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Às vésperas dos 60 anos do Golpe Militar, JM resgata lembranças e relatos de perseguições e torturas na ditadura

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Às vésperas dos 60 anos do Golpe Militar, JM resgata lembranças e relatos de perseguições e torturas na ditadura

Os efeitos da tragédia que colocou o país abaixo dos coturnos dos generais são sentidos ainda hoje por quem viveu os anos mais duros da ditadura instaurada pelas Forças Armadas

Às vésperas dos 60 anos do Golpe Militar, JM resgata lembranças e relatos de perseguições e torturas na ditadura

Foto: Reprodução/Arquivo Nacional

Por: Duda Matos e Gláucia Campos no dia 28 de março de 2024 às 11:12

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 28 de março de 2024

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”. A expressão extraída de uma das obras mais famosas de Karl Marx - O 18 de Brumário de Luís Bonaparte - permanece tão atual como era quando foi publicada em 1852 e serve para balizar a memória em torno dos 60 anos do Golpe Militar iniciado em 31 de março e consolidado em 1º de abril de 1964, quando o Brasil mergulhou na fase mais sombria de sua história recente, da qual só saiu mais de duas décadas depois.

Os efeitos da tragédia que colocou o país abaixo dos coturnos dos generais são sentidos ainda hoje por quem viveu os anos mais duros da ditadura instaurada pelas Forças Armadas e movida a mortes, torturas, perseguições, censura, supressão de liberdades individuais e terror. Caso do jornalista, escritor e ex-deputado baiano Emiliano José, 78 anos. Aos 24, o jovem militante de movimentos contrários ao regime experimentou o gosto da crueldade imposta pelos militares.

Em 23 de novembro de 1970, Emiliano, ou melhor, Pedro Luiz Vian, participava na praia da Ribeira de uma reunião da Ação Popular (AP), organização considerada subversiva pela ditadura. Estava acompanhado de outros dois dirigentes da AP, dos quais só lembra os prenomes: Vera e Zeca. Ao fim do encontro, os três seguiram em direção ao ponto de ônibus. O objetivo era chegar ao Centro de Salvador, mas são impedidos subitamente pelos agentes da repressão, que já acompanhavam os passos do grupo.

“Fui o primeiro a subir no ônibus, ou a tentar subir, quando uma gigantesca mão me alcança na escada, de baixo para cima, me puxa e me tira do ônibus num movimento violento. Saio correndo, e aí se ouve uma gritaria de ‘pega Ladrão, pega ladrão’. Pulei uma casa atrás da outra tentando escapar, mas um fusca, não propriamente com policiais, talvez com pessoas interessadas na prisão daquele assaltante, me alcança, e logo depois percebo que eles vão me entregar para a Polícia Federal (PF), que já estava por ali”, relembra.

Na sede da corporação, enfrentou o suplício dos torturadores. Após a primeira sessão de espancamentos, Emiliano foi recepcionado pelo coronel Luiz Arthur de Carvalho, superintendente da PF à época. Fingiu não saber o motivo da prisão e resolveu perguntar por que estava lá. “Você vai saber por que daqui a pouco, seu filho da puta, na tortura!”. No local, se deparou com Benjamin Ferreira e Mara Vieira, que participavam da AP. Entretanto, fizeram de conta que não se conheciam.

Foto: Acervo pessoal

Tortura
Como havia prometido o coronel Luiz Arthur, ele foi levado ao temido Forte do Barbalho, local que ficou marcado como o cenário de muita violência e atos de tortura. Vestido apenas com uma calça jeans e coberto de sangue após apanhar com barras de ferro e tijolos, vê diante de si um tanque de água, onde foi submetido a uma série de afogamentos. As etapas seguintes do sofrimento também eram bastante conhecidas pelos militantes de organizações clandestinas: pau de arara e choque elétrico.

No dia seguinte, conheceu o maior do seus algozes, o capitão da PM Gildo Ribeiro, integrado ao famigerado Destacamento de Operações e Informações do Centro de Operações e Defesa Interna (DOI-Codi), órgão subordinado ao Estado Maior do Exército. “Era uma figura tétrica, porque enquanto me torturava, ele ficava discutindo as preocupações rotineiras da própria casa. Enquanto acionava a maquininha do choque no pau de arara que eu estava, ele manifestava preocupação com a mulher que ia ser operada ou ficava falando das coisas do cotidiano”, recorda.

Lembranças de dias dolorosos

Em agosto de 1971, o estudante José Carlos Souza, codinome Rocha, militante do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), andava pela Avenida Sete de Setembro quando foi preso por militares e levado para o Forte do Barbalho. Estava acompanhado por um guerrilheiro famoso, César Benjamin Queiroz, que de 2017 a 2018 foi secretário municipal de Educação do Rio de Janeiro. “César conseguiu se livrar do policial que estava em cima dele, até porque quem me apontou na rua para a polícia me prender não o conhecia. Eu fui preso e passei a noite de sexta-feira sob sessões de pancada, mas deixaram a violência mais pesada para o sábado, no dia seguinte”, conta.

Souza passou dois anos preso, fase em que foi submetido a diferentes tipos de tortura. Chegou a ser interrogado pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, chefe do Departamento de Ordem Política e Social (Dops). “Ele era conhecido como maior torturador do período. Veio de São Paulo só para me interrogar, porque tinha muito interesse em matar o capitão Carlos Lamarca. Estava com a ideia fixa de que eu sabia onde Lamarca se escondia. Realmente, era um sujeito muito violento”, afirma.

Apesar do sofrimento, José Carlos, que anos depois se tornou professor de História em Salvador, diz não ter uma só gota de arrependimento “Naquele momento era o que deveria ser feito e eu fiz”, destaca. Para ele, é preciso manter sempre viva a memória relativa ao golpe de 1964 por uma questão pedagógica. Vai nos indicar a necessidade de manter a atenção dobrada para que jamais tenhamos outra ditadura”, conclui o professor e ex-guerrilheiro, ao lembrar a importância de que a história de uma tragédia não se repita como farsa. Diante das recentes tentativas da extrema-direita de restaurar o totalitarismo, o alerta vem na medida certa.