Cultura

O Cravinho muito cheio... no Pelô meio vazio

Bar dribla crise do Pelourinho e atrai turistas e, o que é mais surpreendente, baianos, todos os dias da semana

[O Cravinho muito cheio... no Pelô meio vazio]
Foto : Tácio Moreira / Metropress

Por James Martins no dia 10 de Janeiro de 2019 ⋅ 11:10

Não é de hoje que se lamenta e se discute a famosa e polêmica crise do Centro Histórico, do Pelourinho, outrora pulsante área cultural e de lazer da cidade, hoje esvaziado na maior parte do tempo. No entanto, se existe um ponto que seguramente não foi atingido pela debandada geral, verdadeiro oásis do Pelô, esse lugar é O Cravinho. Sabe aquela história do copo meio cheio ou meio vazio? Pois o Cravinho está sempre muito cheio no Pelourinho quase sempre vazio.

Localizado no Terreiro de Jesus, nº 3, o bar fundado no início dos anos 1980 não apenas vive lotado, chova ou faça sol, qualquer dia da semana, mas (e isso é o mais surpreendente) vive cheio de soteropolitanos! "Eu venho aqui sempre, há mais de 20 anos, adoro!", diz Oziel Alves, 46 anos, morador de Pernambués. Questionado sobre o segredo do Cravinho para se manter tão ativo mesmo em tempos de crise, ele confessa não saber, mas arrisca: "A qualidade conta. Tudo aqui, da bebida aos tira-gostos, é bom. O camarão alho e óleo mesmo... já comeu? É o melhor da Bahia", garante. 

Já a turista Dília Doolan, 37, que veio de Natal (RN), gostou primeiramente do ambiente. "Parece um pub! O cheiro, os barris, o mobiliário...", disse, enquanto tentava conseguir uma bebida no balcão. Acompanhada da prima Luana Fernandes, 30, também natalense, mas que mora em Salvador há três anos, ela tomou um Antigripal: mistura de várias infusões. “Só o que diferencia de um pub autêntico é essa aglomeração toda em cima do balcão. Mas, tudo bem, é um pub baiano”, brinca.


Dília Doolan e Luana Fernandes são de Natal e brindaram, felizes, o seu Antigripal: "Pub baiano"

Muita gente no balcão, muita gente nas mesas. Luiz Ferrão, o organizador do acesso, diz que, em horário de pico, a fila de espera chega a 30 minutos. "Ah, vale à pena. O que importa é comer minha moela", destaca Lucas Pereira, 31 anos, morador do Curuzu, que trouxe pai, mãe e namorada. “Eu venho sempre. Hoje trouxe a galera. Esse ambiente aqui é massa”, diz, do lado de fora.


Sempre muita gente, em todos os ambientes... (Foto: Tácio Moreira / Metropress) 

E por falar em Antigripal, O Cravinho é famoso por suas infusões. A que batiza o bar leva cachaça, cravo, mel e limão. Já a Senzala tem cachaça, vinho, catuaba, jatobá, mel e limão. Um dos quatro ambientes do estabelecimento é a cachaçaria, onde se pode comprar as bebidas para levar, em garrafinhas especiais. De Curitiba, Leo Silva, 26 anos, faz as contas para ver quantas leva. Presente? "Não, é pra mim mesmo. Gostei muito da Gabriela [cachaça, limão, mel, cravo e canela]", diz. No outro ambiente, o disputado Jatobá, o artista plástico Irakitan saboreia iscas de peixe: "Esse lugar tem que servir de modelo para os outros, ele é a chave para realavancar o Centro Histórico".

Pensando nisso, voltamos às sondagens sobre o segredo d'O Cravinho. A gerente Lucimeire Gomes, super atarefada, nem tem tempo para pensar. Já Adson Piño, 36 anos, também morador do Curuzu, especula: "Acho que o segredo é a identidade. É como se a gente estivesse na Bênção, em uma festa assim, entendeu? De alguma forma, o espírito daquele Pelourinho bombado se conservou mas também se renovou aqui no Cravinho. Os mais velhos foram trazendo os jovens...". Outro mistério é a coreografia para feitura do Antigripal, uma das bebidas mais pedidas: mas as mãos ágeis de Lucimeire nunca erram.


Muito mais que barril dobrado: quintuplicado! Daqui saem as bebidas... (Foto: Tácio Moreira / Metropress)

O mobiliário do Cravinho é todo esculpido em madeira nobre: Pau D'arco, Massaranduba e Gonçalo Alves. Mas a combinação de qualidade e preço bom é certamente uma das chaves do sucesso. Cada dose de infusão custa R$ 4. A garrafinha de meio-litro sai mais barato ainda: R$ 14. “É uma boa relação custo-benefício!”, diz Adson. O local é muito frequentado por artistas, intelectuais e agentes culturais de Salvador, como Vovô do Ilê e Alberto Pitta do Cortejo Afro, ambos disputando sua dose no balcão.


Alberto Pitta, do Cortejo, e Vovô, do Ilê, disputam suas doses como reles mortais: "Esse lugar já foi nosso"

“Rapaz, esse lugar já foi nosso. Hoje tá cada dia mais cheio… Perdi a moral”, brinca Vovô. Pitta é outro frequente. “Faço reuniões aqui. Trago gente do mundo inteiro e nunca passo vergonha. Qualidade garantida”, diz. Lá nos fundos da casa sempre rola uma animada roda de samba. As terças-feiras são do grupo D'Mansinho. O local já foi até providencialmente batizado: é o Bar Fundo do Cravinho.


O famoso bigode de Luiz Ferrão, guardião dos acessos (Foto: Tácio Moreira / Metropress)

Se nem a reforma do chafariz em frente, que inoportunamente foi agendada para o início do verão, consegue atrapalhar o andamento do bar, é fato que ele imprimiu algum padrão relevante para ser replicado em outros pontos. O que será? Enquanto a pergunta se repete, das 11h até fechar (para isso os horários variam), O Cravinho estará sempre cheio, desafiando a aridez dos desertos ao redor, servindo suas famosas bebidas e tira-gostos. Bom será se esse segredo - e/ou outros não tão misteriosos - for descoberto e aplicado a tempo. O Pelourinho precisa.

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