Cultura

Cafélier 25 anos: lição de sucesso sem descaracterização

Uma exposição de bules, com obras de 100 artistas, celebra as bodas de prata do mix de café e atelier

[Cafélier 25 anos: lição de sucesso sem descaracterização]
Foto : Tácio Moreira / Metropress

Por James Martins no dia 06 de Maio de 2019 ⋅ 09:55

O boom do Santo Antônio Além do Carmo, potencializado pela novela global “Segundo Sol”, tem incentivado muitos ateliês, bares, restaurantes e lojas a se instalarem no bairro. Quando eles chegam, no entanto, já encontram ali o tradicional Cafélier: um dos motivos principais desse mesmo boom! Batizado com uma palavra-valise, a la James Joyce, o mix de café e atelier comemora 25 anos em 2019 e, como parte da celebração, abrirá no dia 22 de maio, às 20h, a exposição Um Brinde ao Café II, que reúne bules criados por 100 artistas plásticos. 

"A ideia é reviver a exposição de xícaras que fizemos em 1997, ainda no Pelourinho", diz Paulo Vaz, o fundador e mantenedor do espaço. Pois é, pode ser uma surpresa para muita gente, mas o Cafélier não nasceu no Carmo, e sim na rua Inácio Acioli, ali perto, em 14 de abril de 1994. "Como a casa tinha dois andares, decidi instalar um café junto ao meu atelier", explica. 10 anos depois, em 2004, Paulo levou o Cafélier ao endereço atual, onde recebe visitas de nomes como Willen Defoe, Sônia Braga e Gugu Liberato. 

O resultado é um lugar onde as pessoas não vão exatamente pela comida ou pela bebida, mas pelo lugar em si. "É muito agradável, chego aqui sem pressa e aproveito", diz o empresário Evandro Arouca. Os clientes destacam também a gentileza, não apenas de Paulo, como do cozinheiro Zé Carlos, como atrativo. "Zé está comigo desde 95, é um patrimônio da casa", revela o dono, sempre disposto ao cumprimento. Seja como for, aqui também come-se e bebe-se bem. Entre os pratos mais pedidos, destacam-se o filé com penne ao pesto e o carpaccio bovino. Das bebidas, café, é claro: do vienense ao tradicional expresso. Resultado: nem sempre é possível achar um lugar.


Paulo Vaz em sua mesa localizada milimetricamente para cumprimentar e recepcionar.


Zé Carlos, o cozinheiro, cumprimenta uma cliente dos tempos do Pelourinho.

Sem Wi-Fi: um lugar para se apreciar

"Muita gente pergunta se não vou ampliar, para lucrar mais, já que há procura. Mas, não, não vou. A ideia não é ser um lugar grande e sim intimista, onde as pessoas possam conversar sossegadas. Também por isso não temos wi-fi, para que se possa apreciar o lugar e os amigos", diz Paulo Vaz. E completa: "O amor a esse conceito da casa eu acredito que seja a verdadeira razão do sucesso". De fato, não falta o que se olhar no Cafélier: desde uma tela enorme de Carlos Bastos, que pertenceu à lendária boate Anjo Azul, às xícaras da exposição citada, cujos artistas doaram ao café e que ficam em exposição permanente em uma charmosa cristaleira. Com destaque ainda para as muitas obras do argentino Reinaldo Eckenberger.


O Cafélier é quase uma exposição permanente de Reinaldo Eckenberger.

O xodó de Paulo, no entanto, é o balcão: "Tenho muito orgulho de tê-lo conseguido e restaurado, é a cereja do bolo". Mas, por falar em expansão, o artista plástico revela que o Instagram é uma das ferramentas do sucesso do Cafélier. E a produtora cultural Alana Silveira confirma: "Eu conheci na internet, quando uma amiga marcou uma foto, e vim correndo". Muitos clientes, porém, frequentam o local desde quando era no outro local, aquele do Pelourinho. E muito antes das redes sociais. É o caso de Solange Bernabó, filha de Carybé, que já fez um jantar no café, quando a cozinha ainda não era, digamos, profissional.

Dedicatória de Jorge Amado

No rodapé do cardápio se lê: "Numa xícara de café, pode-se colocar a beleza do mundo; / Numa xícara de café, pode-se sentir o sabor amargo e doce da vida". Assinado: Jorge Amado. O texto foi escrito especialmente para a exposição de xícaras, que reuniu nomes como Juarez Paraíso e Cesar Romero. Ambos, aliás, estarão novamente na exposição de bules, que celebra 25 anos de café. "São nossas bodas de prata, muitas coisas vividas, como num verdadeiro relacionamento amoroso. Quando comecei no Pelourinho, lá estava bombando, era um momento especial da Bahia, já aqui, quando viemos, as pessoas estavam saindo do Santo Antônio", explica Paulo Vaz, que também é morador do bairro.

Exibindo no mural uma verdadeira galeria da fama, de ACM a Maria Bethânia, o Cafélier no entanto recebe cada pessoa com deferência. "Aqui eu me sinto especial, mas sei que mais especial ainda é o pôr-do-sol", brinca o administrador Evandro Brandão. Combinação de belas e artes e arte culinária, o Cafélier é antes de tudo um exemplo da arte de viver. E de conviver. O criador do conceito explica: “Não gosto de guetos, de separação, para mim quanto mais misturado melhor”. Nesses 25 anos, com sucesso cada vez maior, o Cafélier é uma demonstração de como crescer sem se violar. Que serve de lição e merece parabéns.

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