
Política
Apuração do Banco Central põe sob suspeita atuação de Campos Neto no caso Master
Apuração interna revisita autorizações, omissões e escolhas regulatórias que permitiram crescimento explosivo do banco até a fraude vir à tona

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
A investigação interna aberta pelo Banco Central (BC) para apurar o caso do Banco Master rompe o foco restrito aos desdobramentos de 2025 e avança sobre decisões tomadas entre 2019 e 2024, período que coincide integralmente com a gestão de Roberto Campos Neto à frente da autoridade monetária. Na prática, a apuração lança luz sobre como um banco de pequeno porte conseguiu crescer de forma acelerada sob a supervisão do BC até chegar à liquidação extrajudicial, cercada por indícios de fraude fiscal e irregularidades graves.
O ponto central é o crescimento exponencial do Master, autorizado e acompanhado pelo Banco Central durante a presidência de Campos Neto. O banco saltou de uma instituição de nicho para um conglomerado com dezenas de bilhões de reais em ativos, movimento que hoje é considerado incompatível com os controles prudenciais esperados para instituições desse porte.
Alertas ignorados e fiscalização sob questionamento
Documentos e relatórios de mercado indicam que os sinais de alerta não eram inexistentes. Em agosto de 2023, a Warren Investimentos produziu um relatório interno que desaconselhava a compra de CDBs do Banco Master, apontava riscos elevados em relação ao retorno oferecido e colocava em dúvida a qualidade do balanço e a sustentabilidade do crescimento acelerado da instituição.
Mesmo assim, o caso não avançou para uma deliberação formal do colegiado do Banco Central. A explicação apresentada por Campos Neto, de que “não houve voto levado ao colegiado”, passou a ser interpretada, por críticos, menos como justificativa técnica e mais como evidência de uma escolha política dentro da própria autoridade monetária. Isso porque a definição da pauta do colegiado é atribuição direta da presidência do BC.
Decisões regulatórias e responsabilidade institucional
A investigação da corregedoria do Banco Central busca esclarecer não apenas por que a intervenção demorou, mas também quais decisões normativas e autorizações regulatórias permitiram que o Master ampliasse sua atuação. Entre os pontos analisados está a autorização para que o banco assumisse o controle do Banco Máxima e outros procedimentos que contribuíram para a expansão da instituição até um patamar hoje considerado insustentável.
Desde o início da apuração, dois servidores de carreira do BC deixaram a instituição, incluindo um ex-diretor de fiscalização que atuou durante a gestão Campos Neto, um movimento que reforça o desgaste interno provocado pelo caso.
Blindagem em xeque
A investigação também marca um ponto de inflexão na cobertura do tema. Reportagem do Estadão apontou que Campos Neto tinha conhecimento dos problemas do Banco Master ainda durante seu mandato e atuou para evitar medidas mais duras, como a liquidação antecipada. A publicação rompeu uma blindagem até então presente em parte da mídia corporativa, que tratava o episódio como um problema restrito à gestão atual do BC.
A tentativa de concentrar a crise apenas em 2025, já sob o comando de Gabriel Galípolo, perdeu força à medida que documentos e decisões do período anterior passaram a ser revisitados. Hoje, a própria investigação interna do Banco Central reconhece que o histórico do caso precisa ser analisado desde a origem.
Fraude, liquidação e impactos sistêmicos
O Banco Master é alvo de investigações da Polícia Federal e do Ministério Público por suspeitas de fraude fiscal e outras irregularidades. A liquidação extrajudicial, decidida no fim de 2025, ocorreu apenas depois de tentativas frustradas de operações de salvamento, como a negociação com o BRB.
O que está em jogo
Ao aprofundar a apuração sobre a gestão Campos Neto, o Banco Central tenta preservar sua credibilidade institucional, mas corre o risco de expor falhas estruturais na supervisão bancária e responsabilidades individuais de dirigentes e técnicos. O resultado da investigação pode não apenas apontar omissões e decisões equivocadas, como também forçar mudanças nos procedimentos internos da autoridade monetária.
Mais do que um caso isolado, o escândalo do Banco Master recoloca no centro do debate a pergunta que a investigação agora tenta responder: por que o Banco Central demorou tanto a agir - e quem decidiu que fosse assim?
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