
Política
"O cenário político da Bahia precisa sofrer uma chacoalhada", diz Jean Wyllys ao Metro1
Baiano fala sobre período do "exílio" e sobre o cargo que ocupará no governo Lula

Foto: Divulgação
Durante quatro anos, o ex-deputado federal Jean Wyllys (PT) esteve fora do Brasil após ser alvo de ameaças de morte por parte de figuras da extrema direita. No dia em que foi embora, sua partida foi comemorada pelo então presidente Jair Bolsonaro (PL), que definiu o momento como um “grande dia”.
De volta ao Brasil a convite do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o baiano, nascido em Alagoinhas e formado em Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), assumirá um cargo na comunicação do governo petista. Seu retorno, coincidentemente, aconteceu no mesmo dia em que o ex-presidente foi condenado inelegível pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para Jean Wyllys, foi um “presente do universo”.
Ao Metro1, Wyllys conta como foi o período que caracteriza como “exílio”, fala sobre programas que já pretende sugerir ao governo, e afirma que há uma tentativa de sabotagem por parte do atual presidente Roberto Campos Neto, do Banco Central. Também fala sobre o cenário político baiano.
Confira a entrevista:
Como foi o período fora do Brasil?
As artes plásticas sempre me interessaram, mas no exílio, até como forma de terapia para lidar com a ansiedade da pandemia, comecei a pintar e desenhar de maneira autodidata. Na época, a universidade de Harvard [onde Wyllys estava como professor visitante] fechou as portas, e a gente ficou isolado em pequenos apartamentos, foi como viver um exílio dentro do exílio. Eu tinha todas as fantasias de infecção em massa, pensava na possibilidade de minha mãe se infectar e eu não poder vê-la, e tudo isso me causou crise de ansiedade profunda e a pintura e o desenho vieram como uma forma de me segurar nessa beira de abismo.
Isso começou de forma terapêutica, mas deu vazão a algo que estava dentro de mim, e aprofundei esse trabalho, que resultou em três exposições, que passam por temas como suposta transparência do discurso jornalístico, repressão, a precariedade de um mundo com mudanças climáticas e o “desexílio”, meu processo de encontrar um lugar no exílio.
O exílio teve seus momentos de dureza, mas exigiu de mim que eu me reinventasse enquanto pessoa, me colocou no mundo do trabalho fora do meu país em função da necessidade de ter um lugar no desterro de sua terra. E gerou um livro meu com Marcia Tiburi sobre nossas experiências no exílio, o “O que não se pode dizer”, uma espécie de terapia em catarse. O livro é uma interrogação sobre o que é ser brasileiro hoje em um Brasil que emergiu fascista e eu não me identifico. Tivemos que rever a narrativa sobre o Brasil cordial de Sérgio Buarque de Holanda.
Também estou terminando um doutorado em Ciência Política na Universidade de Barcelona sobre a formação da fake news, todo processo que aconteceu no Brasil a partir de 2016, do impeachment da Dilma [Rousseff] à ascensão da extrema direita. Levo em conta a etnografia que fiz como vítima do discurso de ódio e as fake news que levaram a extrema direita ao poder. Ainda não concluí a tese, devo voltar a Barcelona para defender.
Ter tido que deixar o seu mandato foi também um motivo de ansiedade?
A minha ansiedade não tinha a ver com deixar o mandato. Eu não dou tanta importância ao meu mandato assim, tanto é que eu larguei. Eu não tenho nenhum tipo de apego ao poder, eu sei do meu valor como intelectual público, independentemente da posição que eu ocupe. A ansiedade foi porque eu estava desterrado, exilado, porque fui obrigado a deixar o meu país para proteger minha família de ameaças de morte e de uma campanha difamatória que é capaz de destruir qualquer pessoas e foder a saúde mental de qualquer sujeito.
Eu fui uma cobaia do modelo de comunicação política da extrema direita, ou seja, a extrema direita organizou seu método de assassinar a reputação e assediar pessoas da esquerda me utilizando como cobaia. Eu, que era um deputado conhecido nacionalmente, fui difamado, tinha opositores reproduzindo calúnias contra mim em quase todos os estados do Brasil, e essa gente se elegeu em 2018.
Fui resiliente e fui obrigado a refazer a minha vida. A minha resiliência tem a ver com o fato de que venho do Brasil profundo, da extrema pobreza, que sou viado, que ascendi socialmente por minha conta. O Brasil estava refém do banditismo, por isso tudo a crise de ansiedade.
Se eu continuasse aqui, provavelmente eu morreria. Foi o ano em que Marielle [Franco, vereadora] foi executada e Lula foi preso por uma operação chefiada por um juiz corrupto que depois se beneficiou diretamente por ter tirado Lula da corrida eleitoral quando foi escolhido para ser ministro de [Jair] Bolsonaro. Nunca a boçalidade foi tão celebrada no Brasil antes.
