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Sem motivos para comemorar: Metropole relembra aniversário de 59 anos do Golpe Militar

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Sem motivos para comemorar: Metropole relembra aniversário de 59 anos do Golpe Militar

Jornal Metropole revisita a história para lembrar o que levou o Brasil aos tempos sombrios da Ditadura Militar, período marcado por silenciamento de direitos, violência e morte

Sem motivos para comemorar: Metropole relembra aniversário de 59 anos do Golpe Militar

Foto: Arquivo nacional

Por: Nardele Gomes no dia 30 de março de 2023 às 07:30

Reportagem publicada originalmente no Jornal Metropole em 30 de março de 2023

Nenhum episódio da história é isolado na linha do tempo. Nenhum conflito surge hoje sem conexão com o passado. O Brasil lembra nesta semana um de seus momentos históricos mais difíceis: o Golpe de 64. Para entender este episódio, engenhosamente articulado dentro do Brasil e também fora dele, voltemos um pouco no tempo.

Túnel do tempo

Brasil, 1961. Jânio Quadros tomava posse como presidente da república. Seu governo, durou pouco: 7 meses após a posse, Jânio renunciou. O vice-presidente, que deveria assumir automaticamente o cargo, era João Goulart, Jango, que estava em viagem diplomática à China. No Brasil, os ministros militares Odylio Denys (Exército), Gabriel Grün Moss (Aeronáutica) e Silvio Heck (Marinha), viam em Jango a sombra de uma ameaça socialista ao país, e tentaram impedir sua posse. 

Jango foi alvo de uma manobra militar que o fez engolir um parlamentarismo à brasileira, mas acabou reinstalando o presidencialismo em 63, com o apoio da esquerda. O país era alvo de uma tensão que crescia dos dois lados. Agora olhemos um pouco mais de fora.

Contexto mundial

Desde o início da Guerra Fria, o mundo estava dividido em dois blocos: o capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e o socialista, pela União Soviética. Da década de 40 até o início dos anos 90, estas duas potências tentaram ampliar sua influência e implantar seus sistemas econômicos em outros países.

O jovem presidente americano, John F. Kennedy, preocupado com a esquerdização da américa latina, decide enviar ao Brasil o padre de Hollywood, padre das estrelas. De rosário nas mãos, o padre Patrick Peyton foi enviado ao Brasil numa espúria aliança com a CIA, para discursar e semear o medo das ideologias de esquerda. O Brasil era então, um país de absoluta maioria Católica, numa Igreja ainda mais conservadora do que é hoje.

Ameaça comunista

As medidas adotadas por João Goulart para reestruturar o país foram encaradas como de tendência comunista. Elas faziam parte de um plano trienal, que não foi aceito pelo Congresso. O desgaste de Jango, sofrido com a crise econômica vivida pelo país, junto com a oposição dos militares e da Igreja, crescia a todo momento.

Em 13 de março de 1964 o presidente realizou um grande comício para tentar fortalecer sua posição, em frente ao Edifício Central do Brasil, no então estado da Guanabara, reunindo mais de 150 mil pessoas: sindicalistas, servidores e estudantes. Em 19 de março, a resposta: a Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu mais de 300 mil pessoas em São Paulo, religiosos, empresários e setores conservadores, já dominados pelo medo propagado pela Igreja. Rosários nas mãos, bradavam contra o inferno que seria permanecer com Jango no poder.

O triste dia do golpe militar 

30 de março. Ainda na Guanabara, João Goulart vai  até o Automóvel Clube do Brasil, para um discurso inflamado a um auditório lotado de sargentos e suboficiais. Enquanto Jango falava, o presidente americano Lyndon Johnson (Kennedy fora assassinado em 63), telefonava ao seu assessor de imprensa, George Reedy, avisando-o de que naquela noite seria lançado um golpe militar contra o presidente brasileiro.

E em Minas Gerais, o general Olympio Mourão Filho, sem consultar mais ninguém, mobiliza as tropas, aciona conspiradores e segue em direção ao Presidente João Goulart.

Assim, sem que um único tiro fosse disparado, Goulart foi deposto. Seus direitos políticos foram cassados, assim como de dezenas de deputados e governadores pró Jango, e os militares assumiram o poder. O marechal Humberto de Alencar Castello Branco, nomeado presidente em 11 de abril de 64, prometeu entregar o cargo no início de 66 a um presidente eleito pelo povo, mas as próximas eleições com voto popular ocorreram apenas em 1989.

Nesses mais de 20 anos, a corrupção se espalhou ainda mais profundamente no país e a imprensa foi amordaçada. 200 mil pessoas foram presas por motivos políticos, 500 mil submetidas a investigações. Cerca de dez mil tiveram que deixar o Brasil no exílio. Milhares foram torturados. Mais de 400 foram assassinados ou estão desaparecidos.