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Luz no fim do abandono: após anos fechado, Forte São Marcelo ganha novo plano para restauração e visitação pública
Um dos marcos mais importantes de Salvador, o inacessível Forte São Marcelo tem a chance de virar um espaço realmente aberto ao público a partir do recente acordo entre a União e o governo do estado

Foto: Todas as fotos por Fernando Antonio
Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole na edição de 2 de julho de 2026
Por décadas a fio, o Forte São Marcelo, um dos principais marcos de Salvador, permaneceu inacessível e ilhado em meio à Baía de Todos os Santos, como um belo cartão-postal do esquecimento a poucos metros do Mercado Modelo, do Elevador Lacerda e do Terminal Náutico da cidade. As promessas feitas por sucessivas administrações públicas de transformá-lo em um espaço cultural e turístico realmente aberto à visitação nunca se concretizaram. Recentemente, contudo, surgiu uma luz no fim do abandono.
Agora, as portas do São Marcelo receberam um empurrão rumo à reabertura. Cedido gratuitamente pela União ao governo da Bahia, o monumento tem boas chances de reverter o estado de decadência em que se encontra e voltar a ter uso público de fato, diferente do curto período de cinco anos nos quais uma associação tomou conta do forte, em um projeto fadado ao naufrágio por falta de gestão qualificada (leia mais na página ao lado). A proposta da vez é restaurar o espaço, abri-lo à visitação plena e colocá-lo no circuito turístico e cultural de Salvador.
Mais do que recuperar uma construção antiga, o objetivo é dar funcionalidade a um dos símbolos mais vistos da capital baiana. Nos planos do governo estadual, está a possibilidade de que o forte receba moradores, turistas, eventos, atividades culturais e roteiros náuticos.

Foto: Fernando Antonio
Novo fôlego
Ao Jornal Metropole, o secretário estadual de Turismo, Maurício Bacelar, afirmou que equipes do órgão já iniciaram visitas técnicas ao forte. A primeira etapa é avaliar as condições estruturais, identificar as obras necessárias e elaborar o orçamento. Vencida essa fase, a ideia é lançar a licitação para contratar a empresa que tocará o projeto.
Segundo Bacelar, a intenção é entregar um equipamento turístico qualificado, aberto para baianos e turistas, com serviços de bar e restaurante e possibilidade de receber eventos de diferentes áreas. No entanto, ainda não há data definida para o início das obras nem para a reabertura.
Rota dos fortes
A princípio, o monumento deve integrar o roteiro “Bahia de Todos os Fortes”, lançado pela Secretaria Estadual de Turismo (Setur) em parceria com o Exército para valorizar fortificações históricas de Salvador. A rota já envolve quatro outros espaços semelhantes: os fortes de Monte Serrat, São Diogo, Santa Maria e São Pedro.
O circuito foi pensado para apresentar a cidade a partir de seus antigos pontos de defesa. São lugares que ajudaram a proteger Salvador, vigiar a Baía de Todos os Santos e construir parte da memória militar, política e urbana da capital. Com o São Marcelo, esse roteiro ganha um elemento especial: o único forte que não está na beira da cidade, mas dentro da água.
Papeis definidos
A Setur explicou ainda que o governo criou o roteiro, mas quem deve formatar os passeios são as agências de viagem. Caberá ao trade turístico definir embarcações, horários, venda dos pacotes e experiências para os visitantes. O papel do estado, disse Bacelar, será garantir a infraestrutura e estimular empresas privadas a operarem o transporte até o forte com segurança.
A entrada do São Marcelo nesse circuito pode fortalecer o turismo náutico de Salvador. Hoje, milhares de pessoas atravessam a baía diariamente e veem o forte de perto, mas não podem acessá-lo. Com a reabertura, esse percurso cotidiano poderá virar também experiência turística, cultural e educativa.
Transferência impõe obrigações ao governo
A troca de gestão do espaço foi oficializada pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) em portaria publicada no Diário Oficial da União de 22 de junho. O documento autorizou a cessão gratuita do Forte São Marcelo ao estado da Bahia por 20 anos, com possibilidade de prorrogação. O governo baiano, no entanto, terá compromissos a cumprir.
Pela portaria, o estado terá até 24 meses, a partir da assinatura do contrato, para executar os objetivos previstos para o espaço. Mesmo assim, a expectativa da Setur é reduzir o prazo máximo. Caso a finalidade não seja cumprida ou o imóvel tenha uso diferente do definido, a cessão será revertida à União.
Do uso militar ao patrimônio
A trajetória do monumento está ligada à própria formação de Salvador. O historiador Joel Nolasco, mestre em História Social pela (Ufba), explica que a cidade foi criada para ser capital da colônia portuguesa na América e, por isso, nasceu também como ponto de defesa, e o São Marcelo fazia parte desse sistema de proteção da Baía de Todos os Santos.
Construído entre 1612 e 1623, o forte tinha posição estratégica. Seu formato circular permitia defesa em várias direções. Ele protegia a entrada marítima, mas também poderia ser usado contra a própria cidade, caso Salvador fosse ocupada por invasores ou se rebelasse contra Portugal.
O São Marcelo foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1938 e deixou de ter função militar dois anos depois. Depois disso, atravessou décadas de uso restrito, restaurações pontuais e períodos de abandono.
Tentativa malfadada de evitar a decadência
Em 2006, o São Marcelo chegou a ser reaberto como centro cultural, sob gestão da Associação Brasileira dos Amigos das Fortificações Militares e Sítios Históricos (Abraf). No papel, a ideia era interessante: abrigar museu, exposições, restaurante, atividades educativas, encenações históricas e roteiros náuticos, para que as pessoas pudessem, enfim, visitar o que sempre viram de longe. Mas, por ausência de administração qualificada, o resultado ficou muito aquém de idealizado.
O ciclo foi interrompido definitivamente em 2011, após o fim do contrato de gestão entre o Iphan e a Abraf. Ao Jornal Metropole, o instituto informou que o fechamento não ocorreu por problema estrutural, mas pelo encerramento da relação administrativa. Entre 2014 e 2016, o órgão coordenou obras de restauração civil, com investimento de cerca de R$ 7,6 milhões.
Os serviços envolveram reconstituição de fundações, estabilização das muralhas e conservação da arquitetura histórica, especialmente diante da ação das marés. Ainda assim, o forte continuou fechado ao público. O que pode mudar com o acordo entre a SPU e o governo do estado.
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