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Sobrecarga de trabalho fora do horário de aula move mobilização de professores da rede privada em Salvador
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Sobrecarga de trabalho fora do horário de aula move mobilização de professores da rede privada em Salvador
A sobrecarga de trabalho é um dos principais fatores por trás da mobilização da categoria, que voltou a negociar com o sindicato patronal nesta quinta

Foto: Divulgação
Matéria publicada originalmente no Jornal Metropole em 16 de julho de 2026
O sinal toca, a sala de aula esvazia, mas o expediente dos professores está longe de acabar. Planejamento de aulas, correção de provas, elaboração de relatórios, adaptação de atividades para estudantes da educação inclusiva e demandas administrativas fazem parte de uma rotina que, segundo os docentes da rede privada da Bahia, ultrapassa a carga horária contratada e ocupa noites, fins de semana e recesso escolar. A sobrecarga de trabalho é um dos principais fatores por trás da mobilização da categoria, que volta a negociar com o sindicato patronal nesta quinta-feira (16), antes de uma assembleia que decidirá se os professores entram em greve.
O estado de greve em que a categoria se encontra foi aprovado em junho, e a primeira paralisação da campanha salarial ocorreu no dia 9 daquele mês. Desde então, as negociações avançaram em temas como bolsas de estudo e recesso escolar, mas seguem travadas nas reivindicações consideradas centrais pelos docentes. Embora o debate público tenha se concentrado no percentual de reajuste, professores ouvidos pelo Jornal Metropole apontam que o conflito também reflete uma transformação da profissão: o aumento das atividades realizadas fora da sala de aula e a percepção de que esse trabalho deixou de ser exceção para se tornar parte da rotina.
Reajuste baixo
Entre os pontos em discussão, está o reajuste salarial. O Sindicato dos Estabelecimentos de Ensino do Estado da Bahia (Sinepe), que representa os donos de escola, afirma ter colocado na mesa um aumento de 4,11%, correspondente à reposição da inflação medida pelo INPC, além da manutenção das bolsas de estudo para professores e coordenadores e da ampliação do recesso de meio de ano para 19 dias, acima dos 15 dias previstos na convenção anterior. Para a entidade, a negociação "está caminhando" e “registra avanços importantes”.
Já o Sindicato dos Professores no Estado da Bahia (Sinpro) afirma que a proposta não representa valorização da categoria. A entidade argumenta que a reposição apenas recompõe a inflação e que, para os docentes que recebem o piso salarial, o reajuste significaria um acréscimo de apenas R$ 0,49 por hora-aula. O sindicato também defende a regulamentação e a remuneração das atividades realizadas fora da sala de aula, como planejamento, correção de provas, preenchimento de relatórios, atendimento às famílias e adaptação de conteúdo para estudantes da educação inclusiva.
Rotina exaustiva
Uma professora ouvida pela Rádio Metropole, que pediu para não ser identificada, conta que o trabalho começa antes mesmo de chegar à escola e continua quando volta para casa. "De manhã eu estou trabalhando, à tarde estou na escola, de noite eu estou trabalhando, final de semana eu estou trabalhando, feriado eu estou trabalhando", desabafa.
Ela afirma que, além de ministrar diversas disciplinas, precisa elaborar provas, produzir versões adaptadas para alunos da educação inclusiva, preencher relatórios, preparar atividades comemorativas e planejar as aulas seguintes. Nem o recesso escolar é suficiente para interromper a rotina. "Eu não consegui aproveitar 100% do recesso, porque tive que começar a elaborar as revisões. Você não descansa plenamente", emenda.
Outro professor relata que o aumento de estudantes da educação inclusiva, sem equipes suficientes de apoio, ampliou ainda mais a carga de trabalho. "Estamos fazendo duas, três, quatro provas no lugar de uma só", resume.
O que dizem as escolas
Procurado pelo Jornal Metropole, o Sinepe afirma reconhecer que as demandas sobre os professores cresceram nos últimos anos, impulsionadas pela ampliação da inclusão escolar, por novas exigências legais e pelo uso de tecnologias na educação. Para o sindicato patronal, porém, o problema é complexo e não pode ser resolvido apenas por meio de reajustes ou do pagamento adicional pelas atividades.
A entidade defende a criação de grupos de trabalho para discutir soluções de longo prazo e afirma que a remuneração, sozinha, não elimina o excesso de trabalho. O sindicato também argumenta que as escolas enfrentam aumento da inadimplência, redução do número de matrículas e custos maiores com inclusão, fatores que, segundo a entidade, diminuem a margem financeira das instituições.
O Sinepe também argumenta que a realidade da rede privada é heterogênea. Segundo a entidade, com base no Educacenso 2025, a Bahia possui 2.573 escolas particulares, das quais 15% têm até 50 estudantes matriculados e 52,5% atendem até 200 alunos. Apenas 25 escolas em todo o estado possuem mais de mil estudantes, o que, na avaliação do sindicato, exige que as negociações considerem realidades financeiras distintas entre as instituições.
O que pode acontecer
Uma nova rodada de negociação está marcada para a manhã desta quinta. Depois da reunião, os professores se reúnem em assembleia para decidir se mantêm o estado de greve ou iniciam uma paralisação da categoria. Mais do que definir o índice de reajuste deste ano, a decisão poderá indicar se a principal reivindicação dos docentes, o reconhecimento de que o trabalho do professor vai muito além do tempo em sala de aula, encontrará espaço nas negociações ou continuará sendo um tema adiado.
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