como transporte clandestino [Leia mais...]

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Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Metro1 no dia 21 de Julho de 2016 ⋅ 06:01

A polêmica envolvendo o  aplicativo Uber em Salvador teve início em março. Apesar de chegar aqui bem depois de outras capitais, a plataforma foi rejeitada pela Prefeitura, que classifica o Uber como transporte clandestino. Mesmo assim, os carros começaram a rodar — com intensa adesão do soteropolitano, que viu no Uber uma forma barata e moderna de fugir da problemática mobilidade de Salvador.

Com o crescimento da plataforma, surgiu também uma guerra que tem dividido a cidade: taxistas versus ‘uberistas’. E infelizmente, quando usamos o termo “embate”, não é no sentido figurado. Enquanto motoristas de táxis alegam que o aplicativo rouba a clientela e dizem ter o apoio da Prefeitura para serem ‘iscas’ contra o Uber, os motoristas do aplicativo relatam casos de violência e perseguição por parte dos agora rivais.

Enquanto a Prefeitura assiste a tudo e até incendeia a disputa, o cidadão fica no fogo cruzado, querendo só um serviço de qualidade. É pedir demais?

Postura estimula a violência
Em discussão com Mário Kertész na Metrópole, quarta (20), Fábio Mota alegou que não se pode culpar a Prefeitura  pela proibição do Uber porque a lei foi aprovada de maneira unânime na Câmara. Oportunamente, o secretário de Mobilidade ignora o fato de que a matéria, por fim, foi sancionada pelo prefeito ACM Neto.

Diante da ausência de fiscalização efetiva da Prefeitura em relação aos motoristas clandestinos, a Secretaria de Mobilidade se concentra no Uber, como se este fosse o grande problema da cidade. Impossível, portanto, não encarar esta postura como demagogia pré-eleitoral.

Ao usar taxistas na fiscalização, prefeitura terceiriza seu poder de polícia
A “ajuda” — como diz Fábio Mota — dos taxistas na fiscalização ao Uber parece banal, mas é consequência da falta de capacidade de se fiscalizar uma lei sancionada por Neto. Assim, a Prefeitura terceiriza o poder de polícia e coloca taxistas — principais interessados na repressão — na posição de fiscais precários da Secretaria de Mobilidade. 

Tanta intimidade, evidentemente, faz com que os taxistas se sintam “do mesmo lado” do secretário e, por isso, fiquem à vontade para agredir e intimidar motoristas do Uber. Como o secretário lava as mãos sobre a violência, como dizer que ele não a estimula?

“Somos perseguidos como marginais”
Um motorista do Uber, que pede anonimato — por motivos óbvios — conta que um colega sofreu uma emboscada de taxistas no último fim de semana. 
“Ele foi cercado por três deles em Narandiba e teve o carro apedrejado. Estão promovendo uma verdadeira caçada. Estão nos caçando como marginais”, reclamou. Os taxistas usam o próprio Uber contra os uberistas. “Quando você chega ao local, está rodeado por taxistas. Não querem concorrência. Estamos só prestando um bom serviço. Até quando isso vai durar?”, questionou.

“Guerra não leva a nada”, diz taxista
Taxistas como Marcos* mostram que a briga não é necessária. “Sou taxista e acho que essa guerra não leva a nada. Temos que melhorar nosso serviço, e o cliente que escolha”, disse. O Sindicato dos Taxistas da Bahia foi procurado para comentar o assunto, mas não respondeu as ligações. Ao Jornal da Metrópole, o Uber afirmou que considera inaceitável o uso de violência. “Todo cidadão tem o direito de escolher como quer se movimentar pela cidade”, afirmou. 

Taxistas pedem menos taxas
O taxista Roberto* explica que, se não fossem tão tarifados pela Prefeitura, poderiam concorrer com uberistas: “A única diferença é imposto. Quando regularizar o Uber, aí vai ser cobrado deles. Com essa crise, a Prefeitura pode querer ajudar, mas não vai se meter. Eu creio que depois que as eleições, eles vão aprovar o Uber”. 

E no aeroporto, cadê?
Enquanto a Prefeitura e vereadores fazem barulho com a resistência ao Uber — coincidentemente em ano de eleições municipais, com pelo menos 7 mil votos de taxistas em jogo —, os velhos motoristas clandestinos de Salvador continuam fazendo a festa. 

Na verdade, é mais fácil achar clandestinos do que uberistas na capital. É só ir ao aeroporto, à rodoviária ou a grandes festas à noite. E cadê a fiscalização e a apreensão dos veículos?

Tem até taxista jogando dos dois lados
Apesar de toda a represália por parte dos taxistas, Alberto* conta que muitos também estão atuando pela nova plataforma. “Tenho colegas que rodam táxi com o Uber ligado. Já presenciei taxistas rodando táxi e pegando passageiro pelo aplicativo. Eu estava conversando com um taxista e ele mesmo que mostrou que um passageiro chamou pelo Uber. Ele era o penúltimo da fila do táxi e deu prioridade ao Uber. Foi buscar no táxi”, contou. 
Taxista auxiliar, Maurício* reclama do valor exorbitante cobrado pelo aluguel dos veículos e vê o Uber como saída. “Se o secretário diz que é público, por que a Prefeitura não estipula um valor máximo de diária para se cobrar da gente? Eles querem impostos, mas melhorar a situação jamais. Vou migrar para o Uber mesmo”, afirmou.

Secretário nega “iscas”
Na semana passada, a Metrópole divulgou um áudio em que um taxista revela que o secretário de Mobilidade de Salvador (Semob), Fábio Mota, teria pedido numa reunião que a categoria servisse de “cobaia”  — no sentido de “isca” — para pedir Uber, insinuando que as emboscadas tinham a conivência e o apoio da Prefeitura.
Em discussão com Mário Kertész na última quarta, na Metrópole, o secretário negou que os taxistas sirvam como isca e os classificou como “parceiros” da Semob. “Não existe isso. Existe uma lei municipal que proíbe o Uber na cidade. É uma lei. Eu, como gestor público, tenho de cumprir. Temos uma operação na cidade com o apoio da Polícia Militar para combater o transporte clandestino”, disse.  

MP investiga “máfia dos alvarás”
E Maurício* não está sozinho quando reclama do alto valor cobrado aos taxistas auxiliares. Em abril, o Jornal da Metrópole mostrou que, dos 7.200 taxistas que a Prefeitura de Salvador diz ter na cidade, cerca de 80% deles são auxiliares — não são donos do alvará, portanto — e pagam cerca de R$ 800 de aluguel por semana. 
As denúncias motivaram o Ministério Público a instaurar um inquérito para investigar uma possível máfia dos alvarás. “Decidimos que eles têm de fazer um novo cadastramento, que quem for se cadastrar diga a verdade. Queremos saber qual o quadro real do sistema. Já conversamos com a Secretaria. Precisamos saber qual o cenário real”, explicou a promotora Rita Tourinho. 

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