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Pasteurização do conteúdo segue como um problema estrutural nas escolas de Salvador
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Pasteurização do conteúdo segue como um problema estrutural nas escolas de Salvador
A cada período de rematrícula, explodem as denúncias de venda casada de livros, apostilas e plataformas digitais, a imposição de fornecedores

Foto: Tomáz Silva/Agência Brasil
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 31 de dezembro de 2025
O ano letivo de 2026 vai precisar de fé em Salvador. Fé para acreditar que a entrada da Bíblia (e somente a Bíblia) como material paradidático autorizado por lei municipal vai significar apenas uma valorização cultural, sem deixar o tal do Estado laico apenas no papel. E fé para confiar que a lei aprovada pela mesma Câmara para incluir temas locais, da história, geografia e atualidades da cidade, vai fazer uma ofensiva eficiente à pasteurização do conteúdo passado aos estudantes.
“O sucesso nacional” em troca da falência local
A lei do conteúdo local é uma resposta a preces e orações feitas, já com muita fé, por uma resposta à chegada em massa de grandes redes de ensino, com suas apostilas e módulos padronizados produzidos a quilômetros de distância da Baía de Todos-os-Santos. Um material que trata o Brasil como um só e que vende um modelo “de sucesso nacional” no vestibular. O pacote dessas redes costuma chegar completo: conteúdo, método, avaliação e, de quebra, a redução da escola local e dos professores a meros executores de um projeto pedagógico decidido fora dali.
O vestibular como religião oficial
Como um espelho, esse modelo de ensino acaba refletindo também nas redes públicas. A reportagem, por exemplo, buscou as secretárias de Educação questionando quais livros de autores baianos são efetivamente trabalhados nas escolas das redes. A pasta de Salvador não respondeu. Já a estadual, citando 14 autores baianos, disse apenas que os livros não são de uso obrigatório e compõem os acervos das bibliotecas, sendo utilizados conforme as propostas pedagógicas das escolas. Fundador da Caramurê , editora que aposta na cultura local, Fernando Oberlaender já havia alertado, em entrevista à Metropole, que, enquanto políticas públicas e decisões pedagógicas privilegiam materiais externos e narrativas únicas, as escolas seguem incapazes de refletir a pluralidade cultural e literária do próprio território.
Autonomia docente em modo silencioso
Não é de hoje que professores vêm denunciando perda de autonomia nesse processo de ensino. O presidente do Sindicato dos Professores da Bahia (Sinpro-BA), Allyson Mustafa, poderia dar uma aula sobre a pasteurização de conteúdos: “ela desconstrói a autonomia docente e a educação que quer responder aos interesses da formação de crianças e adolescentes em sentido crítico. Porque é conteudista por um lado, mas, ao mesmo tempo, esse conteúdo tende a ser vazio, rasteiro, superficial e padronizado”.
Aprender ou consumir?
E também não é de hoje que pais e responsáveis enxergam apenas um dos mistérios desse terço: o modelo controverso de venda de livros e módulos. A cada período de rematrícula, explodem as denúncias de venda casada de livros, apostilas e plataformas digitais, a imposição de fornecedores, proibição de reutilização e até vinculação da matrícula à compra do material. Neste ano, o Ministério Público entrou novamente na reza e assinou uma Nota Técnica Conjunta com os órgãos de proteção ao consumidor, orientando e reforçando que nenhum aluno pode sofrer prejuízo pedagógico por utilizar material de anos anteriores e que são vedadas práticas abusivas, como essas de imposição de fornecedores e vinculação da matrícula à compra do material.
No fim, entre leis bem-intencionadas, apostilas padronizadas e notas técnicas, a educação em Salvador segue tentando equilibrar fé, mercado e pedagogia. Resta saber se o currículo de 2026 vai formar cidadãos críticos ou apenas consumidores disciplinados. Para isso, talvez nem a Bíblia dê conta do milagre.
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