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Crime do pacote: após 50 anos, enigma da Ladeira de Santa Tereza não tem solução
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Crime do pacote: após 50 anos, enigma da Ladeira de Santa Tereza não tem solução
Na investigação criminal, identificar a vítima é o primeiro passo para solucionar um homicídio, mas, aquele caso, a polícia estava de pés e mãos atados.

Foto: Reprodução
Reportagem publicada originalmente no Jornal da Metropole em 19 de janeiro de 2023
Quem chega ao Museu de Arte Sacra, centro de Salvador, sequer imagina, mas os arredores da instituição guardam segredos tenebrosos. Um deles, o mistério jamais desvendado de um homem esquartejado, deixado na Ladeira de Santa Teresa – ligação entre as ruas Carlos Gomes e do Sodré, onde fica o museu. O achado macabro aconteceu em 8 de novembro de 1971, uma segunda-feira.
Embalado em um plástico verde e amarrado com linha de nylon vermelha, o cadáver estava em dois pacotes. Para completar o horror da cena, o morto não tinha rosto nem digitais. Faltavam-lhe cabeça e extremidades dos dedos. Ainda não existia o processo de identificação via DNA – criado em 1985, na Inglaterra, pelo geneticista Alec Jeffreys. Como descobrir quem era aquele ser?
Na investigação criminal, identificar a vítima é o primeiro passo para solucionar um homicídio. Naquele caso, a polícia estava de pés e mãos atados.
Homossexual?
Assinado pelo médico-legista Charles Pitex, laudo cadavérico atesta anemia aguda como causa mortis. Atingido no pulmão e aurícula cardíaca direitos, o desconhecido
sangrou até morrer. A arma do crime, uma faca afiada ou um punhal. Na busca pela identificação do morto, a polícia vazou algumas informações.
Inicialmente, divulgou que ele tinha uma extensa cicatriz na perna esquerda. Depois, cogitou tratar-se de um homossexual ativo, devido a vestígios de doenças sexualmente transmissíveis encontradas no orifício anal.
Mas as pistas não levaram a lugar algum. A suspeita de que o crime estivesse associado à orientação sexual da vítima foi reforçada pelo laudo da necropsia. O documento revelava que o pênis do desconhecido fora cuidadosamente preservado – característica de crimes passionais envolvendo homossexuais, segundo a policia.
Sem interesse
Ao longo do inquérito, só houve um suspeito de autoria. Um enfermeiro homossexual, que residia em São Paulo. Embora morasse em outro estado, ele esteve em Salvador na época do crime. Mas, sem provas que o incriminassem, foi liberado.
A investigação era difícil, mas a polícia também não demonstrava interesse na elucidação do “crime do pacote”.
Investigação lenta
Primeiro presidente do inquérito, o delegado Iso Ramiro Rocha, então plantonista da 1ª Delegacia (Piedade), admitiu, tempos depois, que “nunca chegou a se apaixonar pelo caso”. Tanto que, após 15 dias de trabalho, transferiu a apuração ao assistente, Américo Fáscio Lopes, que também não conseguiu resolver o homicídio.
Durante quase um ano, o cadáver mutilado ficou em uma das geladeiras do Instituto Médico-Legal Nina Rodrigues. Sem alarde, acabou sendo sepultado como indigente.
Decorridos mais de 50 anos, o caso do “esquartejado de Santa Teresa” continua envolto em mistério. Faz parte da galeria dos crimes não solucionados pela policia baiana. Pelos detalhes assombrosos, poderia até servir de roteiro para um thriller de sucesso. Mas tem um senão: ao contrário da vida real, na ficção, geralmente, os enigmas são solucionados.
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