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Entre o cortejo e o palanque: as disputas políticas que marcam o 2 de Julho

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Entre o cortejo e o palanque: as disputas políticas que marcam o 2 de Julho

Há décadas, a Festa da Independência do Brasil na Bahia se tornou palco de disputas de poder, conflitos e vitrine para candidatos em busca de um lugar ao sol

Entre o cortejo e o palanque: as disputas políticas que marcam o 2 de Julho

Por: Daniela Gonzalez no dia 02 de julho de 2026 às 07:00

O desfile do 2 de Julho nasceu para celebrar a data em que os baianos consolidaram a Independência do Brasil ao expulsarem definitivamente as tropas portuguesas do estado, em 1823. Ao longo de mais de dois séculos, no entanto, a festa deixou de ser apenas uma celebração cívica para se transformar também em um dos principais espaços de manifestação política. Ainda mais em anos de disputa eleitoral acirrada, como a deste ano.

Sem palanques, grades ou protocolos rígidos, governadores, prefeitos, presidentes, candidatos e movimentos sociais dividem o mesmo percurso entre a Lapinha e o Campo Grande, onde aplausos, vaias, cartazes e palavras de ordem costumam dizer tanto quanto as pesquisas.

Muito antes de se tornar vitrine para campanhas, o cortejo já funcionava como um espaço de reivindicação popular. Desde a redemocratização, sindicatos, estudantes, sociedade civil organizada e partidos passaram a ocupar o desfile para cobrar governos, defender pautas e medir a temperatura política da Bahia. 

Por isso, o 2 de Julho acabou consolidando uma característica rara entre as festas cívicas brasileiras: é um dos poucos eventos em que as principais autoridades caminham literalmente no meio da população, sujeitas às reações espontâneas do público, com ou sem apoio das respectivas claques.

Duelo em 1994

Um dos episódios que simboliza essa transformação ocorreu em 1994, quando a prefeita de Salvador à época, Lídice da Mata, e o então todo-poderoso da Bahia, Antônio Carlos Magalhães (ACM), protagonizaram um confronto que entrou para a história da política baiana.

Naquele ano, ACM havia deixado o governo da Bahia para disputar uma vaga no Senado, mas seguia como a principal liderança do grupo carlista. O governador em exercício era Antônio Imbassahy, que assumiu o comando do estado como presidente da Assembleia Legislativa após a desincompatibilização de ACM.

Segundo relato de Lídice, ao chegar à Lapinha ela encontrou um bloqueio da Polícia Militar e percebeu que o governo estadual havia organizado uma espécie de cortejo paralelo ao redor do carro do Caboclo. A então prefeita convidou Imbassahy a integrar a comitiva municipal.

A resposta foi negativa: "Fique à vontade. Eu prefiro ir com o governador ACM", respondeu Imbassahy. A prefeita retrucou: "Eu pensei que o senhor era o governador. Me desculpe".

O clima piorou quando secretários municipais ocuparam a primeira fila do cortejo. Lídice afirma que ACM passou a insultá-la e exigir que deixasse o local.

Desencarna!

Lídice conta que permaneceu na posição. Durante o empurra-empurra, recebeu um pontapé. Foi nesse momento que respondeu com a frase que atravessou décadas: "Desencarna, ACM!"

A polêmica não terminou com o fim do desfile. No dia seguinte, em entrevista à TV Bahia, ACM respondeu à disputa pelo protagonismo da festa: "O 2 de Julho é a Bahia. A Bahia é ACM. O 2 de Julho é meu."

Confrontos marcaram festa em 1999  

Cinco anos depois, o desfile voltaria a ser marcado pela tensão. Em 1999, integrantes de movimentos sociais de oposição organizaram uma manifestação durante o cortejo para protestar contra ACM. A reação foi imediata: a PM montou um cordão de isolamento para impedir a aproximação dos manifestantes, e o desfile foi marcado por agressões, detenções e denúncias de uso da força. 

Reportagens da época também registraram a atuação de seguranças à paisana contra participantes do protesto. Em 2001, poucos meses após o escândalo da violação do painel eletrônico do Senado, ACM participou do cortejo sob forte rejeição popular, que foi recebido com vaias e palavras de ordem.

Troca de papéis após ascensão do PT

A alternância de poder na Bahia também mudou o tom dos embates no cortejo. Em 2007, no primeiro 2 de Julho após o fim de décadas de hegemonia carlista no governo estadual, o novo ocupante do Palácio de Ondina, Jaques Wagner, ungido pela surpreendente vitória sobre o então governador Paulo Souto, participou da celebração ao lado do prefeito de Salvador à época, João Henrique. 

