
Home
/
Notícias
/
Jornal da Metropole
/
Símbolo da autonomia do Judiciário baiano, Dultra Cintra deixa legado de enfrentamento e transformação
Jornal Metropole
Símbolo da autonomia do Judiciário baiano, Dultra Cintra deixa legado de enfrentamento e transformação
Ex-presidente do Tribunal de Justiça morreu aos 82 anos e ficou marcado pela ruptura com a influência política na Corte

Foto: Divulgação
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 26 de fevereiro de 2026
A morte do desembargador aposentado Carlos Alberto Dultra Cintra, aos 82 anos, encerra a trajetória de um dos nomes mais importantes na transformação institucional do Judiciário baiano nas últimas décadas. Ex-presidente do Tribunal de Justiça da Bahia (TJ), Dultra Cintra faleceu na terça-feira (24), após enfrentar um câncer de pulmão.
Natural de Ipirá, no interior da Bahia, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia em 1967. Ingressou no Ministério Público em 1969 como promotor de justiça em Ubatã, passando depois por Catu e Salvador. Em 1991, foi eleito procurador-geral de Justiça na primeira disputa direta realizada pela classe no estado, sendo reconduzido ao cargo em 1993.
No ano seguinte, assumiu como desembargador do TJ da Bahia pela vaga destinada ao Ministério Público. À época, não havia exigência de quarentena entre o exercício do cargo no MP e o ingresso na magistratura.
Do MP à virada no Judiciário baiano
Antes de chegar à presidência do tribunal, Dultra Cintra já era visto como responsável por mudanças estruturais no MP. Segundo o desembargador Lidivaldo Reaiche Britto, que também chefiou o órgão, Dultra Cintra promoveu reestruturações administrativas importantes.
“Ele foi um divisor de águas, porque implantou os centros de apoio operacional, muitos deles ainda existentes. Administrativamente, recuperou a paridade remuneratória com a magistratura e transferiu a sede, que funcionava em um casarão antigo na Ladeira da Fonte Nova, para a Avenida Joana Angélica, em um prédio muito maior”, afirmou.
Rival do carlismo
A fase mais emblemática de sua trajetória ocorreu na eleição de 2002 para a presidência do TJ. Dultra Cintra disputou o comando da corte com o desembargador Amadiz Barreto, candidato apoiado pelo grupo político ligado ao então senador Antônio Carlos Magalhães.
De acordo com Reaiche Britto, houve pressão para que ele desistisse da candidatura. “Havia uma expectativa muito grande da classe jurídica para que o Tribunal de Justiça se tornasse realmente um poder independente, porque até então era muito atrelado ao Poder Executivo”, lembrou.
Independência e enfrentamento
Dultra Cintra foi eleito em uma sessão marcada por forte mobilização interna. Para o ex-deputado estadual Edmon Lucas, que testemunhou as costuras para a eleição no TJ, aquele momento dividiu a história recente do Judiciário baiano. “Nós podemos dizer que tivemos uma Justiça antes e depois que ele assumiu a presidência do tribunal. Cintra foi, sem dúvida, um dos maiores representantes da Justiça da Bahia”, afirmou.
Para Reaiche Britto, a vitória simbolizou uma inflexão institucional. “Com a eleição de Dultra Cintra, o Poder Judiciário da Bahia reencontrou sua independência e pôde ser condutor do seu destino. Passou a ser decidido lá mesmo, no tribunal, sem interferência do Poder Executivo”, afirmou.
A gestão, no entanto, enfrentou resistência e redução de apoio institucional por parte do governo estadual, à época, dominada pelo carlismo. “Foi um período em que ele teve que atuar com muita habilidade. O tribunal se uniu para enfrentar as adversidades”, completou o desembargador.
Após presidir o TJ da Bahia entre 2002 e 2004, Dultra Cintra comandou o Tribunal Regional Eleitoral do estado entre 2004 e 2006. Aposentado desde 2014, ele deixou como marca um período associado à afirmação da autonomia do Judiciário baiano em meio à forte influência política no estado.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.

