
Jornal Metropole
Colégio privados de Salvador transformam trânsito em caos
Retorno das escolas particulares expõe falhas na organização de embarque e desembarque e reacende o velho roteiro de filas duplas e congestionamentos na capital baiana

Foto: Marcelle Bittencourt/ Metropress
Na Federação, o Colégio Gurilândia pressiona o tráfego local. Em Patamares, o entorno do Colégio Marista volta a registrar retenções. Na Paralela, o Colégio Salesiano Dom Bosco interfere em uma das principais avenidas da capital. No Cabula e no Resgate, os colégios Nossa Senhora do Resgate e Vitória Régia completam o circuito.
O “minutinho” que vira meia hora
O padrão se repete: o espaço público vira área exclusiva de embarque, enquanto o restante da cidade espera. O “minutinho” individual se transforma em atrasos coletivos. Há quem pare onde não deve, bloqueie cruzamentos e ainda se incomode com qualquer contestação.
Muitas instituições pouco fazem para ordenar o fluxo. Falta organização nas portas, orientação mais firme aos responsáveis e presença efetiva para disciplinar a movimentação. O resultado é previsível: cada um resolve o próprio problema e o trânsito paga a conta.
No fim, a volta às aulas expõe mais que o aumento de carros nas ruas. Escancara hábitos arraigados, tolerância com a infração e uma fiscalização que, ano após ano, assiste ao mesmo filme - sempre no horário de pico - de modo inercial.
O que diz a Transalvador
Procurada, a Transalvador afirma que tem adotado medidas para reduzir os impactos do trânsito provocados pelos colégios privados. O órgão informa que realiza a campanha educativa “Volta às Aulas – Comprometa-se com a Vida”, com ações no entorno das escolas, instalação de faixas, distribuição de material informativo e atuação conjunta entre equipes de educação e fiscalização.
A Transalvador garante também promover ciclos de palestras para alunos, comunidade escolar e equipes técnicas, além de participação em reuniões pedagógicas. Em nota, o órgão destacou ainda que “as ações podem ser solicitadas ao longo de todo o ano”. “Para aderir, a instituição deve encaminhar e-mail para gedutedu@salvador.ba.gov.br. O serviço é gratuito”, emenda.
Sobre as diretrizes enviadas às escolas, o órgão explica que orienta a organização do embarque e desembarque dentro das áreas internas, o escalonamento de horários, o incentivo ao transporte coletivo ou compartilhado e o apoio de monitores no acesso dos alunos. E reforça: “caso haja descumprimento e impacto direto na fluidez da via pública, a instituição pode ser notificada e, havendo infração de trânsito, estão previstas sanções conforme o Código de Trânsito Brasileiro (CTB)”.
O ideal e a realidade
No papel, o plano é simples: organizar entradas, dividir horários, estimular alternativas ao carro individual. Na rua, prevalece o improviso. A regra existe, mas disputa espaço com a cultura da exceção permanente.
O entorno escolar deveria ser tratado como área sensível, com planejamento prévio e compromisso real das instituições com a vizinhança. Educação não se limita à sala de aula; começa também na forma como se ocupa o espaço público.
Enquanto isso não vira prática, a conta segue coletiva. O aluno que se atrasa, o trabalhador preso no engarrafamento, o ônibus que não avança e o pedestre espremido na calçada compõem o mesmo cenário. A volta às aulas deveria marcar recomeços. Em Salvador, por ora, continua marcando congestionamentos.
Um novo vilão do caos na Garibaldi
Desde que o Colégio COC Horto Florestal abriu as portas no antigo prédio da Secretaria de Educação, moradores da Avenida Anita Garibaldi relatam que a instituição virou sinônimo de caos viário. O fluxo intenso de veículos nos horários de entrada e saída transformou não apenas a rotina da rua, mas de todo o entorno, em um cenário diário de congestionamento.
Carros bloqueiam garagens, formam filas duplas e provocam retenções que se espalham pelas vias vizinhas, afetando quem precisa circular pela região, seja morador, trabalhador ou motorista de passagem. O que antes era um problema pontual ganhou proporção maior com a movimentação escolar, alterando de forma brusca a dinâmica do bairro.
A insatisfação ultrapassa os limites da Rua Santa Isabela. Vizinhos de áreas próximas também relatam dificuldade de acesso e perda da tranquilidade que caracterizava a região. Moradores questionam a falta de planejamento prévio e cobram transparência sobre possíveis estudos de impacto de vizinhança.
Em dias de reunião ou eventos, o cenário se agrava, com relatos de acesso comprometido e tráfego praticamente travado. Para quem escolheu o bairro pela qualidade de vida, a nova realidade é vista como um impacto direto no direito básico de ir e vir e na segurança cotidiana.
Versão das escolas
A Inspira Rede de Educadores — responsável pelos colégios Anchieta, São Paulo e Cândido Portinari — afirma que o fluxo de veículos nos horários de entrada e saída “corresponde à dinâmica regular da rotina escolar”. Segundo a rede, para garantir a segurança dos estudantes e contribuir com a fluidez do trânsito, são adotadas medidas como a presença de monitores credenciados para orientar o embarque e desembarque, vagas destinadas à parada rápida e áreas específicas para vans e transportes escolares.
Já o Colégio Salesiano Dom Bosco Salvador e o Liceu Salesiano do Salvador informam que mantêm “um plano estruturado para o embarque e desembarque”, com estacionamento interno e horários diferenciados entre os segmentos para evitar concentração em um único período. As unidades também contam com equipes para organizar o trânsito interno e, na Paralela, com apoio de profissionais terceirizados especializados em mobilidade para auxiliar na organização do fluxo na área externa. As demais instituições não responderam aos contatos da reportagem até o fechamento desta edição.
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