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Pai MK: Mário Kertész 'psicografa' carta da avó para lembrar ao filho que ela é real
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Pai MK: Mário Kertész 'psicografa' carta da avó para lembrar ao filho que ela é real
Você pode não acreditar em mim, Marcelo. Pode achar que sou invenção do seu pai. Mas eu existo. Existo no olhar dele, na forma como ele enfrenta a vida, no que ele herdou sem perceber. E, meu querido, sinto em te dizer: existo também em você

Foto: Marcelo Kertész
Meu nome é Raquel Aferiati Mello.
Resolvi aparecer porque meu neto querido, Mário, filho da minha filha Violeta, não me deixa ir embora. Ele me guarda nas histórias que conta, me revive nos detalhes, me chama de volta como quem não aceita perder o que foi amor.
Mas há você, Marcelo, meu bisneto, que gosta de dizer que eu nunca existi. Que sou invenção. Como você diz, um alter ego do seu pai. E é por isso que estou aqui.
Nasci em Belém do Pará, numa família judia com raízes em Mogador, no Marrocos, e carrego uma história que começou muito antes de mim. Casei cedo, como era costume naquele tempo, precisamente aos doze anos. Casei em janeiro, e em dezembro daquele mesmo ano, já com treze, segurei meu primeiro filho nos braços: Solon Mello.
Meu marido, Salomão Mello, também vinha de uma família de judeus sefarditas. Tivemos tempos muito bons, especialmente quando ele prosperou no Amazonas com a borracha. E tivemos tempos duros, quando tudo mudou e nos mudamos para a Bahia. Em 1930, já em Salvador, ele faleceu.
E eu fiquei. Fiquei com os filhos, com a casa, com a vida inteira para sustentar. E sustentei. Com firmeza, com coragem, mas também com um amor que não fazia barulho — fazia presença.
Criei meus filhos com liberdade. Nunca soube amar prendendo. Amor, para mim, sempre foi preparar para o mundo. E Violeta, minha filha caçula, meu grande amor, foi prova disso. Ela estudou e se formou em Odontologia, uma vitória para uma mulher naquele tempo. Quando chegou a hora da formatura, não havia dinheiro para festa. Mas eu nunca fui mulher de aceitar impossibilidades.
Lembrei do jogo do bicho. Peguei um copo com água, joguei na parede, olhei com atenção e vi ali o sinal. Apostei. Ganhei.
E ganhei mais do que dinheiro. Ganhei a alegria de ver minha filha celebrando a própria conquista. Paguei a festa, o vestido e o anel de formatura, fundamental naquela época.
Um dia, apareceu em minha casa um jovem judeu húngaro interessado em Violeta. Chamei-o e perguntei, com a franqueza que sempre tive, se era coisa séria. Ele disse que era. E era mesmo.
Casaram-se. Construíram uma vida. E eu segui ali, por perto, como sempre estive não como sombra, mas como raiz.
Vieram os netos: Carlos, Eduardo e Mário, meu Baio, seu pai, que você, Marcelo, conhece bem. Baio era mais do que neto. Era companhia, era extensão, era afeto em estado puro. Dormia comigo, me acompanhava ao cinema, me via me arrumar com paciência as luvas, o tailleur, o cabelo bem-feito. Sempre fui vaidosa.
Eu tinha pressão alta, e Violeta cuidava de mim com rigor, controlando o que eu comia. Mas eu chamava Baio baixinho e pedia uma lata de sardinha no armazém ao lado de casa. Ele ia, voltava escondido, e nós dividíamos aquele pequeno segredo com um sorriso cúmplice.
Eu era assim. Tinha dois lados, como ele dizia. Um elegante, educado. Outro livre, sem freio, que falava o que vinha à boca, usava palavrões que assombravam, jogava pôquer com os amigos do meu genro Jorge, seu avô, e não pedia licença para existir.
Vivi até os oitenta e três anos. Morri em Salvador. Mas, como você sabe, há pessoas que não desaparecem. Elas ficam. Ficam nos gestos, nas manias, nas escolhas que atravessam o tempo sem pedir autorização.
E é por isso, Marcelo, que eu falo com você agora.
Você pode não acreditar em mim. Pode achar que sou invenção do seu pai. Mas eu existo. Existo no olhar dele, na forma como ele enfrenta a vida, no que ele herdou sem perceber.
E, meu querido, sinto em te dizer: existo também em você. Porque a vida não se apaga assim.
Não sou invenção. Sou presença. Sou origem. Sua origem. E isso que você acabou de ler… é só o começo.
Eu volto.
Carta psicografada pelo meu neto Mário Kertész.
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