Cultura

Paulinho Camafeu: 'Minha música não vai cansar nunca'

Nos 45 anos do bloco afro Ilê Aiyê, é inevitável lembrar o autor de “Que Bloco é Esse?”, música que revolucionou o Carnaval de Salvador

[Paulinho Camafeu: 'Minha música não vai cansar nunca']
Foto : Rodrigo Maia / Metropress

Por James Martins no dia 06 de Fevereiro de 2019 ⋅ 11:10

O Ilê Aiyê comemora 45 anos em 2019 e, nesse Carnaval, o pioneiro entre os blocos afro vem com um tema que remete ao seu primeiro desfile. A pergunta repetida nas ruas ante a novidade daqueles pretos e pretas que, orgulhosamente, ganhavam a cidade vestindo cores fortes e ostentando adereços vistosos foi traduzida na canção que os animava: “Que bloco é esse? / Eu quero saber”. E a resposta vinha logo a seguir, na mesma estrofe: “É o mundo negro / Que viemos mostrar pra você”. O autor da proeza era um então jovem compositor do Pau Miúdo (no bom sentido), chamado Paulinho Camafeu, ou Paulinho de Camafeu, apelido herdado de sua ligação com o legendário Camafeu de Oxóssi, também músico, dono de barracas e de um restaurante famoso no Mercado Modelo. “Ele era meu padrinho, me ensinou muito, me deu muita dica”, disse Paulinho em entrevista exclusiva ao Metro1.

Jovem, sim, mas já bastante rodado, Paulinho Camafeu não era nenhum iniciante quando revolucionou o Carnaval de Salvador com a canção “Mundo Negro” (cujo título é uma tradução livre da expressão Ilê Aiyê), em 1975, dando início ao processo que Antônio Risério chamou de “reafricanização”. Preto de cabelo liso (“Eu sou uma mistura de negro com índio tupinambá, aquela tribo da ilha, mas sou soteropolitano legítimo”), o artista, antes de chegar ao Curuzu, já tinha passado pelos principais marcos do carnaval negro-mestiço daquele período: escolas de samba e blocos de índio. E o que se nota, refazendo-lhe a trajetória, é que Paulinho tem vocação para a vanguarda: foi ritmista da também pioneira Ritmistas do Samba, a primeira das escolas de Salvador, e compositor do Apaches do Tororó, o primeiro bloco de inspiração indígena.


Camafeu de Oxóssi e seu berimbau consagrado.  

Ao ser lembrado de uma página menos divulgada de sua atuação, como mestre-sala, ele até se surpreende. “Rapaz, como é que você sabe dessa história? Você foi longe pacaralho! Mestre-sala [destaca, orgulhoso]! Mestre-sala da Unidos do Vale do Canela. Eu saía nos Ritmistas do Samba, que era uma escola do primeiro grupo, mas eu queria completar minha trajetória e encontrei essa escola do segundo grupo, Unidos do Vale do Canela, que tinha um batuque invocado e eu aí comecei a movimentar lá… Aliás, no carnaval eu fazia um negócio engraçado: eu saía em um bloco ‘indígeno’ [sic], em um bloco de arrastão, em muitos… Pra falar a verdade, a minha história mesmo começou no Come Lixo, Vai Levando, Filhos do Mar… o primeiro bloco que eu saí foi Deixe a Vida de Kelé”, viaja.

E basta seguir os passos de Paulinho Camafeu, hoje com 71 anos e uma perna amputada devido a complicações do diabetes, que revivemos facilmente as evoluções e revoluções do Carnaval soteropolitano, muitas delas protagonizadas por ele próprio. “Eu mudei a linguagem musical do Apaches do Tororó”, diz, sem falsa modéstia. E conta sua chegada ao bloco: “Eu participava da escola Ritmistas do Samba nos tempos do mangue, Maciel. Aí os caras me chamaram: ‘Vamos no Apaches’. E eu digo: ‘Rapaz, eu não vou não que os caras lá são muito fechados’. Insistiram e eu disse tudo bem. Quando eu vi o batuque, eu digo: ‘Pô, eu tenho que fazer alguma coisa praqui’”.


