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Prédios ocupados em Salvador têm até lista de espera: 'A gente não tá aqui porque quer'

Famílias sem-teto ocupam prédios abandonados em Salvador e aguardam por ajuda do Poder Público

[Prédios ocupados em Salvador têm até lista de espera: 'A gente não tá aqui porque quer']
Foto : Tácio Moreira/Metropress

Por Bárbara Silveira no dia 10 de Maio de 2018 ⋅ 08:43

“Parece sonho, mas é real”. Era o slogan do condomínio que começou a ser construído em 2008 no bairro do Trobogy, e deveria ter sido entregue em 2011. Sete anos depois, quem busca abrigo nas três torres inacabadas e destruídas pela ação do tempo não são as mais de 300 famílias que adquiriram o imóvel anos atrás. “A gente não está aqui porque quer, estamos em busca de moradia”. A explicação é de Cristiano Pereira, desempregado que vive no local com a mulher e os cinco filhos.  

Ele foi um dos primeiros a morar no condomínio inacabado, que após ser abandonado pela construtora – que decretou falência e não deu segmento à obra – foi ocupado por membros do Movimento Nacional de Luta Pela Moradia. Cristiano e os cerca de 200 vizinhos não são os únicos vivendo em ocupações insalubres em Salvador.  Além de condições precárias, todos compartilham o medo de um fim como o dos moradores do Edifício Wilton Paes de Almeida, em São Paulo.


Taxa de manutenção garante funcionamento
Em meio a prédios de classe média, o Atlantic Beach, no Stiep, se destaca. Apesar do nome cheio de pompa, o requinte ficou apenas no projeto que não saiu do papel. Na construção inacabada repleta de infiltrações moram 72 famílias que fazem parte do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST). O Jornal da Metrópole esteve no local na última terça-feira (8), mas foi impedido de visitar a área interna do prédio. “Vieram aqui, tiraram foto e só mostraram a parte ruim. Quer dizer, querem colocar a gente para correr, né?”, reclamou uma moradora desconfiada.

Com Infraestrutura precária, moradores vivem no improviso
O curto-circuito que deu início ao incêndio no edifício Wilton Paes, em São Paulo, não é uma realidade distante dos prédios ocupados no Trobogy, onde fios emaranhados levam a energia da rua para os apartamentos ocupados. De acordo com Cristiano, os moradores tentam se organizar para garantir o mínimo de infraestrutura. “Um colega que é eletricista. A gente faz uma vaquinha e dá um dinheirinho a ele. Tem uma taxa de R$ 10 que a gente cobra para fazer a manutenção da bomba”, contou Cristiano, sendo interrompido por um colega que o alertava para “tomar cuidado com o que ia falar”.

Apartamentos têm lista de espera no Trobogy
Apesar de a Prefeitura de Salvador não ter um número exato da quantidade de imóveis ocupados na cidade, de acordo com moradores da ocupação do Trobogy, a grande procura motivou a criação de uma lista de espera para viver no local. “Sempre continua vindo gente para cá. Tem famílias aguardando a lista de espera, pois têm apartamentos que ainda não estão adequados para morar. Essa melhoria a gente que faz, constrói de bloco, só não pode colocar tapume”, contou Cristiano. Os membros do movimento ocupam os oito primeiros andares das torres inacabadas.

Prefeitura promete analisar 
Mesmo após anos de ocupação, as estruturas ainda não passaram por uma avaliação estrutural. De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento e Urbanismo (Sedur), uma segunda reunião está sendo agendada com integrantes da Codesal para determinar o início das vistorias. “Até então não veio um órgão aqui para procurar saber como está a gente, se precisamos de alguma coisa. O que a gente busca não é auxílio-aluguel. A gente quer moradia, um lugar digno para morar”, completou um morador que não quis se identificar. O Movimento Nacional de Luta Pela Moradia não foi encontrado para comentar a ocupação no bairro do Trobogy.  “Aqui dentro só tem família, a gente brinca, dá risada, briga, mas a gente se ama. Os vizinhos dos outros prédios não gostam da gente de raiva, estamos em uma área nobre, né? Privilegiada”,  completou a moradora da ocupação do Stiep sem revelar o nome para “não dar problema”.

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