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Cultura

Críticas ao temperamento de Elis Regina são fruto de machismo, diz filho

Em entrevista à Rádio Metrópole, o produtor musical João Marcello Bôscoli falou sobre o livro "Elis e Eu", que resgata memórias de sua convivência com a mãe

[Críticas ao temperamento de Elis Regina são fruto de machismo, diz filho]
Foto : Divulgação/Editora Planeta

Por Juliana Almirante e Juliana Rodrigues no dia 01 de Novembro de 2019 ⋅ 09:37

Filho da cantora Elis Regina e do produtor e jornalista Ronaldo Bôscoli, o produtor musical João Marcello Bôscoli falou, hoje (1º), em entrevista à Rádio Metrópole, sobre as lembranças de sua convivência com a mãe, tema do livro "Elis e Eu: 11 anos, seis meses e 19 dias com minha mãe", lançado na semana passada. Nascido em 1970, João Marcello é o primogênito de Elis, falecida em 1982. O produtor ressaltou que a cantora era uma mãe rigorosa, e ao citar a fama de "temperamental" que Elis tinha, afirmou que esse julgamento era uma expressão do machismo da época.

"As pessoas falam muito do temperamento de Elis, mas é sempre bom lembrar ao ouvinte que a gente está falando de uma mulher de 1,53m. Se hoje existe machismo invencível, naquela época, era mais forte. Claro que ela tinha temperamento intenso. Mas eu credito muito do que se fala da mulher Elis Regina a um machismo, porque acho que você já deve ter ouvido diversas vezes, quando uma mulher fala mais alto, ela é histérica. Quando homem fala mais alto, é fortão e poderoso. (...) Essa brincadeira que Vinicius [de Moraes] fez de batizar ela de Pimentinha, carinhosamente, claro que é verdade, mas se ela não fizesse isso ela seria engolida viva, literalmente. Sobretudo em um meio em que mais de 90% das pessoas era do sexo masculino e era um jeito de se defender. Então, esse rigor sempre existia em casa. Eu era um homem que a amava, mas enquanto uma pessoa que era educada, ela não pensava duas vezes em ativar o modo mãe rigorosa", declarou.

Em entrevista publicada no caderno Folhetim, da Folha de S. Paulo, em junho de 1979, a própria cantora chegou a falar sobre o machismo no meio artístico, que fez com que ela negasse sua feminilidade durante parte da carreira. "Na verdade, as mulheres muito ativas, participantes, obrigatoriamente têm que ser um pouco masculinas, também. O que é uma defesa pra gente. Porque você passa oitenta por cento do tempo convivendo com homens. Então, começa a transar muita calça Lee, tamanquinho, camisa, camiseta, colarzinho, sem chamar muito a atenção, que é pra não sofrer, também, as consequências de estar muito arrumadinha no meio da homarada", disse Elis.

João Marcello contou que o livro "Elis e Eu" é baseado exclusivamente em suas memórias, e que busca ressaltar, acima de tudo, a dimensão humana da artista. "Eu apenas fui me recordando das minhas primeiras lembranças, no início, como eu falo na introdução do livro, são apenas imagens. (...) Com o passar dos anos, com 8, 9, 10, 11 anos, as memórias ficam mais extensas. Então é um olhar, é uma visão de uma criança, filho dela, de dentro de casa. Eu só transcrevi essas memórias para o papel, da maneira mais enxuta possível. (...) Além disso, no livro há fotos de acervo pessoal. Há publicação de pensamentos escritos por ela em um pequeno diário. Então isso tudo compõe outra faceta de Elis Regina, pessoa pública que todos conhecem", afirmou. 

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