A turma do Apaches do Tororó, pioneiro entre os blocos de índio.   

“Foi quando eu fiz: [canta] ‘Você falou que o Apache não vem / Chega mais, chega mais pra se dar bem. // Teve a bola de neve / A pomba branca da paz / Essa tribo de índio / Esse Apache é demais // Nosso pendão é mais forte / Com qualidade maior / Essa tribo de índio que vem lá do Tororó’! Rapaz, quando eu soltei… parece que tava ensaiado. Aí os compositores: ‘Esse cara vem pra cá, já com a linguagem dele…’. Porque, graças a Deus, eu sempre gostei de uma coisa nova, uma jogada, um balanço”, completa. 

E sobre seu faro poundiano para o novo, vocação de inventor que gerou “Que Bloco É Esse?” e, 10 anos depois, “Fricote” (com Luiz Caldas), outra explosão, marco do Axé Music, o próprio Paulinho esboça uma análise: “Por que o Ritmistas do Samba era uma escola de samba que tocava merengue. Parava no meio da avenida, tocando samba, e o maestro Jaime Baraúna puxava um merengue. Já pensou? Em pleno carnaval! Os músicos: Urubel, Disco, Valdir Lascada, Cambão, só os cobras-criadas. Olhavam um pro outro e já sabiam o que iam fazer. E aí, quando entrei no Apaches e ganhei o festival, eu não parei mais, sempre criando novidade, né?”.


Paulinho Camafeu excursionou com Gil em Realce e no show com Jimmy Cliff.

Novidade forte a que ele forjou no Carnaval de 1975. Portanto, esse ano o tema do bloco criado por Vovô e Apolônio de Jesus no Curuzu é: “Que Bloco É Esse? Eu Quero Saber: 45 Anos de Ilê Aiyê”. A agremiação nasceu no dia 1° de novembro de 74. Curiosamente, a música campeã daquele primeiro festival nem foi a de Paulinho Camafeu, mas “Olorum Bafafé”, de Jorjão, defendida por sua irmã Jacira Sacramento. Concursos, no entanto, parecem vocacionados a ser traídos pela história. Fosse no carro-de-som cedido por um político local, ou na palma da mão e no gogó depois que o veículo abandonou o desfile, o que pegou mesmo foi  o “mundo negro que viemos mostrar pra você”. Mas, afinal, como Paulinho chegou ao Ilê já naquele primeiro momento? Ele nos conta:     

“Eu tava no Mercado Modelo, que era minha diversidade da vida, onde eu fui criado, onde aprendi minhas jogadas quase todas de: Ou você segue um caminho certo ou você segue um caminho errado. E meu pai tinha loja lá, então eu tinha um amigo, que não está mais com a gente, mas que foi muito importante em minha vida e é até hoje, onde ele estiver, chamado Edifran. Ele sempre ia no mercado, lá na loja, me ver, dia de domingo e tal. Ele também saiu comigo, na minha ala no Ritmistas do Samba e, sabendo que eu gostava de coisas bem diferentes, chegou pra mim e disse: ‘Rapaz, você vai conhecer um batuque invocado aqui na Bahia - o Ilê Aiyê!’. ‘Onde é isso?’, perguntei. - ‘Liberdade, no Curuzu’. Eu digo: ‘Eu vou’. Aí, quando chego lá, com Edifran, que olhei: realmente! E eu disse a ele: ‘Vou fazer alguma coisa, vou tentar, pedir a Deus pra me iluminar pra eu fazer alguma coisa aí pro Ilê’. Foi quando fiz: [canta] ‘Que bloco é esse?...’. Que até hoje ficou na história, né? Quarenta e poucos anos e não vai cansar nunca!”.


Na rampa do Mercado Modelo, onde gravou o clipe de Menino Cae em 1982...

...E no estúdio de gravação: percussionista treinado na bateria dos Ritmistas do Samba.