Na ocasião, o governo baiano destacou a liberdade de expressão como uma das características históricas da festa, reconhecendo o direito de manifestações populares durante o desfile. Dois anos depois, foi a vez de João Henrique sentir a pressão das ruas. Em meio à greve dos servidores municipais, ele percorreu o cortejo sob vaias, xingamentos e protestos. Manifestantes lançaram papéis, ovos e até um guarda-chuva em direção à comitiva, enquanto seguranças precisaram intervir para evitar que o tumulto aumentasse. 

Ruas em disputa

Em 2018, enquanto grupos protestavam contra a construção do BRT em Salvador e cobravam justiça pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, militantes exibiam cartazes, camisetas e bandeiras pedindo a liberdade do então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, preso havia poucos meses. Também houve homenagens ao ex-governador Waldir Pires, morto dias antes do desfile.

Durante o percurso, servidores municipais realizaram um protesto contra a administração do então prefeito ACM Neto. O clima ficou tenso após um confronto verbal entre manifestantes e apoiadores do prefeito. Para conter a confusão, a Guarda Municipal utilizou spray de pimenta. O gás acabou atingindo integrantes da própria comitiva de ACM Neto, e alguns aliados chegaram a passar mal antes da retomada da caminhada.

Eleições de 2022 esquentaram desfile

O caráter político do 2 de Julho atingiu um novo patamar em 2022, às vésperas das eleições presidenciais. Pela primeira vez, os quatro candidatos mais bem colocados nas pesquisas para a Presidência da República estiveram em Salvador no mesmo dia. Lula participou do cortejo tradicional; Ciro Gomes (PDT) e Simone Tebet (MDB) também acompanharam as celebrações. 

Jair Bolsonaro (PL), em busca da reeleição, esteve na capital baiana, mas optou por cumprir agenda em uma motociata pela orla, sem participar do desfile. A disputa estadual também ganhou protagonismo, com a presença dos dois principais candidatos ao governo: Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União Brasil), transformando o cortejo em uma espécie de abertura informal da campanha na Bahia.

Vitrine eleitoral

Ao longo dos anos, o 2 de Julho deixou de ser apenas um termômetro da política baiana para se consolidar como vitrine eleitoral. Em poucos metros de caminhada, candidatos e ocupantes de cargos públicos conseguem medir a receptividade do eleitorado, testar discursos, fortalecer alianças e disputar espaço diante de milhares de pessoas. É por isso que, a cada edição, o cortejo reúne uma espécie de concentração da classe política baiana e, em muitos anos, também de lideranças nacionais.

Prefeitos, governadores, senadores, deputados estaduais e federais, vereadores, ministros e presidenciáveis costumam percorrer o trajeto da Lapinha ao Campo Grande. Mesmo sem pedir votos formalmente, aproveitam o ambiente para cumprimentar eleitores, posar para fotografias, caminhar ao lado de aliados e demonstrar força política. Não por acaso, a disposição das autoridades no cortejo, a intensidade dos aplausos e das vaias costumam dominar a cobertura política do dia seguinte.

Expectativa de alta temperatura no cortejo 

Em anos eleitorais, esse simbolismo se intensifica. Com a disputa de outubro se aproximando, a expectativa é que o cortejo concentre pré-candidatos ao governo da Bahia - em especial, Jerônimo Rodrigues e ACM Neto -, ao Senado, à Câmara dos Deputados e à Assembleia Legislativa, além de prefeitos, vereadores e lideranças partidárias de diferentes campos políticos. 

Em 2026, porém, a festa não terá a participação dos dois principais nomes na disputa pela Presidência: Lula desistiu de engrossar o cortejo do PT e concentrou a agenda em uma série de solenidades realizadas na capital e interior no dia 1º, véspera do desfile. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sequer colocou o 2 de Julho na Bahia em sua rota de visitas.    

Mais do que uma tradição cívica, o 2 de Julho tornou-se um dos primeiros grandes atos públicos do calendário eleitoral baiano. Embora a legislação imponha regras para a propaganda antecipada, a caminhada oferece aos políticos uma oportunidade rara de aparecer ao lado da população, fortalecer suas imagens e medir a capacidade de mobilização de seus grupos antes do início oficial da campanha.

Neste ano, novamente em período eleitoral, a tendência é que o roteiro se repita. Ao longo do percurso, nomes cotados para disputar cargos em 2026 deverão dividir espaço com movimentos sociais, sindicatos, entidades civis e milhares de pessoas que transformam a festa em um ambiente onde história, política e campanha convivem lado a lado.

Passados 203 anos da expulsão definitiva das tropas portuguesas, o 2 de Julho continua preservando seu caráter popular. Mas, ao lado do Caboclo e da Cabocla, seguem caminhando também as disputas pelo poder. Afinal, na Bahia, poucas tradições conseguem refletir tão bem o momento político quanto a festa que celebra a Independência do estado.