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Fernando Cerimedo, o argentino que criou a indústria da mentira para a extrema-direita na América Latina
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Fernando Cerimedo, o argentino que criou a indústria da mentira para a extrema-direita na América Latina
Prisão do estrategista argentino Fernando Cerimedo na Bolívia escancara megaestrutura montada para inflar artificialmente políticos de extrema-direita, como Bolsonaro e Milei

Foto: Reuters/Folhapress
Matéria originalmente publicada no Jornal Metropole em 3 de setembro de 2026
Na noite de 17 de agosto, a advogada e comentarista política boliviana Nadia Beller estava em um hotel de Santa Cruz de la Sierra quando dois homens vestidos como entregadores de comida chegaram de motocicleta. Eles atiraram três vezes. Beller sobreviveu, mas o que se descortinou após o crime fez com que o episódio ultrapasse as páginas policiais e colocasse novamente sob os holofotes um personagem central da extrema-direita da América Latina.
Na madrugada seguinte ao atentado, o Fernando Cerimedo, estrategista político argentino, se preparava para embarcar rumo a Buenos Aires, mas foi preso no aeroporto pela polícia da Bolívia, que passou a investigar se ele teria participação no ataque. A hipótese apresentada inicialmente envolvia um suposto conflito pessoal entre os dois, com ameaças de morte registradas no celular do argentino. Cerimedo nega ter sido mandante do crime.
Ao revistar imóveis ligados a Cerimedo, investigadores bolivianos encontraram uma pequena estrutura de computadores associada ao funcionamento de uma fazenda de robôs — máquinas e contas destinadas a produzir, replicar e inflar artificialmente conteúdos nas redes sociais. As autoridades da Bolívia também passaram a investigara suspeitas de enriquecimento ilícito e corrupção. Cerimedo também nega as acusações.
Máquina de fake
Antes de atuar no submundo da internet, o argentino havia construído sua reputação de estrategista em uma redação jornalística. Em 2021, criou na Argentina o portal La Derecha Diario, ou Diário da Direita, que rapidamente deixou de ser mero site político para se transformar em peça central do ecossistema de comunicação da “nova direita” latino-americana.
A fórmula era simples, mas eficaz: uma notícia de teor agressivo, publicada em portal com verniz jornalístico, era impulsionada por meio das redes sociais, perfis de militante da extrema-direita e contas automatizadas. Quando alcançava escala suficiente, voltava para o debate político como se fosse uma notícia espontaneamente viral.
Linha de montagem
Entre 2022 e 2023, o portal de Cerimedo publicou e disseminou fake news em série. Entre as mais célebres: a tese de fraude nas eleições brasileiras, conteúdos enganosos sobre educação sexual e mudanças climáticas e vídeos editados para alterar declarações de personalidades. Cerimedo chegou a admitir publicamente que fabricava “campanha negativa” e mantinha granjas de trolls, termo da deepweb usado para designar grupos organizados de pessoas ou sistemas digitais pagos e montados para manipular a opinião pública, espalhar desinformação e atacar oponentes políticos na internet.
Brasil foi laboratório importante
Em novembro de 2022, poucos dias após vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Cerimedo transmitiu a live intitulada Brazil Was Stolen (Brasil Foi Roubado). Diante de centenas de milhares de espectadores, apresentou gráficos, imagens e argumentos já desmentidos para sustentar que havia diferenças entre modelos de urnas eletrônicas. O Tribunal Superior Eleitoral determinou a suspensão das contas do Diário da Direita no país.
A operação, porém, não ficou restrita à internet. O material foi compartilhado por políticos e influenciadores bolsonaristas. Segundo investigações e documentos coletados pela da Polícia Federal, o link da transmissão chegou ao tenente-coronel Mauro Cid e circulou entre integrantes do aparato militar do governo Jair Bolsonaro. Por isso, a PF incluiu Cerimedo entre os 37 indiciados no inquérito que investigou a tentativa de golpe de Estado, apontando sua atuação na produção de estratégias destinadas a atacar a credibilidade das urnas.
Elo com os Bolsonaro
Filho 03 do ex-presidente, Eduardo Bolsonaro também é próximo do argentino. Em 2022, encontrou-se com Cerimedo em Buenos Aires. O correspondente brasileiro do Diário da Direita, Giovanni Larosa, acompanhou a viagem — e havia recebido dinheiro da campanha de Eduardo a deputado federal para serviços de divulgação eleitoral.
Tentáculos em escala continental
No Chile, a empresa de Fernando Cerimedo, a Numen, ficou conhecida por uma pesquisa realizada antes do plebiscito constitucional de 2020 que apontava a aproximação dos índices entre o Apruebo (Aprovo) e o Rechazo (Rechaço), alternativa defendida pelo argentino. Os números contrariavam praticamente todas as demais pesquisas sobre a elaboração de uma nova constituição chilena. O resultado real foi uma vitória de 78% do Apruebo. Investigações posteriores apontaram que o levantamento havia sido financiado por empresários favoráveis ao Rechazo.
Na Argentina, Cerimedo tornou-se estrategista da campanha de Javier Milei. Na Bolívia, aproximou-se do presidente Rodrigo Paz. Na Espanha, associou-se ao empresário e influenciador Javier Negre, que chegou a anunciar a aquisição de participação no Diário da Direita, que também possui atuação no México. A lógica é continental. Em suma, não era preciso convencer todo mundo de uma mentira. Bastava fazê-la circular o suficiente para que fosse absorvida. Qualquer semelhança com o ministro da propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, não terá sido mera coincidência.
Fazenda de robôs
Para levar a cabo seu império de mentiras, Fernando Cerimedo se valeu das fazendas de robôs (bots farms, no jargão das fake news). Tal estrutura não precisa necessariamente criar uma multidão fictícia. Ela pode fabricar a aparência de que determinado assunto está em toda parte. Contas automatizadas repetem mensagens, hashtags e ataques; perfis reais absorvem o conteúdo; influenciadores o repercutem; sites o transformam em notícia; políticos o incorporam ao discurso.
O algoritmo faz o resto.
A prisão de Cerimedo, portanto, abriu uma porta inesperada para um sistema que já vinha sendo documentado havia anos. No Brasil, a engrenagem ajudou a espalhar a fantasia de fraude eleitoral. No Chile, pesquisas controversas e campanhas digitais foram usadas para deslocar a percepção do eleitorado. Agora, na Bolívia, a descoberta física de equipamentos dá materialidade a algo que até então parecia existir apenas na tela.
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