Depois do sucesso na avenida, que também provocou muita reação adversa naquele 1975, inclusive um bafafá causado por provocações racistas de membros d’Os Internacionais, Paulinho Camafeu lembra que estava um dia na casa de Gilberto Gil, que ainda não era seu compadre, e este lhe pediu para mostrar uma composição: “Eu digo: ‘Como é que é? Gilberto Gil me pediu pra eu mostrar uma música? Vou mostrar porra nenhuma [risos]’. E ele: ‘Me mostre uma música sua, rapaz’. Aí, quando cantei 'Que Bloco é Esse?', ele, no violão, assim que eu fechei a boca, já estava cantando também, parecia que era um gravador. Mas ele não me disse que ia gravar, nem nada. E o disco dele tinha um título… que era o 'Refavela' [1977], um dos grandes discos da carreira dele”.
  
E talvez tenha sido essa gravação, que ritmicamente evoca as baterias dos blocos de índio, que deu a senha para, alguns anos depois, Gil ser o produtor (junto com Liminha) do primeiro disco do Ilê Aiyê: “Canto Negro”, de 1984. Àquela data o bloco comemorava 10 anos de existência e Paulinho 11 anos de sua primeira canção gravada, “P de Papa”, composta na famosa sapataria de Nelson Babalaô, na Caixa D’Água. “A sapataria ficava ali no Pirineus e era o ponto de encontro de todos os músicos. Como eu morava no Pirineus, eu frequentava lá todo dia. Nelson Babalaô era um puta compositor. Ele era o Cartola da Bahia!”, diz. 

Ainda no campo das lembranças, daquele tempo em que o carnaval de Salvador estava muito vinculado ao do Rio de Janeiro, vale a pena mencionar outro nome por meio da memória de Paulinho. Ele diz: “Nelson Maleiro eu ia pra vê-lo fazer instrumentos. Naquela portinha ele fazia os melhores bongôs, atabaques… Ele era uma inteligência!!! Antes das escolas do Rio terem aquelas alegorias móveis, antes, bem antes, ele já fazia aqui. Aquele gigante jogando fogo! Porra, bicho, ele foi o maior gênio...”. Outro: “Roque Fumaça era um puxador de samba diferente. Foi pro Rio e deu dor de cabeça nos puxadores de lá”. E um terceiro, mais conhecido, hoje intitulado Cacique: “Nesse tempo Carlinhos Brown ficava lá embaixo, com um pandeiro velho, só tique-tique-tique… Por isso, essas vivências, que ele tem esse saque bonito pra caramba, essas coisas!”.


Ele também criou o slogan Quem Tem Fé, Vai A Pé, hoje dito popular.

Nos versos do compositor, a negrada se apresentava assim: “Somos crioulo doido / Somos bem legal / Temos cabelo duro / Somos Black Power”. Power e pau. Pra rimar com legal. Pra afrontar. Antecipando em muitas décadas o jogo de Carlos Rennó em “Canção Pra Ti” (2017), list-song que, aliás, cita também a saída do Ilê: “De pau ereto (power) de tesão”. Aquele primeiro desfile, como uma capoeira, era dança e era luta. Era voo: “Palavra cantada é palavra voando”. Poder Negro afinal foi o nome sonhado por Vovô para o bloco, desencorajado por um amigo militar. Ficou Ilê Aiyê. E esse batismo em iorubá, quase involuntário, aprofunda a dimensão, não só do poder, mas da negritude (negrice) em geral. Basta lembrar que os negros norte-americanos são, via de regra, evangélicos. Ilê é macumba de Mãe Hilda. Bonita é a dança, a transa, entre as duas coisas: James Brown e Camafeu de Oxóssi. “Eu era de baile. Tocava com Big Ben, Perinho Santana, Maurício Cabeludo. A gente tocava muito no Clube 6, usava calça até a boca do estômago. Eu tinha o cabelo enorme”, lembra Paulinho. De Camafeu. De Oxóssi.

E comenta, a respeito da atitude de colocar aqueles valores na rua, na festa, na cidade, no Carnaval: “O Ilê deu mais abertura, coisa que não tinha. Ficava aquela história de ‘Pô, esse negócio de negão. Esse bloco de preto’. É por isso que eu gosto da Daniela Mercury, porque ela, naquele tempo em que nego ficava cheio de preconceito, ela frequentava o Ilê, o Muzenza, ela já ia sacar”.

