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Caso Naskar: ascensão e queda de uma fintech acusada de sumir com R$ 1 bi de investidores
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Caso Naskar: ascensão e queda de uma fintech acusada de sumir com R$ 1 bi de investidores
A história de ascensão e queda de uma fintech brasileira que prometia rendimentos acima do mercado a investidores, mas sumiu com quase R$ 1 bilhão dos clientes

Foto: Divulgação
A Naskar vendeu ao mercado, por anos, a imagem de uma fintech sólida, sofisticada e altamente rentável para quem colocava dinheiro nela. Os pagamentos aconteciam regularmente, novos aportes eram impulsionados por parceiros comerciais e por uma rede de indicações, enquanto a estrutura crescia longe dos holofotes do mercado tradicional. Era bom demais para ser verdade. E no fundo era mesmo pura ilusão, cujo impacto ficou traduzido em prejuízos na casa do bilhão.
A fantasia de prosperidade da Naskar começou a ruir em maio deste ano, quando investidores passaram a relatar atrasos nos pagamentos. De uma hora para a outra, o aplicativo da fintech de investimentos saiu do ar. Ao mesmo tempo, canais de atendimento deixaram de responder, e representantes da companhia simplesmente desapareceram do radar dos próprios clientes. Em paralelo, vieram à tona informações de que escritórios ligados à operação já haviam encerrado atividades em cidades como São Paulo, Brasília, Curitiba e Rio de Janeiro.
O que parecia uma crise operacional rapidamente se transformou em mais um dos nebulosos casos financeiros do país, vide o escândalo envolvendo o Banco Master. A Naskar teria reunido cerca de 3 mil investidores e movimentado valores que podem ultrapassar R$ 1 bilhão. No meio do colapso, surgiu ainda um novo capítulo que ampliou as suspeitas em torno da fintech: a anunciada compra da Naskar por uma empresa americana. Antes, porém, é preciso entender como a empresa galgou degraus bem altos no segmento.
Súbita ascensão
Antes do castelo de areia ruir, a Naskar se apresentava como uma startup especializada em gestão de ativos e investimentos alternativos. Seus produtos prometiam rentabilidades que chegavam perto de 2% ao mês, índice muito acima da média oferecida por aplicações tradicionais do mercado financeiro. Na prática, isso representa retornos superiores a 26% ao ano, levando-se em conta os juros compostos. Em termos simples, um investidor que aplicasse R$ 100 mil poderia, na teoria, transformar o valor em cerca de R$ 126 mil ao fim de um ano, caso os rendimentos prometidos fossem mantidos regularmente.
No mercado financeiro, retornos elevados costumam estar diretamente associados a riscos maiores. Que o diga os clientes do Master. Quanto maior a promessa de lucro, maior tende a ser a exposição do investidor a perdas, oscilações ou operações mais arriscadas. Por isso, ofertas que prometem ganhos altos e recorrentes costumam acender sinais de alerta, principalmente quando não há clareza sobre o funcionamento da operação, a origem dos rendimentos ou os mecanismos de fiscalização envolvidos.
A expansão da empresa ocorreu também por meio de parceiros comerciais e indicações entre investidores. À frente da Naskar estavam Marcelo Liranço Arantes, Rogério Vieira e José Maurício Volpato, conhecido como Maurício Jahu, ex-jogador da Seleção Brasileira de Vôlei que trocou as quadras por uma curta carreira como modelo. Era o rosto mais conhecido do negócio.

Contratos mútuos
A Naskar também operava por meio dos chamados contratos mútuos, modelo utilizado para formalizar empréstimos privados. Na prática, investidores transferiam dinheiro para a empresa com a promessa de receber o valor de volta acrescido de rendimentos mensais entre 1% e 2%.
Para efeito de comparação, essa rentabilidade equivalia a cerca de 170% do CDI, o principal termômetro e indexador da renda fixa no Brasil, servindo como base para o retorno de investimentos como CDBs, LCIs e LCAs . O percentual é superior, por exemplo, ao rendimento oferecido pelo Banco Master antes da liquidação da instituição pelo Banco Central, quando o banco chegou a comercializar CDBs atrelados a aproximadamente 140% do CDI. O que é pior: tudo sem autorização das autoridades que regulam o mercado financeiro.
Após sumiço da Naskar, clientes relatam prejuízos
Depois que a Naskar sumiu da praça, investidores passaram a relatar prejuízos. Apenas no mês de maio, o perfil da empresa no site Reclame Aqui registrou mais de 100 reclamações relacionadas a atrasos, falta de comunicação e dificuldades para resgatar valores aplicados.
