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Guerra animal: sem regulamentação, planos de saúde pet avançam em mercado bilionário e acirram disputa com clínicas
No mercado bilionário dos bichos de estimação, planos de saúde para pets engordam faturamentos surfando no amor dos tutores e na ausência de regulamentação, enquanto clínicas veterinárias entram no cabo de guerra por maior repasse
Foto: Metropress/Marcelle Bittencourt
Materia publicada originalmente no Jornal Metropole em 28 de agosto de 2025
Na selva bilionária do mercado pet, onde petshops parecem shoppings e não faltam novidades para humanos apaixonados por seus bichos, uma disputa anda mostrando os dentes: clínicas veterinárias e planos de saúde para animais. Sem regulamentação, mas com apelo irresistível para tutores assustados com o preço das consultas, os convênios crescem feito coelho. Só que quem cuida dos pacientes de quatro patas reclama que o repasse é tão magro que ameaça a qualidade do atendimento. Na prática, uma briga de gato e rato que pode deixar os pets no meio do ringue.
Mercado bom pra cachorro
É só olhar o tamanho das lojas de grandes redes de petshop (e como elas se multiplicam pela cidade) para entender o mercado que está em jogo. O setor pet fechou 2024 com um faturamento total de R$ 75,4 bilhões, um crescimento de 9,6% em relação ao ano anterior. São consultas que podem custar R$ 250 e cirurgias que, muitas vezes, superam a casa dos R$ 10 mil. Sem falar em serviços como creches e dog walker (profissional para passear com o animal), que não param de surgir.
Foto: metropress/Marcelle Bitencourt
Briga boa no cachorródromo
Agora imagine a cena: após muitos sustos com a conta nas clínicas veterinárias, você contrata um plano de saúde para o seu pet, acreditando que nunca mais terá dores de cabeça com consultas, exames ou cirurgias. A promessa é tentadora: um pacote que garante desde os serviços mais básicos até procedimentos complexos, com valores a partir de R$ 50 por mês. Na prática, o que muitos tutores encontram é bem diferente, mas a bronca tem ficado mesmo com as clínicas veterinárias.
O que especialistas e profissionais da área chamam atenção é que essa realidade não se sustenta e a relação com as clínicas é desigual. Os repasses feitos aos veterinários costumam ser baixos demais, inviabilizando a realização de procedimentos de maior complexidade, como cirurgias especializadas, exames de imagem ou internações.
Quando o repasse é só um ossinho
Na medicina humana, o processo é simples: o médico solicita o exame, o paciente vai até um laboratório credenciado, faz o procedimento lá e retira o resultado. Já na veterinária, a dinâmica é diferente: boa parte acontece dentro da clínica. O animal é atendido, o tutor autoriza os exames, a equipe coleta o material, envia a um laboratório parceiro para a análise. O exame de sangue em um gato, por exemplo, é coletado com estrutura, profissional e material da clínica veterinária.
O problema, segundo relatam empresários e veterinários, é que muitos planos passaram a pagar diretamente ao laboratório, destinando às clínicas apenas uma taxa fixa de coleta, em alguns casos, cerca de R$12, independentemente da quantidade ou da complexidade dos exames.
Foto: metropress/Marcelle Bitencourt
E quem paga a conta?
O médico-veterinário Mateus Moraes Bastos, dono de uma clínica veterinária, reconhece que os planos de saúde para pets surgem como uma demanda cada vez mais forte entre tutores, principalmente nos últimos três anos. Mas o que ele aponta é que essa mudança de repasse pressiona diretamente as clínicas, reduz a remuneração dos profissionais e compromete a qualidade do atendimento.
“Não tem como pensar que as clínicas que começam a atender por plano vão manter o mesmo nível de assistência. Em algum ponto, alguém vai sair perdendo: o tutor, o animal ou a clínica. O único que nunca perde é o plano, eles não perdem nada”, criticou.
É uma conta que não fecha. Se, de um lado, os tutores buscam segurança financeira e serviços de qualidade, por outro, as clínicas enfrentam dificuldades para manter estrutura, insumos e equipe qualificada diante de valores tão baixos. A ausência de regras claras transforma o que poderia ser um benefício em mais uma incerteza, em que sempre sobra para alguém, menos para os planos.
Não perdem mesmo. Ao contrário: nos últimos anos só têm ganhado, a ponto da Petlove, por exemplo, lançar até planos de saúde pet corporativos para empresas oferecerem a seus funcionários, e a procura pela modalidade já teve um crescimento de 160% nos primeiros cinco meses do ano.
Sem coleira regulatória
Um empresário do ramo veterinário, que preferiu não se identificar e é citado nesta reportagem como Carlos* (nome fictício para preservar sua identidade), avaliou que o maior entrave nessa relação entre clínicas e planos de saúde é a ausência de regras claras que deem respaldo aos veterinários e tutores. Enquanto na saúde humana existe a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para fiscalizar e receber reclamações, na veterinária esse espaço simplesmente não existe.
“O principal problema em trabalhar com os planos de saúde é a falta de regulamentação. Na saúde humana, caso haja algum problema, podemos recorrer à ANS. Já no setor veterinário, não há nada parecido, e isso abre margem para abusos”, afirmou.
