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Política

César Borges relembra rixa com Rio Grande do Sul e São Paulo para trazer Ford para a Bahia

Ex-governador disse que reação de gaúchos e paulistas chegou a estremecer relação entre FHC e ACM no fim dos anos 90

[César Borges relembra rixa com Rio Grande do Sul e São Paulo para trazer Ford para a Bahia]
Foto : Divulgação/Estado de S. Paulo

Por Matheus Simoni no dia 12 de Janeiro de 2021 ⋅ 10:23


Ex-governador da Bahia, ex-ministro e ex-deputado estadual, César Borges lembrou das negociações para trazer a montadora Ford para o estado e como a iniciativa desagradou figuras políticas do Sul e Sudeste do país. Ele comentou, em entrevista a Mário Kertész durante o Jornal da Bahia no Ar da Rádio Metrópole de hoje (12), que a intenção inicial era a vinda da Asia Motors, através do então presidente Fernando Henrique. Após anúncio com pompa e circunstância, a empresa acabou desistindo do projeto.

"Um belo dia, sou procurado pelo pessoal de marketing do governo. Fernando Vita e Fernando Barros me trouxeram uma matéria do Estado de S. Paulo que dizia o seguinte: Ford e GM sairão do RS por conta do não-cumprimento dos compromissos assumidos pelo governo que assumia no Rio Grande do Sul, que era do governo de Olívio Dutra. Quem tinha conseguido foi Antônio Brito, que foi assessor e porta-voz do do Tancredo Neves. Ele tinha atraído Ford e GM. A GM já tinha iniciado sua implantação, mas a Ford não", lembrou César Borges.

Inicialmente, a proposta chegou a ser tratada com desdém pelos políticos gaúchos. No entanto, a Ford viu com bons olhos logo em seguida. "Vita e Barros me sugeriram uma matéria colocando a seguinte forma: GM e Ford, venham para a Bahia, aqui se cumpre compromissos. Eu, a princípio achei um pouco agressivo para um governador colega do Rio Grande do Sul. Não era nem para vir a Ford e a GM, mas era para atrair outras empresas, como o setor calçadista. Implantamos um polo calçadista desde o governo Paulo Souto e continuamos esse esforço. Eu disse: vamos publicar, mas na mesma página do Estado de S. Paulo. Publicamos. Isso deu um estardalhaço, os gaúchos disseram que éramos brincalhões e aquela história que se conhece do preconceito que existe contra o Nordeste", disse o ex-governador. 

"Com menos de uma semana, o deputado José Carlos Aleluia me ligou e disse que tinha contato com a Ford e ela perguntou se era para valer. O presidente da Ford me ligou e disse que 'tinha um projeto de 125 mil carros, mas que não era suficiente para a nossa estratégia no Brasil. Queremos ampliar nosso mercado no Brasil. Ou vamos embora do Brasil, ou fazemos  um projeto maior para 250 mil veículos por ano. Queremos saber se o sr. está disposto a enfrentar esse projeto'. Chamava-se Ivan Carvalho, o presidente da época. Chamei ele para a Bahia e falei que iria mostrar todo o potencial que nós temos para implantação dessa fábrica. Ele bateu aqui na Bahia, botei num helicóptero e fomos sobrevoar toda nossa logística que tínhamos no entorno de Salvador e RMS. Mostrei a ele inclusive o terreno já estava terraplanado para a instalação", falou.

De acordo com César Borges, foi apresentada uma série de incentivos para a montadora, como a proximidade com o Porto de Aratu, com potencial de exportar os carros. Embora os custos fossem maiores no Nordeste, já que o mercado consumidor era maior no Sudeste, o governo baiano foi atrás de incentivos fiscais. "Conseguimos embutir em uma MP, Aleluia ajudou muito nisso, um dispositivo que prorrogava o regime automotivo que já estava fechado. Isso foi aprovado. Tudo certo e vamos tocar o projeto. Quando os paulistas descobriram isso, fizeram uma pressão enorme sobre FHC e Pedro Parente. Isso aconteceu no dia 2 de Julho. Estávamos fazer o desfile da Lapinha e a tarde faríamos o desfile que sai da prefeitura e vem ao Campo Grande. Fomos para Ondina, nos reunimos com o senador ACM e ele  ligou para Brasília e disse: a Bahia inteira vai romper com o governo federal. A Bahia inteira vai romper com o governo federal. Falo aqui como senador, líder político e o governador aqui vai confirmar a nossa posição. Nós ficaremos com nossa bancada contra o governo FHC", lembrou o ex-governador. 

O então presidente chegou a tentar minimizar o atrito com ACM na época e pediu uma trégua para tentar resolver a solução. "Fernando Henrique pediu ao senador Antônio Carlos que desse a ele um período de 15 dias para resolver a questão e pediu que ele se calasse e se exilasse naqueles 15 dias, sem nenhuma reação ou movimento nenhum. A reação dos paulistas era muito grande sobre esses benefícios. Antônio Carlos se exilou em Porto Seguro, lugar ótimo para se exilar, e fomos a Brasília trabalhar", lembrou Borges. 

"A Ford veio e foi uma grande conquista. Os gaúchos acharam que os baianos não eram mais os gaiatos. Foi um massacre em cima do Olívio Dutra, que deixou escapar a Ford, que estava acertada para o Rio Grande do Sul. A gente até prometeu construir uma estatua para o Olívio Dutra aqui na Bahia. Foi a falta de compreensão dele de que precisava apoiar o projeto que seria duplicado, que estava acertado de 125 mil carros, muito menos o de 250 mil carros. A Ford aqui produziu até 300 mil carros por ano, em três turnos", comemorou o ex-governador. 

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