Pergunto a Paulinho se é verdade que ele comeu Janis Joplin em sua temporada baiana, inconfidência de uma amiga em comum. Enfático: “Não, que conversa é essa? Eu fiz amizade com ela. Eu andei com ela, mas ela era muito louca pra meu gosto. Eu era louco, mas não era taaanto!”. E lembra outro roqueiro famoso que também conheceu quando fazia as vezes de guia no Mercado Modelo. “Andei com Mick Jagger, dos Rollings Stones, e tenho até hoje uma camisa guardada, que ele me deu. Eu nem sabia quem era. Ele chegou lá e eu gostei dele, aquela figura estranha”.


Com o amigo/irmão Moa do Katendê, em março de 1983.

Em 1987, Paulinho Camafeu lançou seu primeiro disco como cantor, o hoje esquecido “Mãe Natureza”, gravado nos estúdios WR. “Rangel me deu a maior força. Inclusive no negócio da pronúncia, com a técnica da caneta, que eu, baiano, falava errado comaporra (risos)”. E afirma: “Minha fase de cantar minhas músicas não foi pra ser reconhecido como cantor, não. Era o que eu sentia, queria passar. Porque tem muita gente que gravou música minha, mas não fazia o que eu tinha… sabe?”.

“Você não deveria ser mais reconhecido, Paulinho, dada a sua importância?”, pergunto. Resposta: “Rapaz, eu não sei, quem sabe é Deus. Eu tô aí. Tô inteiro, graças a Deus! Quem me chamar eu vou, se não me chamar, não vou. Eu não sou oferecido, eu não fico… não sou baba-ovo de ninguém. Não sou mesmo. Deus me deu a felicidade de ser criador, então eu posso dizer que eu sou uma dádiva de Deus, um criador. Não sou compositor de abobrinha, sou compositor de realidade”.


Clipe da canção Menino Cae, gravado em 1982 na rampa do Mercado Modelo

E assim como Ogum, orixá metalúrgico, fruto de uma dádiva tecnológica e senhor da modernidade, Paulinho não é saudosista nem tem medo do novo, antes deseja-o. “Àrà l’emi ‘n f’Ògún-ún dá”, diz um dos cantos de ijalá recolhido por Adeboye Babalola e citado por Risério no livro “Oriki Orixá”, que traduz: “O novo é meu jogo com Ogum”. Camafeu: “Não tenho saudades de nada. Eu sou aquariano, gosto de renovação, cada vez mais. Se agora o trio elétrico for uma espaçonave tocando aqui eu vou achar lindo. É coisa moderna, é novo, tá mudando, e muda. É 24 horas mudando tudo”.


Comandando a roda de samba, com destaque para o famoso anão do Bahia.

Criador do slogan “Quem tem fé, vai a pé”, hoje um verdadeiro ditado popular, ele não para. “Fiz uma música nova para o Ilê e outra em homenagem a meu compadre Gil”, anuncia. E pretende desfilar com o bloco nesse Carnaval icônico: “Eu tô querendo, se eu tiver bem recuperado, subir no carro lá com os meninos. Vovô é meu amigo, meu irmão, adoro ele”. E mais: “Tô terminando um disco chamado ‘Dubai de Salvador’, que é aquela parte do Iguatemi, aqueles prédios tudo bonito!”.

Com o nome gravado na história, um revolucionário que mora ainda no mesmo bairro onde nasceu, Paulinho Camafeu ajeita os cabelos, guarda os óculos escuros, docemente se despede e entra em sua casa. Os vizinhos o olham com carinho e orgulho. Antes falara ainda sobre Moa do Catendê (“Um cara manso! E vem um espírito-de-porco e faz aquilo”), Luiz Caldas (“Ele nunca falava meu nome. Quem é que não sabe disso? Por isso que a parceria dançou”), Fialuna (“Era um show!”) e outros, mas é preciso editar. Bem longe de Dubai (qualquer que seja), a fachada de sua casa exibe a palavra DEUS, toda em maiúsculas e em metal. Ogum está vivo. O poeta está tranquilo.

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