Cultura

Juca de Oliveira critica Lei Rouanet: 'Não se deve dar dinheiro ao artista'

O ator avaliou o momento do teatro brasileiro como "péssimo" e disse que a lei desestimula o surgimento de novos autores

[Juca de Oliveira critica Lei Rouanet: 'Não se deve dar dinheiro ao artista']
Foto : Divulgação

Por Metro1 no dia 07 de Junho de 2018 ⋅ 13:20

O ator Juca de Oliveira fez um desabafo sobre o momento do teatro brasileiro e direcionou queixas ao efeito da Lei Rouanet, embora acredite que ela foi criada com "objetivos louváveis".

"A cultura nacional vive hoje um dos piores momentos da sua história. Mas prefiro me fixar no péssimo momento do nosso teatro. Depois de quase 60 anos como profissional de teatro concluí que o maior responsável pelo fenômeno é a Lei Rouanet, embora os objetivos culturais da sua criação tenham sido louváveis. Não se deve dar dinheiro ao artista", disse ele em entrevista a José Nêumanne publicada no Estadão.

Juca prossegue: "O Estado deve criar condições para o desenvolvimento cultural do país, mas não dar dinheiro ao artista. O ator e a atriz ganham o seu dinheiro com a sua arte. Quanto mais próximos da perfeição chegarem, maiores serão o sucesso e a recompensa do seu público. Ele ou ela sente a recompensa quando confere o dinheiro da bilheteria em longas temporadas de até dois, três, quatro anos em cartaz. E sempre nos orgulhamos dessa independência. Porque é a independência econômica que nos garante a independência ideológica para o livre exercício da nossa arte através dos séculos". 

Para reforçar o argumento, o ator e diretor cita o colega Antonio Fagundes: "O teatro é uma atividade, uma profissão movida pela paixão. Quando alguém dá dinheiro ao ator, mata a paixão com que ele se atira à realização dos seus sonhos e projetos e o acorrenta. Se há o dinheiro da lei, não foi a paixão, não foi o resultado do seu trabalho que lhe deu o salário, que agora – isso é trágico – não vem mais da bilheteria. Nosso querido e genial Antonio Fagundes, que não faz espetáculos pela Lei Rouanet e fica anos em cartaz com suas produções, disse em recente entrevista: 'Se o ator vive só de patrocínio, a bilheteria não interessa mais… Não perceberam que o teatro está morrendo'". 

E por fim: "É sabido que Shakespeare escrevia com os dois olhos na caixa registradora e foi um excepcional empresário, lotando teatros de 2 mil lugares, cinco dias por semana. Se em Stratford houvesse a Lei Rouanet, ele não teria escrito nem uma das suas 38 peças e o mundo seria infinitamente mais ignorante. Os dramaturgos em todo o mundo ganham um percentual de 10% do que arrecada a bilheteria. Como depois da Rouanet o resultado da bilheteria se tornou quase zero, espetáculos dois dias por semana, às vezes apenas um, temporadas ridiculamente curtas, não há mais estímulo para o surgimento de novos autores de teatro, os que menos ganham na era da Rouanet. E o mais incompreensível: é um fenômeno brasileiro. A Argentina, para citar um vizinho mais pobre, tem um teatro excepcional, uma verdadeira Broadway bombando seis dias por semana, com 400 peças em cartaz". 

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