Segundo relatos obtidos pela reportagem, parte dos clientes reinvestia os próprios rendimentos pagos pela empresa, acreditando na estabilidade da operação. Com a interrupção dos pagamentos, investidores de diferentes estados passaram a registrar boletins de ocorrência e relatar problemas para recuperar os recursos.
Uma vítima de Teresina, no Piauí, afirmou ter realizado aportes que somam R$ 41.858. Segundo o relato, “os pagamentos dos rendimentos ocorriam sempre no primeiro dia útil de cada mês”. A investidora afirma que, em maio de 2026, “a instituição deixou de efetuar os pagamentos aos clientes, interrompeu toda comunicação e retirou a plataforma do ar, impossibilitando qualquer contato ou acesso às informações financeiras”.
Chuva de casos
Em São Paulo, outro investidor relata prejuízo de aproximadamente R$ 100 mil. Já um morador do Distrito Federal informou ter realizado aporte de R$ 90 mil junto à Naskar Instituição de Pagamentos, por meio de contrato de mútuo com promessa de rendimento mensal de 1,5%.
No Rio de Janeiro, um cliente afirmou estar sem acesso ao aplicativo desde o início de maio. “Solicitei o resgate das minhas aplicações e até o momento não tive resposta da instituição”, relatou. Segundo o investidor, a empresa alegou “problemas tecnológicos”, mas “sem informações claras e sem prazo de conclusão”.
Em nota, a Naskar informou que iniciou um processo interno de auditoria após identificar inconsistências em sua base de dados. “As equipes técnicas seguem atuando na revisão e validação das informações para garantir segurança e precisão no tratamento dos dados. Os clientes serão atualizados o mais breve possível", diz o comunicado. Mesmo assim, os pagamentos não retornaram e o aplicativo continuou fora do ar.
Venda da fintech para jovem brasileiro elevam suspeitas
Em meio ao colapso da operação, um novo capítulo passou a chamar atenção do mercado financeiro. Em 14 de maio, a Naskar anunciou ter sido adquirida pela empresa americana Azara Capital LLC ,em uma operação estimada em cerca de R$ 1,2 bilhão. Segundo comunicado divulgado pela companhia, a nova controladora assumiria ativos e passivos da operação, realizaria auditorias internas e elaboraria um plano de ressarcimento aos investidores afetados.
O anúncio, no entanto, acabou levantando uma nova sequência de dúvidas sobre a própria compradora. A Azara Capital se apresentou como uma gestora americana sediada em Miami, nos Estados Unidos. O principal nome ligado à empresa é Douglas Silva de Oliveira, conhecido como Douglas Azara. Aos 25 anos, o empresário passou a ser associado a companhias avaliadas em cifras bilionárias.
A dimensão da negociação, a juventude do empresário e a ausência de informações detalhadas sobre a estrutura do grupo rapidamente passaram a chamar atenção do mercado. A Azara Instituição de Pagamento Ltda foi aberta no Brasil em 4 de fevereiro de 2026, cerca de 100 dias antes do anúncio da compra da Naskar. A empresa possui capital social de R$ 13 milhões e, até o momento, não possui autorização do Banco Central para operar como instituição financeira.
A assessoria da Azara afirmou que a empresa assumiu integralmente os ativos e passivos da Naskar, incluindo a responsabilidade pelos pagamentos prometidos aos investidores. Em nota, declarou ainda que a Azara IP “encontra-se em fase de estruturação técnica e operacional” e sem previsão de autorização ainda neste ano.
Empresas operaram sem aval da CVM
A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) - autoridade que regula o mercado de capitais brasileiro e todos os seus participantes, incluindo bolsas de valores, empresas de capital aberto, intermediários financeiros e investidores - informou em nota ao Jornal Metropole que “as empresas mencionadas em sua demanda não possuem registro para atuar nos mercados regulados pela CVM”. Entramos em contato com o Banco Central (BC), mas não tivemos retorno até o fechamento da reportagem.
Com o aumento das denúncias, a Polícia Civil do Distrito Federal passou a apurar o caso. Entre as hipóteses investigadas estão possíveis crimes financeiros, estelionato e eventual pirâmide financeira. “As ocorrências relacionadas ao caso estão sendo apuradas pelas unidades responsáveis pelos registros, sendo que parte dos procedimentos encontra-se sob investigação da Coordenação de Repressão aos Crimes contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf)”, diz a nota enviada ao Jornal Metropole.
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