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Dignidade sepultada: Cemitério Quinta dos Lázaros expõe confusões administrativas e abandono público
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Dignidade sepultada: Cemitério Quinta dos Lázaros expõe confusões administrativas e abandono público
Cemitério Quinta dos Lázaros enfrenta abandono, falhas na manutenção e indefinições que refletem no desleixo com o qual a morte dos mais pobres é tratada

Foto: Ana Clara Ferraz
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 27 de março de 2026
O Cemitério Quinta dos Lázaros, em Salvador, carrega o peso de ser um dos mais antigos do país e, ao mesmo tempo, um dos maiores da Bahia. Título esse que, em tese, deveria vir acompanhado de respeito, cuidado e estrutura à altura da sua história. Mas o cenário atual expõe outro retrato.
Um espaço secular, que deveria assegurar dignidade na última morada, especialmente para os mais pobres, está entregue ao descaso do Poder Público com episódios recorrentes de abandono e sepultamentos feitos diretamente no chão, sem nenhum tipo de identificação, além de uma cruz. Entre a importância histórica e a realidade cotidiana, o cemitério situado na Baixa de Quintas parece ter sido condenado a um limbo administrativo.
Gestão dividida
Com mais de 50 mil metros quadrados, a Quinta dos Lázaros reúne estruturas como ossuário, igreja e velório, além de áreas destinadas aos sepultamentos custeados pelo Poder Público, sob competência estadual. Além da Secretaria de Saúde do Estado da Bahia (Sesab), administram também o cemitério a Irmandade da Conceição da Praia e a Ação Social Arquidiocesana (ASA). Porém, ambas realizam um trabalho diferente. Os sepultamentos através dessas instituições ligadas à Igreja Católica são em jazigos divididos e operados por elas, que fazem a manutenção, limpeza e cobrança de taxas relativas às áreas de suas competências. Mesmo com poucos funcionários, as entidades se desdobram para manter a ordem nos espaços administrados por elas. No entanto, esse cuidado não se reflete no local gerido pela Sesab.
Triste fim
A Secretaria da Saúde é responsável por enterrar pessoas que morreram e não foram identificadas ou não tiveram familiares que procurassem pelo corpo, popularmente chamados de indigentes. Esses indivíduos chegam por meio do Instituto Médico Legal (IML) ou através de hospitais.
Também são enterrados os natimortos, que são bebês que morreram ainda na barriga da mãe a partir da 20ª semana de gestação, seguindo regras do Ministério da Saúde. A própria secretaria cuida de todo o processo: faz o registro dos enterros e mantém a organização da área onde eles acontecem.
A equipe de reportagem da Metropole não foi autorizada a registrar imagens do cemitério, mesmo o espaço sendo público. Foram identificadas cruzes no chão na região mais afastada em meio a mato alto e a céu aberto, local onde são feitos os sepultamentos da secretaria. Ali são enterrados indivíduos que em vida foram abandonados e na morte desvalorizados.
O local não possui muros para evitar violação das covas ou a entrada de pessoas, nem placas com algum tipo de informação. Nas proximidades, havia buracos que podem facilitar o acúmulo de água, lixo e materiais orgânicos.
Insegurança exposta
Funcionários da parte administrativa da Irmandade e da Asa relatam que a Quinta dos Lázaros é conectada a diversas comunidades e que, pelo caráter público, a fiscalização não é tão eficaz. Fora o fato de que a área possui câmeras de segurança apenas na entrada principal. Em suma, nunca foi tão fácil dar uma volta entre lápides e fazer o que bem entender.
O gerente administrativo da Irmandade da Conceição da Praia, André Santos, relata que o efetivo de funcionários da Sesab é baixo e dificulta a efetividade da limpeza no local. “Eles capinam pela manhã, mas não tem uma manutenção completa. O efetivo deles é pequeno, e a área é muito grande, muito material verde. Eles não têm uma equipe regular para isso”, disse. André afirma ainda que o espaço foi deixado de lado pelas organizações responsáveis.
Longo esquecimento
“O cemitério foi esquecido durante muito tempo. Tanto pelas administrações quanto pela sociedade. Se a gente for avaliar, a Ladeira das Quintas tem barracas desordenadas, mato, lixo. A gente tenta dentro de uma luta centenária, mas não tem respaldo do Poder Público também do lado de fora. A área de segurança, por exemplo, vocês vão ver o oficial aqui só se tiver alguma ocorrência próxima”, completa André Santos, o administrador do espaço.
Segundo relatos de Odete Freitas, membro da administração da ASA, um dos maiores problemas é em relação às lápides. O serviço é de responsabilidade de cada família. As entidades que realizam o sepultamento não oferecem esse tipo de adicional. “É um dos maiores problemas que temos. A gente faz o tampão de concreto, mas não fazemos a lápide. O cemitério é aberto, qualquer um pode entrar e sair a qualquer hora. A gente não tem como se responsabilizar”, explicou. Ela ainda confirmou que a Sesab faz os sepultamentos apenas no chão.
Muitas justificativas e poucas soluções
Em nota ao Jornal Metropole, a Sesab disse que tem buscado ao longo dos anos, tratativas institucionais para que a prefeitura de Salvador assuma a gestão do equipamento conforme a Constituição Federal, mas que apesar das tentativas, a municipalização não aconteceu até o momento. Todos os demais cemitérios públicos da cidade estão sob a guarida do município.
A Sesab relatou também que está avaliando a adequação do serviço de manutenção das áreas verdes para que ocorra mensalmente, com base nas necessidades do espaço. Em síntese, admite que o básico ainda não está sendo feito com a regularidade que o local exige.
A Sesab garantiu que controla a entrada principal, realiza os serviços de vigilância patrimonial, e que a área destinada ao sepultamento de indigentes e natimortos cumpre as normas sanitárias para acesso, embora a realidade diga outra coisa.
Enquanto isso, o Cemitério da Quinta dos Lázaros, que abriga tantas histórias e memórias centenárias, guarda no seu interior a síntese de uma negligência crônica. Entre normas cumpridas no papel e impasses administrativos, o que se consolida é a ideia de que a morte às vezes se resume em esquecimento.
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