Sem fiscalização, empresas, muitas delas ligadas a grandes grupos de investimento, têm ocupado esse mercado em expansão, impulsionado pelo aumento do número de animais de estimação. Não à toa, companhias tradicionais, como o Bradesco por exemplo, já estão aos poucos agregando a seu portfólio esse tipo de serviço. Mas o risco, alertam especialistas, é que o crescimento rápido e sem regras transforme uma solução promissora em mais um problema para tutores, profissionais e, principalmente, para os animais.
Foto: metropress/Marcelle Bitencourt
Limbo regulatório
O Conselho Regional de Medicina Veterinária da Bahia (CRMV-BA) segue a mesma linha do Conselho Federal de Medicina (CFMV), cuja presidente, Ana Elisa Almeida, médica-veterinária formada pela Universidade Federal da Bahia, já denunciou, nas redes sociais, o pagamento de valores irrisórios a profissionais por parte dos planos e manifestou apoio público à regulamentação dos planos de saúde para animais. “O CFMV está atento e vai lutar para que a saúde animal nunca seja tratada como produto barato, porque a vida não tem preço e a medicina veterinária merece respeito”, chegou a afirmar a presidente do CFMV.
Na Bahia, o presidente do conselho regional, Lúcio Leopoldo, também é taxativo e defende a criação de uma agência reguladora exclusiva, nos moldes da ANS, como forma de organizar o setor, fiscalizar serviços e produtos, estabelecer normas claras e garantir maior segurança jurídica aos profissionais e consumidores. Ao Jornal Metropole, o CRMV-BA destacou que médicos-veterinários que atuam com planos de saúde pet reclamam de remuneração baixa, porém ainda de maneira informal.
Já há uma proposta para a criação de uma agência específica, chamada provisoriamente de ANSVet. O projeto já foi apresentado a deputados, mas segue em “fase de aperfeiçoamento”. O CFMV vem articulando medidas junto ao governo e ao Congresso, incluindo a entrega de um documento ao Ministério do Meio Ambiente, que possivelmente será responsável pela futura agência.
Sem mocinho no parquinho
Em como toda briga, a corda sempre aperta para o menor, seja ele um Pinscher ou um Lulu da Pomerânia. Uma médica veterinária, que pediu para não ser identificada e foi citada nesta reportagem como Silva* (nome fictício para preservar sua identidade), relatou que chegou a desistir de atender em clínicas que aceitavam plano de saúde pet, optando por um estabelecimento menor, que trabalha apenas pacientes particulares. Segundo ela, a decisão veio depois de enfrentar uma série de impasses com os convênios.
“Trabalhar com planos me deixava constantemente em conflito. Eu sentia que tinha que escolher entre fazer o atendimento da forma que considero correta ou aceitar o que o plano determinava. Muitas vezes, precisávamos realizar exames, mas o convênio não cobria, então gerava um grande transtorno no consultório. Muitas vezes, quando íamos realizar uma coleta de exame, o animal estava um pouco mais inquieto, então o atendimento demandava mais tempo. Utilizávamos nossos próprios insumos, mas precisávamos encaminhar para os laboratórios credenciados do plano e não para o nosso”, explicou.
O relato de Silvia é compartilhado por outros médicos-veterinários ouvidos pela reportagem. Mas o conflito deles não é só com os planos, com as grandes redes também, elas estão longe de serem apenas as mocinhas nessa briga animal. Silvia, por exemplo, relatou que, quando trabalhava em “clínicas de maior porte, existiam medicamentos vendidos diretamente na própria clínica”. Prescrever diversos remédios e indicar a compra ali gerava uma espécie de bônus para o estabelecimento. Para Silva, esse modelo, com a pressão constante dos planos de saúde e a necessidade de manter um alto desempenho nas clínicas, só evidencia uma precariedade na área veterinária.
Reclamações que miam alto
Um levantamento feito pelo Jornal Metropole no site ReclameAqui, plataforma onde consumidores registram queixas contra empresas e serviços, revelou o alto número de reclamações contra planos de saúde para pets.
Em um dos planos analisados, foram registradas 14.365 reclamações, envolvendo problemas como cobrança indevida, falta de clareza sobre a cobertura de vacinas em clínicas parceiras, ausência de cobertura para exames básicos, como aferição de pressão arterial, reembolso insuficiente e não cobertura integral de exames, como a dosagem de insulina. Em outro plano de saúde veterinário, foram 785 reclamações, incluindo negativa de radiografias e justificativas baseadas em quadros clínicos pré existentes, mesmo em planos que não exigem período de carência para esses procedimentos.
Sem regulamentação, sem dados?
O Procon-BA informou à reportagem que não há um recorte específico de dados sobre planos de saúde para animais de estimação. Segundo o órgão, em 2025 foram registradas apenas 4 reclamações que podem envolver este tipo de serviço: 2 relacionadas a cobranças indevidas ou abusivas para alteração ou cancelamento de contrato; 1 por oferta não cumprida, serviço não fornecido ou publicidade enganosa; e 1 sobre dificuldade ou atraso na devolução de valores pagos, reembolso ou retenção de pagamentos. Em 2024, o órgão registrou apenas uma queixa semelhante, referente a oferta não cumprida, serviço não fornecido ou publicidade enganosa.
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