E o ano de 2018 tem relação profunda com 1968, que também não acabou. As figuras que apoiaram Bolsonaro são os filhos, os netos das mesmas pessoas que conduziram a ditadura civil-militar. O Brasil sofre de um problema seríssimo de amnésia. Não há conciliação se não houver justiça.
O senhor deixou o Brasil depois da morte de Marielle Franco. Até agora, a investigação não aponta para um mandante. O que pensa?
A gente precisa persistir com a pergunta “Quem mandou os vizinhos de Bolsonaro matarem Marielle?”, “O que os assassinos de Marielle faziam na casa de Bolsonaro?”. A gente precisa continuar se perguntando “por que o vizinho de Bolsonaro no Vivendas da Barra tinha 117 fuzis na casa dele?” e a gente tem que se perguntar por que Marielle foi executada enquanto o Rio de Janeiro estava sob a intervenção militar comandado pelo general Braga Netto, que depois virou ministro de Bolsonaro.
Precisamos nos perguntar isso tudo em nome da democracia brasileira, para que isso nunca mais se repita, para que essa gente asquerosa e violenta com laços estreitos com o banditismo não volte a governar o Brasil e não engane as pessoas. Havia gente de boa-fé que votou em Bolsonaro. Havia bandidos que comandaram a causa, mas outros foram enganados.
É um país arrastado para a cultura digital, sendo analfabeto digital. Era de se esperar o resultado de 2018, mas espero que a esquerda tenha aprendido algumas coisas. Acho lamentável quando a esquerda para de pensar no bem-estar da sociedade e foca em disputas internas.
O seu retorno foi no mesmo dia em que Bolsonaro foi declarado inelegível. Foi uma coincidência?
Foi uma mera coincidência [risos]. Eu tinha comprado a passagem quando estive com o presidente Lula em Madrid. Não imaginava que o julgamento ia ser marcado para essa data. Considerei um presente do universo. Eu sou baiano, pisciano com ascendente em aquário. Sou filho de Oxóssi com Oxum, tenho Exu presente no meu enredo, Xangô, orixá da justiça, eu acredito em forças cósmicas e justiça divina.
Pode parecer bobagem, mas acho que, de alguma forma, o universo, que busca equilíbrio, me agraciou com esse presente. No dia que deixei o Brasil, ele [Bolsonaro] escreveu nas redes sociais “Grande dia”, e no dia que retornei pude escrever “Grande dia”. Pude retribuir no mesmo nível.
O “Grande dia” dele não passava de uma ironia, porque ele sabia que ele e suas seitas que me expulsaram do Brasil. Ele sabe disso.
Como foi seu encontro com o presidente Lula na volta ao Brasil?
Eu já tinha me encontrado com Lula em Madrid e antes disso, eu não o via desde um evento que fizemos no Rio de Janeiro contra a prisão dele. Depois, ele foi preso e eu para o exílio. No período, me desfiliei do Psol e me filiei ao PT para fortalecer a figura dele - única possível para vencer Bolsonaro - dando o pontapé nesse movimento de filiação ao PT, que depois foi aderido por figuras como Marcelo Freixo.
Quando me encontrei com ele [Lula] em Madrid, ele me fez o convite para voltar ao Brasil. Ele disse: “Você tem que voltar para o seu país, a gente venceu as eleições, a extrema direita está recuando e você precisa contribuir com isso”, e diante disso, perguntei a ele se o Brasil me daria condições para que eu trabalhasse sem medo de ameaças.
Ele me disse que eu não me preocupasse, que os seus ministros estavam trabalhando para isso. De fato, fui incluído no programa de defensores de direitos humanos pelo ministro Silvio Almeida, junto com outras 30 pessoas que querem voltar ao Brasil. Quando voltei, o presidente, claro, me recebeu no Palácio do Planalto, fez questão de me convidar para uma conversa, ele e a primeira-dama.
Janja e eu temos uma relação muito bacana, sempre tive por ela um enorme carinho. Agradeço todos os dias o fato dela ter trazido amor à vida do presidente, um vigor que foi muito necessário para que a gente tocasse essa campanha, por ele ser um homem de 76 anos. Era de se esperar que ele estivesse cansado, mas ele voltou com uma juventude, com uma luminosidade. Lula é uma figura muito solar e Janja só fez realçar esse brilho.
O senhor foi chamado para ocupar algum cargo no governo? Tem essa pretensão?
