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Cajazeiras: a "cidade" dentro de Salvador onde a vida acontece perto de casa

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Cajazeiras: a "cidade" dentro de Salvador onde a vida acontece perto de casa

Em Cajazeiras, a vida acontece longe dos cartões-postais e perto de casa: é onde se mora, trabalha, consome e constrói pertencimento

Cajazeiras: a "cidade" dentro de Salvador onde a vida acontece perto de casa

Foto: Metropess

Por: Daniela Gonzalez e Heloísa Helena no dia 31 de dezembro de 2025 às 08:43

Atualizado: no dia 31 de dezembro de 2025 às 09:11

Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 31 de dezembro de 2025

Conhecida como um dos maiores complexos urbanos da América Latina, Cajazeiras é um daqueles lugares onde Salvador vive e pulsa independente de cartão postal e cenários instagramáveis. Vive tanto que seus moradores, com razão, tratam o bairro como uma cidade própria: Cajacity, chamam irreverentemente. Grande no tamanho, na circulação de gente e na intensidade do cotidiano, o território carrega uma identidade própria, construída longe do “circuito Barra-Ondina”, no comércio de rua, nas escolas, nas igrejas e nos encontros que fazem a cidade acontecer de verdade.

Até a numeração tem uma lógica própria que só o cajazeirense entende. Não há sequência exata: Cajazeiras I, III e IX simplesmente não existem. Ainda assim, Cajazeiras II, IV, V, VI, X e XI somam mais de 59 mil moradores, entre eles alguns famosos. De lá já saíram nomes como o comunicador Dinho Jr. e Davi Brito, controverso campeão do BBB. Já teve até um reality próprio com moradores do bairro. É o próprio suco de Salvador

Isso sem contar Águas Claras, Boca da Mata, Fazenda Grande I, II, III e IV e Jaguaripe I, que, para muita gente, entram naturalmente no pacote de Cajacity — um território grande demais para caber numa placa, mas bem à vontade no cotidiano de quem vive ali. Somados, os 13 setores passam dos 150 mil habitantes. Não chegam ao milhão que já virou lenda urbana, mas superam, por exemplo, a cidade xará cidade Cajazeiras, no sertão da Paraíba, com 61 mil moradores. Prova de que, enquanto a Salvador dos cartões-postais posa para foto, é nos bairros — e em Cajazeiras em especial — que a cidade real trabalha, circula, cresce e vive.
Galinha dos ovos de ouro

Se é nos bairros populares que Salvador vive, Cajacity, com um deles, também não poderia deixar de virar território cobiçado na política: reduto eleitoral forte, disputado e valorizado, onde todo vereador ousa dizer que “é de Cajazeiras”, nem que seja por afinidade espiritual ou por foto em época de campanha. No ano passado, o reduto foi motivo de disputa, em especial entre vereadores da base do prefeito que tentavam a reeleição.

O bairro virou vitrine de promessas, obras disputadas no discurso e benfeitorias que todo candidato tenta puxar para si. Quase todas. A exceção notória é o mercado construído pela gestão municipal para “organizar” o comércio e esvaziar a Rótula da Feirinha. Não pegou e virou exemplo de que, em Cajazeiras, planejamento que ignora o cotidiano costuma fracassar.

Pontos de encontro e memória

A Rótula da Feirinha é o coração que bombeia Cajazeiras. Quem passa por ali entende rápido: não é só um cruzamento, é um ponto de encontro, de comércio, de conversa atravessada e de notícias que circulam mais rápido do que grupo de WhatsApp. É onde se compra comida, se resolve a vida, se encontra um conhecido e se confirma, na prática, que Salvador vive muito mais nos bairros do que nos cartões-postais. A vida acontece ali, no vai e vem constante, no improviso das barracas, no bate-papo com quem está sempre “de plantão”.

Poucos metros adiante, outro endereço indispensável do mapa afetivo de Cajazeiras é o Campo da Pronaica. É ali que os candidatos juram ter passado anos da infância jogando bola. Mais do que um campo, ele virou referência geográfica, ponto de largada para atividades comunitárias, culturais e esportivas, e cenário de eventos que celebram a história do território. Para muitos moradores, é simples: se tem movimento em Cajazeiras, começa ou termina no Pronaica. É ali que o bairro se encontra consigo mesmo, sem precisar pedir licença a ninguém.

