Cultura

Escritora Paloma Amado recorda processo criativo do pai

Ela diz que pai tinha o hábito de ficar na rede enquanto tinha ideias para os livros

[Escritora Paloma Amado recorda processo criativo do pai ]
Foto : Tácio Moreira/ Metropress

Por Juliana Almirante no dia 10 de Setembro de 2019 ⋅ 12:25

A filha do autor baiano Jorge Amado, a também escritora Paloma Amado falou, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (10), sobre o processo de criação do pai para escrever suas grandes obras, reconhecidas em todo o mundo. 

"Era um longo método. Porque não era uma coisa que ia do primeiro dia ao ponto final. Ele ia modificando. Primeiro, era aquela história que papai contava. Ele dizia que o escritor se balançava na rede e chegava um caipira e disse: 'Descansando, hein, escritor?'. 'Não, estou trabalhando'. Depois chegava a cavar uma terra para plantar uma árvore e ele dizia: 'Não estou descansando'. Então quando meu pai deitava muito  na rede e olhava para o tempo, poderia ter certeza de que ele estava amadurecendo na cabeça um livro. Aí ninguém poderia chegar perto dele. Depois ele achava que o livro já estava amadurecido o suficiente para começar. Nesse começo, ele não podia se desligar das coisas da sala e escrevia na mesa da sala", contou.

Paloma afirma que participava, juntamente com toda família, do processo de revisão dos livros do pai. Jorge lia com entonação e recebia sugestões dos familiares. Depois de um tempo, Paloma afirma que resolveu escrever um livro de receitas das comidas preferidas dos personagens de Jorge. 

"Então eu participei da revisão desde os meus 13 anos, desde Dona Flor. Com isso, você acaba aprendendo uma porção de coisas. Muitas coisas. Mas eu nunca tive essa coisa de escrever. Eu comecei a escrever os livros de cozinha, que foram em cima de pesquisa sobre a obra dele, com o que ele dava de comer e beber aos personagens. Ele dá de comer aos personagens desde o primeiro livro. Meu pai dizia que os personagens tinham que ser de carne e osso. Se eles eram vivos, tinham que comer. Ele dava aos personagens dele o que ele mais gostava de comer: sarapatel", lembra.

Memórias

Paloma relata que nasceu em 1951, na antiga Tchecoslováquia, onde Jorge e a família precisaram ficar, após serem obrigados a deixar o Brasil durante a ditadura militar brasileira. O escritor recebeu asilo no país após ser expulso da França. 


"Nasci na Tchecoslováquia, quando ele (Jorge) estava exilado. Ele era deputado pelo Partido Comunista. Ele teve que sair a toque de caixa, o nome dele era o primeiro da lista. Invadiram a casa deles, reviraram tudo. Meu irmão João era recém-nascido. Então foi muito difícil. Papai foi embora e cinco meses depois minha mãe foi com João. Ficaram dois anos em Paris, mas era pós-guerra, em plena guerra fria e franceses colocaram todo mundo que era estrangeiro para fora", recordou.

Um ano depois do nascimento de Paloma, em 1952, a família retornou ao Brasil e viveu no Rio de Janeiro durante 11 anos. Ela afirma que considera privilegiada por ter nascido na família Amado e ter tido oportunidade de ter conhecido personalidades como os filósofos Sartre e Simone de Beauvoir.  

"Tenho consciência de que fui privilegiada na minha vida. Apesar de meu pai dizia que iam esquecer ele quando morresse. Ao contrário, ele está sendo cada vez mais traduzido e publicado", disse. 

Paloma teve ainda o privilégio de ter dois padrinhos ilustres: os escritores chileno e cubano, respectivamente, Pablo Neruda e  Nicolas Guillen.

"Acho que meu grande privilégio não foi apertar a mão dessas pessoas. Meu grande privilégio foi de ter convívio sem aquilo de estrela fulano. Aprendi com meu pai que quem é importante de verdade não é estrela e é simples.  Quem presta é simples e assim foi", comenta. 

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