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Série de projetos sobre adultização, após tema viralizar nas redes, expõe oportunismo temático no legislativo

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Série de projetos sobre adultização, após tema viralizar nas redes, expõe oportunismo temático no legislativo

Após repercussão nas redes, o tema da adultização já recebeu mais de 70 projetos no Congresso, expondo oportunismo temático do Legislativo e seus representantes

Série de projetos sobre adultização, após tema viralizar nas redes, expõe oportunismo temático no legislativo

Foto: Agência Brasil/Lula Marques

Por: Laisa Gama no dia 28 de agosto de 2025 às 06:47

Atualizado: no dia 28 de agosto de 2025 às 09:40

Materia publicada originalmente no Jornal Metropole em 28 de agosto de 2025

Se tem um esporte que os parlamentares brasileiros entendem é o surfe. Pode ser a onda que for, eles estão surfando: bebê reborn, adultização de crianças, pets em aeronaves. É só um caso ganhar repercussão e mobilizar a população, que logo aparece um vereador ou deputado com um projeto genial, prometendo a solução de todos os problemas. E não tem tempo ruim, até morte é oportunidade para projeto. No final das contas, o que importa é visibilidade, protagonismo e, com sorte, alguns votos.

Um exemplo recente: a denúncia feita por um influenciador envolvendo casos de exploração sexual de adolescentes nas redes sociais e como o algoritmo é usado por pedófilos. O nome do influenciador, o termo adultização (utilizado por ele) e os casos citados caíram como uma enxurrada na internet. Com a comoção pública e o alcance nas redes, a classe política, claro, transformou rapidamente o tema em urgência. Logo surgiu o PL da adultização e não foi o único sobre o tema: 70 foram apresentados em 20 dias.

O problema é que o Projeto de Lei2628/22, agora nomeado de PL da Adultização, estava parado no Congresso desde 2022, sem qualquer movimentação até que as redes sociais passaram a dar visibilidade ao caso. É como se só após a onda da discussão o tema tivesse se tornado importante.

Poucos dias antes da onda da adultização, a morte da cantora Preta Gil havia comovido o país. Com o nome em todas as manchetes de imprensa, a artista também passou a ser citada em projetos. Na Câmara Municipal de Salvador, dois dias foram suficientes para uma proposta de nomear um logradouro da cidade como Preta Gil.

Vidas de bonecos importam

Essa busca por holofotes não é novidade. No início deste ano, por exemplo, o tema da vez foram os bebês reborn. Praticamente na mesma semana em que o assunto viralizou, três PLs foram proto- colados na Câmara dos Deputados. Teve de tudo: desde proposta para proibir o atendimento dos bonecos em instituições de saúde até o Dia Municipal da Artesã de Bebê Reborn. Na Câmara Municipal de Salvador, a proposta foi para a criação de um protocolo clínico de atenção a pessoas que utilizam o boneco com fins terapêuticos.

Passou a repercussão, acabou a boa vontade

Como comoção é ingrediente indispensável na hora de apresentar os textos, a morte do labrador Joca, transportado em um voo da Gol em 2024, claro, rendeu PLs: mais especificamente oito na Câmara dos Deputados. Assim como tantos outros textos que surfam em onda, a proposta que avançou prometia mundo e fundos aos tutores,  mas, passada a repercussão, o PL foi aprovado com cortes que acabaram inviabilizando mudanças significativas. A última versão apresentada estabelece que caberá à companhia decidir se o pet será levado na cabine ou no compartimento de carga - onde Joca foi transportado e acabou falecendo. O pleito do movimento era justamente proibir o embarque de pets nesse espaço das aeronaves. 

A questão aqui não é o mérito ou não dos temas. Mas o oportunismo por trás de projetos que acabam se mostrando posteriormente inviáveis ou ineficientes, afinal a intenção era apenas surfar na onda do momento.