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Alta nos atendimentos por vício em apostas na Bahia expõe efeitos silenciosos da febre das bets
Um impulso irresistível de arriscar. A sensação de que, desta vez, a sorte vai acertar. Um descontrole nos gastos que se acumula, como se o próximo palpite pudesse pagar todos os prejuízos anteriores
Foto: Metropress
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 10 de julho de 2025
Um impulso irresistível de arriscar. A sensação de que, desta vez, a sorte vai acertar. Um descontrole nos gastos que se acumula, como se o próximo palpite pudesse pagar todos os prejuízos anteriores. É assim que o vício em apostas, denominada como ludomania, age e se espalha: em silêncio, gradativamente, mas com efeitos devastadores. Na Bahia, os sinais de alerta já se acumulam, inclusive, nas unidades de saúde. Não por coincidência, cresce também a presença das famosas bets no dia a dia dos baianos.
Casos dobram na rede pública
Dados da Secretaria da Saúde do Estado (Sesab), apontam que o número de atendimentos por dependência em jogos de azar na Rede de Atenção Psicossocial (Raps) da Bahia cresceu 142,86% entre 2023 e 2024. Foram sete atendimentos contra 17, respectivamente. Só no primeiro semestre de 2025, já foram nove novos registros. O transtorno é classificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como grave.
Entre os anos de 2022 e 2025, 21 unidades da Raps na Bahia relataram atendimento a pessoas com uso problemático dos jogos, somando 41 ocorrências com registro do código CID F.63, correspondente à ludopatia.
“O jogo, que antes era algo feito por diversão, vira uma necessidade, uma compulsão. A pessoa aposta mesmo quando já perdeu muito, mesmo quando sabe que vai se prejudicar. Ela entra num ciclo de repetição: joga, perde, sente culpa, promete parar e volta a jogar”, explica o psicólogo Iago Argolo.
Vício disfarçado
O formato chamativo dos aplicativos e o uso de celebridades e influenciadores como garotos-propaganda são algumas das características que contribuem para mascarar e, ao mesmo tempo, alastrar o problema. O apostador não se enxerga como viciado, mas sim como alguém tentando uma chance — e perdendo, de novo no final.
“A questão do jogo, que traz euforia quando ganha e depressão quando perde, é uma montanha-russa de emoções que não é saudável para ninguém. Viver com uma pessoa dessa é muito complicado, é um problema muito complexo”, disse um dos participantes da comunidade Jogadores Anônimos, em Salvador, que se identificou com as iniciais GS.
Destaque nacional
O avanço dos casos acompanha a popularização das plataformas digitais de apostas online, as famosas bets, permitidas desde 2018. De acordo com pesquisa do Instituto DataSenado, realizada em setembro de 2024, a Bahia ocupa a 4ª posição no ranking de estados com mais apostadores online: cerca de 1,5 milhão de baianos afirmaram ter feito apostas em sites ou aplicativos no intervalo de apenas 30 dias.
Arrecadação bilionária
O próprio ministro da Saúde, Alexandre Padilha, já fez o alerta e sugeriu que as apostas fossem regulamentadas como o cigarro, com controle sobre propagandas e alertas dos riscos de dependência. "A gente pode dar um passo além do cigarro, que é na própria plataforma ter mecanismos de acolhimento, de atendimento com profissional”, disse o ministro. Acontece que, pelo menos no papel, no caso das bets, já há uma regulamentação. Nas propagandas, por exemplo, as empresas precisam veicular o aviso “jogue com moderação”, como nos anúncios de bebidas alcoólicas.
A diferença que a regulamentação trouxe foi a contribuição aos cofres públicos - só em maio, foram R$ 814 milhões arrecadados - e a explosão do setor. Ainda assim, uma proposta polêmica no Senado que quer legalizar outro tipo de aposta: cassinos, jogo do bicho, bingos e caça-níqueis. Na última terça-feira (8), o texto chegou a ir ao plenário da Casa, mas a votação foi adiada.
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