
Home
/
Notícias
/
Jornal da Metropole
/
Duelo pelo poder na Bahia: as estratégias de Jerônimo e ACM Neto para 2026
Jornal Metropole
Duelo pelo poder na Bahia: as estratégias de Jerônimo e ACM Neto para 2026
Jerônimo busca converter a popularidade de Lula e as obras do governo em votos, enquanto ACM Neto aposta na mudança e nas críticas ao PT; conheça as armas de cada lado do duelo

Foto: Divulgação/PT
Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole no dia 3 de setembro de 2026
A eleição para o Governo da Bahia em 2026 começou oficialmente em agosto, mas a disputa vem sendo construída há muito mais tempo. E, embora o confronto principal repita o duelo de 2022 entre Jerônimo Rodrigues (PT) e ACM Neto (União), a configuração política deste ano é diferente.
De um lado, está um governador que tenta transformar a força do presidente Lula (PT) e as obras que fez no interior e na capital em votos para a própria reeleição. Do outro, um ex-prefeito de Salvador que evita transformar o presidente em alvo de seus ataques, mantém o foco nas críticas ao governo do rival e ao partido dele, mas busca avançar no voto cruzado, o chamado Lula-Neto. Fora, obviamente, a aposta alta em conteúdos para as redes sociais, com linguagem mais jovem, bem-humorada e provocativa.
E, no meio do duelo direto entre PT e União Brasil, além de Lula, estão Jair e Flávio Bolsonaro (PL); o prefeito Bruno Reis; os candidatos petistas ao Senado, o ex-ministro Rui Costa e o senador Jaques Wagner; os dois candidatos ao Senado na chapa oposicionista, o ex-ministro João Roma (PL) e o também senador Angelo Coronel (Republicanos), o vice-governador Geraldinho (MDB), mais centenas de prefeitos, vereadores, deputados e uma enorme rede de interesses políticos espalhada pelos 417 municípios baianos.
O ex-prefeito de Salvador decidiu não transformar a eleição estadual em uma guerra direta contra Lula. A escolha é tática. Depois de 2022, quando adotou posição de neutralidade na disputa presidencial, ACM Neto agora sinaliza apoio, ainda que tímido, ao ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), sem colocar a própria campanha a serviço dele. A mensagem é calculada: a eleição para governador precisa ser estadualizada.
Força de Lula
Na Bahia, Lula mantém força eleitoral sem adversários competitivos de fato. O resultado da eleição estadual passada é a melhor demonstração disso. No segundo turno de 2022, Jerônimo alcançou 52,8% dos votos e derrotou ACM Neto. Lula, na mesma eleição, chegou a 72,1% dos votos válidos na Bahia. A diferença entre os números mostra que existe um enorme eleitorado baiano pró-Lula, mas não necessariamente vota no candidato petista ao governo.
Mesmo que o voto Lula-Neto não seja estratégia assumida publicamente por ACM Neto, Jerônimo trabalha para neutralizá-lo. Entre as armas para frear a tendência, está a lembrança do célebre episódio no qual Neto, então deputado federal, disse em 2005 que daria uma surra no presidente.
Em compasso simultâneo, Jerônimo quer aproveitar ao máximo a força do presidente. A presença do de Lula na Bahia, especialmente em momentos estratégicos da campanha, não é mero simbolismo. É uma tentativa de converter a aprovação presidencial em votos. Por isso, Lula desembarcou em Salvador no dia 28 de agosto para participar de caminhada ao lado de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner. O local também teve significado político: a Liberdade, bairro popular, majoritariamente negro, com forte tradição de movimentos culturais e sociais.
A campanha de Jerônimo tenta transformar a escolha estadual em uma consequência da escolha presidencial, do tipo: “Se você está com Lula, precisa estar com Jerônimo”. A outra operação da campanha petista é associar ACM Neto ao bolsonarismo. Para isso, existe uma peça fundamental. E ela está no próprio palanque oposicionista.
Peso do efeito Bolsonaro
Este ano, ACM Neto está em uma coligação muito mais ampla do que aquela que conseguiu formar em 2022. Agora, União Brasil, PP, Republicanos, PL, Novo, Podemos, PSDB, Cidadania, Solidariedade, PRD e Mobiliza estão juntos com ele. Essa coalizão arrasta para a campanha de Neto políticos que integram a tropa bolsonarista na Bahia.
É o caso do candidato ao Senado pelo PL, João Roma, ex-ministro da Cidadania na reta final do governo Jair Bolsonaro. A presença de Roma é vista como ponto sensível nos planos de ACM Neto de abocanhar o eleitorado lulista para si, enquanto nega apoio explícito a Flávio Bolsonaro (PL).
Interior: a grande operação
Apesar do peso de Salvador e do espaço dado à capital, as duas campanhas voltaram os olhos com intensidade para o interior, mas cada uma à sua maneira. A estratégia de ACM Neto combina viagens, reuniões com lideranças e propostas voltadas às diferentes regiões do estado. Além, é claro, de críticas sem tréguas ao governo do rival. O objetivo político é claro: disputar um eleitorado fundamental para o resultado de 2022 e tentar reduzir a vantagem que Jerônimo construiu sobre ele na sucessão passada.
A cúpula de campanha de ACM Neto decidiu focar suas estratégias eleitorais nas 40 maiores cidades baianas, já que o mapa da última sucessão foi cruel para o ex-prefeito. Jerônimo venceu em 364 dos 417 municípios baianos. Neto, que ganhou em 53 cidades, já declarou publicamente que sua tática para vencer em outubro será justamente o desempenho fora da capital.
Mas Jerônimo está de olho e mantém intensa agenda no interior, onde concentra grande parte de sua campanha de rua, com carreatas nas pequenas cidades, comícios e caminhadas nos médios e grandes. Para contrabalancear as críticas que o adversário faz a seu governo - especialmente nas áreas de segurança pública, saúde e educação -, o petista dá visibilidade às obras na capital e nas mais diversas regiões do estado.
Terceira via à esquerda
No meio do duelo, há ainda um azarão que até o momento não subiu ao ringue. Trata-se do candidato do Psol ao governo, Ronaldo Mansur, que mantém o discurso fundamentado na necessidade de criar uma esquerda fora do PT. O jogo de Mansur não é resultado da esperança em um bom desempenho e nem da tentativa de ocupar o mesmo espaço eleitoral de ACM Neto ou Jerônimo, mas de colocar seu partido como opção à esquerda.
Para isso, Mansur critica as alianças de Jerônimo e bate forte na direita que gravita a órbita do União Brasil. Até o momento, sua campanha aposta em bairros populares, movimentos sociais, pautas trabalhistas e afagos aos militantes. Por enquanto, a estratégia do candidato do Psol ainda não se reverteu em crescimento nas pesquisas.
📲 Clique aqui para fazer parte do novo canal da Metropole no WhatsApp.

