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Jolivaldo Freitas: Ao vivo da Metrópole

A Rádio Metrópole merecia (e ainda está por merecer) um estudo sério sobre sua trajetória, importância e influência para a rádio no Brasil, notadamente na Bahia. [Leia mais...]

[Jolivaldo Freitas: Ao vivo da Metrópole]
Foto : Metropress

Por Jolivaldo Freitas no dia 03 de Abril de 2018 ⋅ 19:08

Há um monte de anos atrás eu escrevi na Tribuna da Bahia um artigo que deu o que falar, principalmente nas salas de aulas de algumas faculdades, e em que tive a grata surpresa do colunista do A Tarde, o jornalista Samuel Celestino, ter republicado trechos em sua prestigiada coluna. Eu, naquele tempo falava sobre a Rádio Metrópole, explicando que merecia (e ainda está por merecer) um estudo sério sobre sua trajetória, importância e influência para a rádio no Brasil, notadamente na Bahia. Eu escrevi à época o seguinte, que considero muito atual: “Sempre gostei de ouvir rádio e só deixei durante o período em que editava nas redações dos jornais e não havia tempo para isso. O tempo que restava era para correr atrás das quengas e elas ou se dedicam ao ofício com esmero ou estão dormindo e não dava para ouvir música ou noticiário juntos.

Minha memória é clara e ainda ouço e vejo – não, não sou esquizofrênico – o galope de Corisco, Moleque Saci alertando a Jerônimo, Herói do Sertão (tem no Google), que lá vinham os bandidos do coronel Saturnino Bragança; ou os lamentos e choros das novelas na Rádio PRA4, Sociedade da Bahia. E quem tivesse coragem que falasse no meio da novela. A mãe era capaz de jogar café fervente no desrespeitoso moleque. A vida era dividida assim: enquanto se esperava o dia passar para ouvir o novo capítulo e saber o que tinha acontecido com a personagem, e depois da novela, que era hora de menino ir dormir.

Hoje a mídia rádio, quando todo mundo achava que a essa altura estaria ungida, benzida e enterrada mostra sua cara. Claro que ninguém tem mais tempo de estar em casa com os ouvidos colados e mexendo no dial, coisa que já nem tem mais: tudo à base de led, mais fácil, é claro, mas só quem tentou sintonizar com botão sabe a agonia que era achar a faixa certa.

A história do rádio no Brasil começou em Recife, no final da segunda década do século passado com a Rádio Clube de Pernambuco e em 1922 lá de cima do Corcovado o rádio virou uma onda, sem trocadilho, claro, minha senhora. Durante décadas ele dominou as atenções nos lares baianos e quem soube do suicídio de Getúlio Vargas soube pelo rádio. Quem vivenciou o Brasil ganhando sua primeira Copa do Mundo em 1958, o fez pelo rádio escutando vindo de longe, lá da Suécia o shh, axxx, scrattth, xuuuiii – perdoe a onomatopeia mas era assim que chegava a voz do locutor, justamente quando o Brasil fazia o gol e ninguém sabia ao certo quem fez. Era ruído angustiante para o país inteiro.

Com a chegada da televisão nos anos 1950; nos anos 1960 ganhamos a TV Itapoan (escreve-se assim mesmo, não tenho culpa), falava-se lá em casa: - Desligue este rádio menino, que quero assistir “Papai sabe tudo”. Era a morte do rádio anunciada. Mas ali estava Fênix. Sofreu mas não morreu e com a entrada das FMs nos anos 70 foi ganhando espaço de novo. Na Bahia nos anos 1960 e pedaço de 1970 do século passado o radialista França Teixeira era pop. Até o grupo Novos Baianos foi lançado lá e estourou com a música que usava seu refrão: “É ferro na boneca”.

Mas o rádio foi sofrendo com outros meios que chegavam para dividir espaço e o asfixiar: internet, celular, TV a cabo... Mas aí uma nova onda requalificou o rádio na Bahia e foi justamente a Rádio Metrópole – que ontem comemorou seus 14 anos de atuação e do qual sou seu comentarista mais orgulhoso (que Antonio Lins, Albergaria, Waltinho Queiróz e Joacy Góes me perdoem) – que deu uma nova formatação.

Pode-se dizer que a Metrópole é a mãe de todos as rádios que têm programas com comentaristas e apresentadores ao vivo e até a cores, quando passa on line pela internet. O formato que Mário Kertész imprimiu, de dialogar com a população num nível mais elevado, discutindo, comentando opinando, elogiando, criticando, resolvendo, não censurando e trazendo uma linguagem coloquial – notadamente defendo os valores inerentes à baianidade - e principalmente interagindo, garantiu seu sucesso gradual, e hoje todas as outras copiam o modelo e muitas, como a original, são reconhecidas pelo público. Quem ganhou com isso foi o meio rádio. Os profissionais sérios que gravitam no meio. Parabéns aos meus colegas da Metrópole. Parabéns ao rádio na Bahia. Cada vez melhor, mais intenso e profissional”.

Pois é. Não retiro uma palavra. Se o texto não estivesse tão grande até acrescentaria coisas da maior relevância que por lá venho vivenciando. Fica para os 21 anos. Maioridade absoluta.

Escritor e jornalista: [email protected]

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