Conversamos sobre a possibilidade de eu integrar o governo, principalmente na área de comunicação, que é a minha área de atuação, então provavelmente o trabalho que farei no governo será nessa área. O presidente Lula me convidou, não foi uma pretensão minha. Ele me convidou a voltar e a assumir um cargo no governo dele.
Qual cargo seria?
Por enquanto, não há certeza sobre a posição que vou ocupar. O que posso dizer é que vou fazer um trabalho no governo muito interseccional, tocando cinco temas que são imprescindíveis para pensar o século 21.
O tema da desinformação, do racismo, da equidade de gênero, com todo o debate sobre as pessoas trans e o direito das pessoas LGBTs, tema das mudanças climáticas e, por fim, o quinto tema é de uma renda básica universal no mundo em que a riqueza está cada vez mais concentrada na mão de pouca gente.
Como seria esse programa de renda básica?
Cinco por cento da população hoje cuida dos principais biomas responsáveis pela regulação do clima no mundo, são os povos indígenas, 5% responsáveis por garantir a nossa vida, apesar de toda a violência contra eles. Ao mesmo tempo, 5% das pessoas concentram quase 80% da riqueza do mundo. Precisamos debater uma renda mínima para esses sujeitos, para que não passem fome, para que tenham uma casa.
É um debate complexo que não envolve só o país, envolve todo o globo. Nós estamos globalizados, tem uma nova ordem mundial emergindo, cuja protagonista é a China, país de capitalismo de estado, uma ditadura com suas nuances, cujas liberdades individuais não são tão respeitadas.
Dessa nova ordem, talvez nasça um mundo multipolar, e faz-se necessário pensar sobre a riqueza existente nesse mundo, que é de todos nós, que deveria garantir uma renda básica universal para termos uma cidadania mínima para todos.
A aprovação da reforma tributária contradiz previsões de dificuldade de articulação no governo Lula?
Eu acho que a imprensa hegemônica e neoliberal, que talvez a Rádio Metropole faça parte, quer construir a narrativa de que todos os méritos do governo Lula até aqui foram pura sorte. Essa tentativa é mentirosa, mistificadora, é desinformação.
O governo Lula tem produzido resultados consistentes, sociais e econômicos. Mas o governo Lula enfrenta uma sabotagem que vem do Banco Central do Brasil, que está na figura do Roberto Campos Neto, e quero lembrar que ele é filho do Roberto Campos, que serviu à ditadura militar. Campos Neto está tentando sabotar a política econômica de Fernando Haddad.
A sabotagem vem também da imprensa neoliberal que entrou em modo de campanha em apenas seis meses de governo, e já fala em substituto, e coloca como possíveis candidatos figuras execráveis como [Romeu] Zema, governador de Minas Gerais que não sabe matemática básica. Eu estou quase mandando uma tabuada de presente para ele.
E outro é o bolsonarista Tarcísio de Freitas, que se elegeu governador de São Paulo sem saber a geografia da cidade de São Paulo. Os dois são sintomas de um transe de estupidez e boçalidade que aconteceu em 2016 e que cresceu de maneira assustadora com a eleição de Bolsonaro.
Lula enfrenta a sabotagem da imprensa, desses pistoleiros, de ratos de redação, e falo sem medo de ser feliz porque sou jornalista, e nunca fui assim, pode perguntar a quem trabalhou comigo aí na Bahia. Há um mínimo de dignidade que alguém deveria manter quando tem que botar comida na geladeira. Eu execro os ratos de redação e os pistoleiros de jornais que se prestam a esse papel de acusar o governo Lula e criar narrativas mentirosas em torno da suposta popularidade de Tarcísio e Romeu Zema para as eleições de 2026.
Como o senhor vê a Bahia nesse contexto político do país?
Não vou citar nomes, mas a Bahia está vivendo um momento desse, o que é lamentável em um estado que a esquerda é hegemônica. As pessoas não conseguirem construir consenso e não conseguirem enxergar novas lideranças. Está na hora desse cenário sofrer uma chacoalhada aí.
Pretende voltar para cá em algum momento?
Com certeza, cheguei e ainda não vi minha mãe, nem meus irmãos, nem meus sobrinhos. A minha chegada teve uma enorme repercussão, tenho uma agenda de entrevistas, encontros de recepção da militância, a conversa que tive com Lula, Janja, Paulo Pimenta, e com tudo isso, não tive tempo de programar para ver minha família. Mas seguramente vou visitar meus amigos.
Fiz a minha carreira toda em Salvador, conheço todo o pessoal de comunicação daí. Estou com muita saudade das pessoas e voltarei, provavelmente em um encontro com emissoras e a minha editora Record para fazer o lançamento do meu livro. Quero voltar para ver todo mundo em Salvador e a minha família em Alagoinhas.
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