Cultura

Criador do grafite ‘Faustino’, Miguel Cordeiro diz que esquerda 'alijou' grandes nomes do pensamento

Ele afirma que campo ideológico teria deixado de levar em conta nomes como o antropólogo Darcy Ribeiro, o político opositor da ditadura militar Ulysses Guimarães e o geógrafo Milton Santos

[Criador do grafite ‘Faustino’, Miguel Cordeiro diz que esquerda 'alijou' grandes nomes do pensamento]
Foto : Matheus Simoni/Metropress

Por Juliana Almirante no dia 06 de Novembro de 2019 ⋅ 12:51

O artista plástico Miguel Cordeiro, criador do famoso personagem do grafite “Faustino”, criticou o campo ideológico da esquerda, em entrevista à Rádio Metrópole hoje (9), por supostamente excluir pensadores do campo do humanismo.

Ele afirma que, quando a esquerda chegou ao poder, teria deixado de levar em conta nomes como o antropólogo Darcy Ribeiro, o político opositor da ditadura militar Ulysses Guimarães e o geógrafo Milton Santos.

“A direita a gente nunca espera nada, porque sempre foi uma porcaria. A gente sabe disso. O pensamento de direita, não estou falando de quem tem integridade, mas o grande pensamento (humanista) era uma coisa da esquerda. O que a esquerda fez? A esquerda alijou os grandes nomes da esquerda. Quando a esquerda chegou ao poder, você não ouve mais falar em Darcy Ribeiro, em Ulysses Guimarães, em Milton Santos. Algumas pessoas falam. Mas a esquerda alijou, tirou de campo, todos esses caras, para entrar um bando de gente incompetente, burra e ignorante, tipo Jean Wyllys, Gregório Duvivier, Márcia Tiburi”, acusa.

Para o artista, os grandes nomes foram alijados pela esquerda porque têm pensamento crítico além da ideologia de esquerda ou direita.

“Eles pensam no ser humano e podem ser críticas tanto a direita quanto da esquerda. A direita e a esquerda não aceitam mais críticas delas, nem aceitam críticas internas, mas do cara que é independente, não tem mais”, condena Miguel.

Faustino

Miguel conta que o personagem "Faustino" surgiu em 1979, puxado por uma onda de grafiteiros que criaram na esteira do grafiteiro “Mancha” que escreveu a frase "Abaixo a Ditacuja", em Salvador. À época, o país vivia uma maior abertura democrática, com o fim do AI-5, mas ainda sob a ditadura militar.

O artista escolheu o nome do personagem aleatoriamente e pensou em representar o universo cafona, com frases como “Faustino usa escovinha pata a pata”. Embora estivesse no período da ditadura, ele afirma que não sofreu censura porque fazia uma crítica mais politico-existencial e não ideológico. No entanto, naquele momento, o grafite ainda não tinha conquistado o patamar de arte de rua e riscava os muros sem autorização.

“Os meios de comunicação tradicionais inicialmente chamavam de vandalismo. Ao mesmo tempo, tinha outra camada da população achava sensacional. A arte tem esse poder de entortar e criar um novo paradigma. Então a gente criou novo paradigma com arte de rua”, definiu.

Ele relata que parou de grafitar frases com o personagem em 1985, mas depois de 30 anos, em 2013 fez nova investida nos muros da cidade. Uma das novas criações, “Faustino estuda para concurso de auditor fiscal”, reflete um desejo dele próprio de maior retorno financeiro do que o que tem na carreira artística.

“Foi coisa sensacional, do choque de gerações, que se fez presente, uma geração das antigas conhecia e o pessoal mais novo não sabia quem era esse cara. A pergunta era se eu tava fazendo bullying ou trollando alguém. Aí foi quando coloquei que “Faustino estuda para concurso de auditor fiscal”. Funcionalismo publico é carreira tranquilizante. Na verdade essa frase é porrada em mim mesmo, porque me arrependo de não ter feito carreira de auditor fiscal, porque sou inteligente e passaria. “My pocket” (meu bolso) preferiria ser auditor fiscal, porque o cara se for inteligente, faz o trabalho em dois dias e nos outros vou surfar na Indonésia. Não desmerecendo os auditores, é uma profissão maravilhosa”, brinca o artista.

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