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Exposição no Muncab celebra mais de 600 obras de artistas baianos repatriadas para Salvador

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Exposição no Muncab celebra mais de 600 obras de artistas baianos repatriadas para Salvador

Mais de 600 obras retornaram à Bahia após 30 anos no exterior e mostram força da arte produzida em Salvador e no Recôncavo

Exposição no Muncab celebra mais de 600 obras de artistas baianos repatriadas para Salvador

Foto: Izabela Prazeres

Por: Ismael Encarnação no dia 03 de abril de 2026 às 11:39

A exposição Inclassificáveis, em cartaz no Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), apresenta ao público a maior repatriação de obras de arte já realizada no Brasil. Ao todo, mais de 600 peças – produzidas em maior parte por artistas negros baianos – estavam há décadas nos Estados Unidos e passaram a integrar o patrimônio do espaço em Salvador, após doação das colecionadoras norte-americanas Bárbara Cervenka e Marion Jackson. Deste conjunto, 125 obras já estão expostas no Muncab e permanecerão lá até meados de agosto.

Foto: Izabela Prazeres

São obras de cerca de 60 artistas, com destaque para nomes como J. Cunha, Babalu, Goya Lopes, Sol Bahia e José Adário, ou Zé Diabo, todos profundamente ligados à Bahia, especialmente a Salvador e ao Recôncavo. As peças evidenciam modos de criação que nascem desse território, seja no uso de materiais, nas cores ou nas formas de compor. Há trabalhos com relevo, aplicação de búzios e camadas de tinta que constroem superfícies densas, enquanto outros exploram padrões geométricos e cenas organizadas em múltiplos planos. 

Como aponta o artista plástico Aryson Heráclito, professor universitário especializado em artes visuais, as produções repatriadas carregam leituras próprias da vida baiana, atravessadas por memória, religiosidade e experiência cotidiana. Mais do que obras isoladas, o conjunto funciona como um arquivo visual que revela diferentes maneiras de representar a Bahia – não como tema distante, mas como vivência direta de quem produz.

Desafio do retorno

Trazer esse acervo de volta não foi um processo simples. Pelo contrário: exigiu uma articulação longa, envolvendo diferentes países, órgãos públicos e etapas técnicas. Segundo o Muncab, a repatriação começou com uma série de procedimentos legais e diplomáticos para que tudo acontecesse de maneira regular.

Um dos primeiros desafios foi organizar a documentação das obras. Era preciso comprovar a origem de cada peça, garantir que estavam legalmente aptas para serem transferidas e formalizar a doação. Em seguida, entrou em cena a articulação internacional. O processo contou com a participação do Ministério das Relações Exteriores, da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e de órgãos ligados à cultura e à economia. 

Transporte difícil

Outra dificuldade foi a logística. Transportar obras de arte exige cuidados específicos, como embalagens especiais, controle de temperatura e acompanhamento técnico. Esse foi, inclusive, o maior obstáculo apontado pelo museu: o custo do transporte internacional. A primeira etapa só foi possível graças a um financiamento coletivo realizado nos Estados Unidos.

Quando as obras chegaram ao Brasil, ainda foi necessário passar por trâmites alfandegários. A Receita Federal e a Alfândega de Salvador atuaram para garantir a entrada legal das peças, com isenção de impostos, já que se tratava de doação cultural. Depois, começou o trabalho interno do museu, com conservação, catalogação e preparação para exposição.

Acervo formado ao longo de décadas

O conjunto de obras que hoje integra a exposição Inclassificáveis foi construído ao longo de décadas, em um processo que mistura mercado de arte, pesquisa e relações pessoais. Diferente do que se pode imaginar, essas peças não saíram do Brasil de forma repentina ou irregular. Segundo relatos dos próprios artistas, o acervo foi sendo formado gradualmente, a partir do contato direto com Bárbara Cervenka e Marion Jackson.

Durante cerca de 30 anos, elas viajaram diversas vezes ao Nordeste, especialmente para cidades como Salvador e Cachoeira, na Bahia; Juazeiro do Norte, no Ceará; e Bezerros, em Pernambuco. Foi nesse percurso que as colecionadoras conheceram artistas locais, muitos deles atuando fora dos circuitos tradicionais, ligados ao Pelourinho e a espaços populares de criação e venda. A partir dessas aproximações, passaram a adquirir obras diretamente dos artistas, criando um vínculo que ia além da relação comercial.

Sol Bahia, um dos artistas “repatriados”, relembra esse processo como algo próximo e contínuo. “Ela vinha aqui, conversava com a gente, ia na casa dos artistas. Não era só compra, era relação mesmo”, contou. Esse contato direto foi fundamental para a formação do acervo, que reúne trabalhos de diferentes temas — desde cenas do cotidiano até representações religiosas e históricas. No caso dele, obras que retratavam figuras como Antônio Conselheiro despertaram o interesse das colecionadoras e passaram a circular fora do país.

Com o passar dos anos, e especialmente após o falecimento de Bárbara Cervenka, em janeiro deste ano, surgiu a decisão de doar o acervo ao Brasil. O que antes estava disperso em exposições e coleções privadas passou a ter um destino comum: retornar ao país e, principalmente, ao território que deu origem a essas obras.

Reconhecimento esperado

Para os artistas que integram a exposição, a repatriação das obras representa mais do que um retorno físico: é o reconhecimento de trajetórias que, por décadas, ficaram à margem dos circuitos oficiais. A sensação é de reencontro. “É uma volta para casa”, resume Goya Lopes, hoje referência nacional em estamparia, ao destacar que as peças agora podem ser vistas dentro do contexto cultural que as originou.

J. Cunha, artista e criador da identidade visual do Ilê Aiyê, também aponta para essa mudança de olhar. Para ele, o retorno das obras ajuda a reposicionar a produção afro-brasileira dentro da arte nacional, em um espaço de valorização institucional. Sua presença logo na entrada da exposição reforça essa virada simbólica, colocando sua obra em destaque dentro do percurso expositivo.

Capinan, o cérebro por trás do Muncab Foto: Metropress/Catarina Queiroz

A importância do Muncab vai além de ser um espaço expositivo: o museu se consolida como um centro de preservação, reflexão e valorização da cultura afro-brasileira. Nesse contexto, a presença de José Carlos Capinan é central. Diretor do museu, poeta, letrista e intelectual baiano, ele é um dos fundadores e integrante do conselho do Muncab, atuando diretamente na construção de sua proposta cultural e política.

Capinan tem uma trajetória marcada pela atuação em movimentos culturais e pelo fortalecimento de debates sobre identidade, cultura negra e produção artística no Brasil. Sua visão de cultura como instrumento de afirmação social dialoga diretamente com a missão do museu, que busca dar visibilidade a narrativas historicamente marginalizadas.  

Foto de Capinan: Metropress/Catarina Queiroz

Serviço

O quê - Exposição Inclassificáveis
Onde - Muncab, Rua das Vassouras, 25 – Centro Histórico, Salvador
Quando - De terça a domingo, das 170h às 17h, até meados de agosto
Quanto – R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia), através no Sympla ou na bilheteria do museu