Cultura

‘O preço da pandemia não pode ficar nas costas das classes média e trabalhadora’, reflete Marco Lucchesi 

Único brasileiro numa família de italianos, Marco Lucchesi conta que estava na Toscana quando a pandemia explodiu no país europeu

[‘O preço da pandemia não pode ficar nas costas das classes média e trabalhadora’, reflete Marco Lucchesi ]
Foto : Reprodução / Youtube

Por Alexandre Galvão no dia 07 de Agosto de 2020 ⋅ 13:42

Escritor, tradutor e presidente da Academia Brasileira de Letras, Marco Lucchesi refletiu hoje (7) sobre aspectos da pandemia. Ao recomendar um livro que não existe, Lucchesi citou a obra “A Taxação Sobre a Fortuna dos Pobres”.

“Sempre me pedem indicações e cabei inventando uns livros que inexistem. O livro de hoje que eu mais recomendaria seria ‘A Taxação Sobre a Fortuna dos Pobres’. Claro que esse é um assunto que não se encara. O preço da pandemia não pode ficar nas costas das classes média e trabalhadora”, afirmou, em entrevista a Mário Kertész, na Rádio Metrópole

Lucchesi, no entanto, citou também obras reais. Para os tempos pandêmicos, ele indicou “Os Noivos”, romance do italiano Alessandro Manzoni. “Esse livro faz uma radiografia do que Brasil de hoje. Primeiro se nega, depois a pandemia vai sendo insidiosa e quando você reconhece que existe, aqueles mais ricos saem e os mais pobres morrem. É uma vergonha que nos encontremos nessa crise, que não precisaríamos estar vivendo hoje se tivéssemos coordenação sanitária. Infelizmente, chegamos a esse ponto”, refletiu. 

Livro revisitado agora por MK, "Decameron", de Giovanni Boccaccio, também conversa com os tempos atuais, na opinião do Presidente da Academia Brasileira de Letras. “É uma obra-prima. Ele fez aquilo que estamos fazendo hoje, é justamente durante a peste encontrar formas de sobrevivência a partir de literatura. Foi Boccacio que deu na história da literatura o paradigma de que o verdadeiro remédio é a cultura, que a cultura salva. É o que as mídias fazem, com as lives, a nova sociabilidade, para vencer esse isolamento que não é desejável, mas necessário”, apontou. 

Único brasileiro numa família de italianos, Marco Lucchesi conta que estava na Toscana quando a pandemia explodiu no país europeu. “Estava na Itália, na Toscana, e ainda não tinha chegado com a força que chegou. A Itália tomou cuidados, mas ainda não se sabia dos riscos. Eu perdi um parente. Uma parte do mundo se deu conta da gravidade, aqui no Brasil vamos perder 100 mil vidas e ainda pode dobrar”, lamentou. 

O escritor falou também do trabalho que a ABL desenvolve com presidiários e indígenas. “Tratamos desde as questões das nações indígenas, as terras quilombolas.., os índios Guaranis foram à Academia e foram recebidos em Guarani. Eles falaram e temos ido às aldeias para levar livros e também às prisões, onde a sombra é luz. Tudo é complexo. Mas eles também são cidadãos. É preciso evitar um genocídio nas prisões. Os que estão numa espécie de navio negreiro, esses vão morrer. Mas de todo modo, você sabe muito bem que a questão já era colocada por Darcy Ribeiro. Para sair dessa situação dramática, as pessoas levam a escola à prisão. muitos jovens só encontrarão a escola quando encontrarem a masmorra. A gente dá escola. A academia leva livros”, narrou. 

Em isolamento social, desde o início da pandemia, Lucchesi afirmou que não perde a esperança: “Isso não pode nos anestesiar”. “Se a gente não escreve, a gente enlouquece. Ser brasileiro é um alto risco. Eu moro em Niterói, não saio do meu jardim. Acabei de escrever um romance, acabei de fazer uma produção de um poeta romeno. Vejo o noticiário, fico irritado, depois tenho que me acalmar, como os brasileiros que buscam formas de compreensão. Estou me preocupado com os índios, com os detentos, com as comunidades do Rio de Janeiro, comunidades do Nordeste... falta tudo, só não pode faltar esperança. É muita loucura, mas isso não pode nos anestesiar”. 

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