Comércio que dá inveja à Avenida 7

Para quem vive o bairro no dia a dia, Cajazeiras é mais do que um endereço no mapa de Salvador. É moradia, é espaço de relações construídas ao longo dos anos, de consumo e de trabalho. Tudo próximo, em um só lugar.

Não à toa, os moradores mais empolgados comparam o comércio de Cajazeiras ao da tradicional Avenida de Setembro ou à Baixa do Sapateiros em seu tempo de ouro. Morador da região há 28 anos, o comerciante de materiais esportivos Wellington Rodrigues é um desses personagens que ajudam a contar essa história.

“Eu, particularmente, não tenho do que reclamar de Cajazeiras. Sou morador antigo e trabalho no bairro, então eu dependo daqui. As pessoas são educadas, compram bastante, não é à toa que Cajazeiras é o maior comércio de rua”, afirma orgulhoso.

“Sempre consigo bater minha meta. Mesmo vendendo material esportivo, eu faço parte desse cotidiano: participo de baba, vou à academia, corro. Tenho praticamente 28 anos de vida aqui. Construí minha casa, conquistei meu veículo, meu ponto comercial. Cajazeiras é o mundo. Eu gosto de morar aqui. Só saio daqui para passar férias na roça”.

Cidade no nome, bairro no papel

Moda, cama, mesa e banho, armarinhos, assistência técnica, alimentação. Encontra-se de tudo nas ruas do bairro. Mas a força comercial de Cajazeiras também se revela nos pequenos negócios que ocupam as calçadas e a tradicional rótula da feirinha, onde é possível encontrar de tudo um pouco, do alimento básico aos produtos artesanais. “Para não ficar dentro de casa, hoje eu vendo mel, vendo farinha, vendo beiju, vendo queimado. Isso aqui é uma maravilha. Eu só saio daqui, talvez, para o interior, para uma roça, mas sair daqui de casa, não. Aqui é maravilhoso. Aqui tem tudo o que você quiser. O que você quiser está aqui”, afirmou o ambulante Paulo Mel.

Um território que só cresce

Como a maioria dos entrevistados, ninguém pensa em sair de Cajazeiras. A região, que deve receber a nova Rodoviária de Salvador, no bairro de Águas Claras, tende a ganhar ainda mais fôlego e impulsionar o complexo de bairros que formam o território. Morador de Cajazeiras há 35 anos, o vendedor de pescados Wilson de Sousa resume o sentimento de pertencimento comum a quem construiu a vida no local.

“Eu sempre morei aqui em Cajazeiras e não tem por que sair daqui, porque Cajazeiras tem tudo. Cajazeiras é perto de tudo”, diz ele, rebatendo a mística de que a região é tudo que é afastado do centro. Realmente, é distante, são 20 km, que, com o tempo, foram sendo facilitados com investimentos em mobilidade urbana. Mas Cajazeiras é seu próprio centro: “para mim, é o mundo. Já tem mais ou menos 35 anos que moro aqui. Minha família toda mora aqui, graças a Deus, e ninguém quer sair de Cajazeiras”, complementa Wilson.

Memória construída no cotidiano

Nem sempre foi assim. Os moradores mais antigos lembram as transformações do território ao longo das últimas décadas com saudosismo, mas também com satisfação. Fernando Alen mora na região desde 1985 e acompanhou de perto todas as transformações. Quando ele chegou, o bairro já era grande, mas ainda era um menino.

A criação de Cajazeiras data de 1975, no governo de Roberto Santos. Um decreto estadual desapropriou as fazendas União, Cajazeiras, Jaguaripe de Cima ou Fazenda Grande e Chácara Nogueira e no ano seguinte oficializou o Plano Urbanístico Integrado Cajazeira, com sete bairros e 16 milhões de metros quadrados que iriam contribuir para a consolidação do recém-implantados Centro Industrial de Aratu (CIA) e Complexo Petroquímico de Camaçari. Nas décadas seguintes, o desenvolvimento foi fomentado com conjuntos habitacionais dos governos federal e estadual.

Há quem diga que, no decorrer dos anos, o discurso de cidade dentro da cidade sustentou também uma segregação para que as pessoas que moravam ali deslocassem o mínimo possível para a parte central da cidade. Mas também é nítido que houve união e fortalecimento de uma identidade própria.