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Mergulho no universo underground revela que há, sim, vida noturna em Salvador
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Mergulho no universo underground revela que há, sim, vida noturna em Salvador
Cena independente ocupa espaços alternativos, enfrenta a falta de estrutura e mantém a vida noturna de Salvador ativa fora do circuito tradicional

Foto: Fernando Carvalho/Divulgação
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole na edição de 16 de abril de 2026
Quando a noite acaba, para onde vai quem ainda não quer ir embora? Em Salvador, essa resposta raramente está nos roteiros mais óbvios. Às vezes, começa com um bar qualquer e, sem muito planejamento, termina em uma pista improvisada, luz baixa, som alto e gente que parece já se conhecer há tempos.
A cidade até carrega a fama de dormir cedo, de não ter vida noturna fora dos poucos points consolidados da boemia. Mas basta olhar além das programações previsíveis para perceber que existe uma outra Salvador acontecendo quando o sol se põe.
Longe do circuito turístico, uma rede de festas independentes, ocupações culturais e eventos itinerantes segue movimentando a madrugada com identidade própria e um público fiel. É a cena que resiste entre mudanças, perdas e reinvenções, e que, apesar dos obstáculos, faz a noite pulsar.
Novas rotas
Eventos espalhados em diversos pontos da capital baiana têm criado rotas e dinâmicas alternativas de ocupação de espaços. Foi nesse contexto que nasceu a Embrazza, festa idealizada pelo produtor e DJ Errari, ao lado do também produtor Paulilo Paredão.
A primeira edição, em 2023, surgiu de forma quase espontânea. Mais precisamente como o “after” do Festival Sangue Novo, no Pelourinho. Hoje, a festa já circula por espaços como o Colaboraê e Amsterdam, ambos situados no Rio Vermelho.
Além da Embrazza, Errari atua em outras frentes da cena underground, transitando por propostas que vão do rap ao eletrônico. É o caso das festas Matriz e Thug, realizadas na Casa da Nigéria — espaço no Largo do Pelourinho que, segundo o DJ, ainda é pouco explorado na noite soteropolitana.
“É um projeto que estava na minha cabeça há muito tempo e que hoje a gente vem fazendo acontecer, trazendo uma música pop fora do eixo, dialogando entre o mainstream e o underground”, explica Errari.
Caminhos cruzados
Existem também projetos como o Baile Essencial, que já circulou por cidades como São Paulo e Rio de Janeiro e agora chega a Salvador. A diversidade de propostas mostra que a cena não é única, mas é formada por núcleos que coexistem e, muitas vezes, se cruzam.
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Mais coisa acontecendo do que parece
Apesar dessa movimentação, ainda é comum ouvir que “não tem nada para fazer na cidade à noite”. Para quem conhece o circuito, tal percepção não corresponde à realidade. Para Errari, o problema, muitas vezes, está menos na oferta e mais na forma como o público se relaciona com ela.
“As pessoas dizem que só existem os mesmos espaços em Salvador. Mas será que a gente só tem isso ou não estão se permitindo conhecer além dos mesmos?”, questiona. Para o DJ, há uma certa resistência em sair da zona de conforto.
“Muitas vezes dizem que não tem o que fazer no fim de semana, mas tem página divulgando evento toda semana, grandes, menores, independentes. As pessoas não pesquisam”, pondera.
Parte do que diferencia as festas do circuito underground é justamente o cuidado com a experiência. Não se trata apenas de música, mas de criar um ambiente que dialogue com o público e proponha algo mais que o básico.
Papel do público
Essa movimentação também passa diretamente pelos artistas que ocupam esses espaços. MC e produtor, Bruno Madureira é um dos nomes que circulam por eventos independentes da cidade, especialmente em batalhas de rap e shows no Centro Histórico. Gente como ele é que faz a cena sobreviver.
“Acredito muito que o underground é o que mantém a vida noturna de Salvador ativa hoje. Eventos como batalhas de rap movimentam muito as ruas da cidade com gente, sobretudo no Centro Histórico, no Pelourinho”, afirma.
Identidade própria
Na Thug, por exemplo, a proposta passa por narrativa, memória e referência. “A gente homenageia diversas pessoas da música preta”, diz Errari. Isso se traduz em sets que atravessam gerações, misturam artistas e constroem uma linha sonora em sintonia com identidade, pertencimento e história.
Em outras festas, a experiência vem pela ocupação do espaço. Luzes improvisadas, projeções, intervenções visuais e performances ajudam a transformar lugares comuns em ambientes completamente diferentes. Um espaço conhecido por samba pode virar pista de eletrônico; um casarão antigo pode virar um baile pop.
Essa mistura também se reflete no público. Não há um perfil único, mas uma circulação diversa que reúne gente da periferia, artistas independentes, público LGBT+ e frequentadores que buscam algo fora do padrão.
“Acredito que o principal seja a possibilidade de existir com menos preocupação em relação ao julgamento alheio. Mesmo que ele ainda exista, não acontece da mesma forma que nas festas do mainstream. São ambientes mais acolhedores para os públicos que frequentam esses espaços”, afirma Luís Correia, assistente de recursos humanos e frequentador assíduo da Embrazza e da Showcase.
Falta espaço, e sobra vontade na night da capital
Se por um lado há criatividade e movimentação, por outro, a estrutura ainda é um desafio constante. Sem uma base fixa, a cena underground depende diretamente dos lugares onde consegue existir — e esses espaços têm diminuído ao longo dos anos.
A dificuldade em encontrar locais adequados se repete em diferentes produções. Muitos não têm estrutura mínima, outros enfrentam restrições com vizinhança, horário e alvarás. Há também espaços que simplesmente não se abrem para esse tipo de público ou proposta.
Além da escassez de espaço físico, há o desafio financeiro. Produções independentes operam com orçamento reduzido e precisam equilibrar custos com a realidade do público. Por isso, é comum que espaços badalados fechem as portas, como ocorreu com a Bombar, no Rio Vermelho, que encerrou as atividades semana passada após oito anos de existência. Segundo a fundadora, a DJ Gabi da Oxe, por asfixia financeira.
“A gente faz muito com pouco. O que a gente faz aqui é mágico”, resume Errari. “São processos muito difíceis, desafiadores, mas também gostosos. Porque se a gente não acreditasse, já teria desistido há muito tempo”, afirmou.
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Conta que não fecha
Produzir uma festa independente em Salvador é, muitas vezes, um exercício de equilíbrio financeiro. De um lado, custos altos. Do outro, um público que não pode arcar com ingressos elevados.
“O ingresso não pode ser muito caro, porque o nosso público majoritariamente é periférico. A galera já vai gastar com transporte, muitas vezes precisa voltar de Uber, porque não tem como ir de metrô no horário que a festa acaba”, detalha Paulilo Paredão.
Insistência e pertencimento
Mesmo com entraves, a cena segue se sustentando na base da colaboração e do desejo de continuar criando. Produtores, DJs e artistas formam uma rede que se apoia para manter os eventos acontecendo. “A gente criou uma rede de apoio. Uma artista chama a outra, a gente se indica, se contrata. Foi uma forma de manter a cena viva”, explica Paulilo.
Para Errari, a cena se sustenta justamente nessa insistência de continuar ativa e questiona: “se isso não é movimentação, se isso não é vida noturna, então o que é?”.
A resposta, para quem já atravessou essas pistas, parece óbvia. Salvador pode até não mostrar tudo de imediato. Mas, para quem se permite sair do roteiro, a noite continua ali, pulsando, diversa e longe de acabar.
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