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Copa dos absurdos: vistos negados, torcedores barrados por Trump e silêncio da Fifa

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Copa dos absurdos: vistos negados, torcedores barrados por Trump e silêncio da Fifa

Restrições migratórias, torcedores barrados, ingressos caríssimos e silêncio da Fifa sobre arbitrariedades do governo Trump expõem as contradições do maior Mundial da história

Copa dos absurdos: vistos negados, torcedores barrados por Trump e silêncio da Fifa

Foto: The White House

Por: Daniela Gonzalez no dia 25 de junho de 2026 às 09:00

Enquanto a Fifa vende a Copa do Mundo como uma celebração global do futebol, seleções, árbitros e torcedores enfrentam barreiras migratórias, restrições políticas e decisões arbitrárias impostas pelos Estados Unidos. E diante de cada novo constrangimento, a entidade presidida por Gianni Infantino parece determinada a fazer o que sabe fazer melhor: assistir de camarote. 

Nenhum caso expõe melhor essa situação do que a seleção do Irã. Mesmo classificada para o Mundial, a equipe foi impedida de estabelecer sua base em território americano e precisou se instalar em Tijuana, no México. Na prática, os iranianos cruzam a fronteira apenas para disputar as partidas e retornam logo em seguida, sem hotel oficial, centro de treinamento ou rotina semelhante à das demais equipes. 

O técnico Amir Ghalenoei afirmou que o Irã é a seleção "mais oprimida" da Copa. Ainda assim, a Fifa permaneceu em silêncio diante de um cenário sem precedentes: pela primeira vez na história do torneio, um país-sede se recusou a receber uma seleção classificada em seu território durante a competição.

Além do Irã

Como se não bastasse, um árbitro da Somália convocado para trabalhar na Copa teve a entrada negada nos EUA após desembarcar em Miami. A justificativa oficial foi a existência de "preocupações com a verificação de antecedentes". Nenhum detalhe adicional foi apresentado. O profissional, eleito o melhor árbitro da África, havia sido escolhido pela própria Fifa, possuía documentação regular, passaporte diplomático e, ainda assim, foi considerado inadmissível pelas autoridades americanas. 

A seleção do Senegal também enfrentou problemas logo na chegada ao país. Integrantes da delegação foram submetidos a revistas ainda na pista do aeroporto, em mais um episódio que levantou questionamentos sobre o tratamento dispensado a algumas equipes durante o torneio.

Sem direito a torcer

Se para atletas e dirigentes os obstáculos já são numerosos, para os torcedores a situação é ainda pior. Cidadãos do Irã e do Haiti seguem proibidos de entrar nos Estados Unidos por determinação do governo Donald Trump. Embora jogadores e membros das delegações tenham recebido exceções, milhares de torcedores ficaram impedidos de acompanhar presencialmente suas seleções. 

Para quem já vive em solo americano, o medo é outro. Organizações de direitos humanos relataram casos de imigrantes receosos de comparecer aos estádios e zonas de fãs por temor de abordagens do Serviço de Imigração e Alfândega, o famigerado ICE. O receio aumentou após a deportação de um solicitante de asilo político que havia assistido a uma partida do Mundial de Clubes. 

Nem mesmo torcedores de países aliados escaparam dos problemas. Escoceses relataram que suas autorizações eletrônicas de viagem foram revogadas poucas horas antes dos voos para os Estados Unidos. Alguns corriam o risco de perder ingressos, hospedagens e passagens compradas meses antes.

Fifa dá de ombros diante dos abusos  

Questionado sobre as dificuldades enfrentadas por torcedores, árbitros e delegações, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, minimizou a situação. "Não somos os reis do mundo, que podem governar governos, forças policiais", afirmou. Em outro momento, disse que a entidade tenta resolver os problemas da melhor forma possível e sugeriu que as pessoas "relaxassem um pouco". Em outras palavras: a entidade máxima do futebol organiza o torneio e lucra bilhões com ele, mas quando surgem problemas prefere lembrar que não manda em ninguém.

A postura complacente da entidade também apareceu em outra polêmica. A fabricante da camisa do Haiti afirmou que a Fifa pediu alterações em elementos do uniforme por considerar que poderiam ser interpretados como mensagens políticas. 

Entre os símbolos que teriam causado desconforto, estavam referências à Batalha de Vertières, confronto decisivo para a independência haitiana e um dos capítulos mais importantes da luta contra a escravidão nas Américas. Aparentemente, homenagear a revolução que transformou o Haiti em uma nação independente é um problema. Impedir torcedores de entrar no país-sede da Copa nem tanto.

Competição feita para ricos 

Como se tudo isso não bastasse, a entidade ainda conseguiu transformar o acesso aos estádios em um privilégio para poucos. O sistema de preços dinâmicos fez disparar o valor dos ingressos. Em algumas partidas, especialmente na final, entradas ultrapassaram os US$ 11 mil. O discurso da festa popular do futebol foi substituído pela lógica de mercado, em que o torcedor comum assiste de longe enquanto patrocinadores e clientes premium ocupam os melhores lugares.

Talvez a maior ironia desta Copa seja justamente essa. Vendida pela Fifa como a edição mais inclusiva da história, com número recorde de seleções e partidas, a competição cresceu no papel, mas se tornou mais difícil na prática. Árbitros enfrentam barreiras para entrar no país, torcedores esbarram em restrições de vistos, algumas seleções lidam com condições desiguais de preparação e a própria logística do torneio é alvo de críticas. Com 48 equipes, 104 jogos e deslocamentos de milhares de quilômetros entre três países, a maior Copa da história também se tornou uma das mais complexas de organizar.

As distâncias são tão grandes que algumas seleções são obrigadas a percorrer trajetos equivalentes a viagens intercontinentais apenas durante a fase de grupos. Curaçao, por exemplo, deverá viajar mais de 10 mil quilômetros ao longo da primeira fase. Canadá terá deslocamentos superiores a 6 mil quilômetros, enquanto o Brasil enfrentará trajetos próximos de 3,7 mil quilômetros.

Gambiarras e puxadinhos

O desafio não se limita aos aeroportos. Reportagens da imprensa internacional mostraram que diversas delegações precisaram adaptar estruturas improvisadas para servir como centros de treinamento. Em alguns casos, universidades, escolas e complexos esportivos locais foram transformados temporariamente em bases de preparação para as equipes.

Tudo isso ocorre em pleno verão norte-americano. Em algumas cidades-sede, as temperaturas ultrapassam os 35°C, acrescentando um obstáculo extra a jogadores que já precisam lidar com longas viagens, fusos horários e rotinas fragmentadas. 

Para uma competição que se vende como a maior festa do futebol mundial, a Copa de 2026 tem exigido dos participantes uma capacidade de adaptação que vai muito além do que acontece dentro de campo.