
Política
TSE propõe selo para premiar pesquisas eleitorais; associação do setor critica critério de "acerto"
Presidente da Corte Eleitoral quer reconhecer levantamentos com maior aderência ao resultado das urnas, mas ABEP afirma que pesquisas retratam o momento da coleta e não fazem previsões

Foto: Luiz Roberto/TSE
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Kassio Nunes Marques, anunciou nesta terça-feira (14) a intenção de criar um selo de acurácia eleitoral para reconhecer os institutos de pesquisa que mais se aproximarem dos resultados oficiais das eleições. A proposta, porém, foi alvo de críticas da Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), que afirma que esse tipo de levantamento não deve ser avaliado pela capacidade de "acertar" o resultado das urnas.
A minuta foi apresentada durante uma reunião com representantes de 16 institutos de pesquisa. Os participantes terão até sexta-feira (17) para enviar sugestões que ajudarão a definir os critérios da premiação.
Segundo Nunes Marques, a iniciativa busca reconhecer os institutos que apresentarem maior aderência aos resultados oficiais das eleições.
"É chegado o momento da Justiça Eleitoral laurear as empresas que a cada ciclo dedicam os seus maiores esforços em favor da democracia. Essa iniciativa destina-se ao reconhecimento das entidades cuja estimativas apresentem o maior grau de aderência dos resultados oficiais das eleições", afirmou.
O ministro também defendeu que as pesquisas eleitorais exercem papel relevante no debate público e que o aprimoramento de suas metodologias é um desafio compartilhado entre a comunidade científica e as instituições envolvidas no processo eleitoral.
ABEP vê "compreensão equivocada"
Em nota, a ABEP afirmou que a proposta parte de uma compreensão equivocada sobre a finalidade das pesquisas eleitorais. Segundo a entidade, os levantamentos registram a intenção de voto dos eleitores no momento em que são realizados e não representam previsões do resultado da eleição.
"Exigir que uma pesquisa 'acerte' o resultado é confundir ciência com bola de cristal", afirmou a associação.
A entidade argumenta que, entre a realização das entrevistas e o dia da votação, os eleitores podem mudar de opinião, deixar de comparecer às urnas ou alterar seu comportamento eleitoral.
Além disso, a ABEP avaliou que o selo pode criar um "incentivo perverso", ao estimular institutos sem rigor metodológico a ajustar seus números para se aproximar do consenso de pesquisas já divulgadas.
"Quando o objetivo passa a ser ganhar um selo de 'acerto', o incentivo deixa de ser produzir a melhor pesquisa e passa a ser publicar o número que maximize a chance de receber o prêmio. Isso enfraquece, em vez de fortalecer, a qualidade da informação oferecida ao eleitor", diz outro trecho da nota.
Para a associação, a qualidade de uma pesquisa deve ser medida por critérios como metodologia, desenho amostral, transparência, execução do trabalho de campo e cumprimento das boas práticas científicas, e não apenas pela proximidade com o resultado das urnas.
Proposta surgiu após caso AtlasIntel
A reunião com os institutos foi convocada após a interrupção do julgamento que analisa a decisão individual de Kassio Nunes Marques de suspender a divulgação de uma pesquisa do AtlasIntel.
O levantamento, divulgado em maio, apontava queda de cinco pontos nas intenções de voto do pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, após o vazamento de um áudio em que o senador pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro.
Na ocasião, o PL alegou que o questionário do instituto induzia respostas negativas sobre o senador. O AtlasIntel afirmou que respeitava a decisão e que prestaria esclarecimentos sobre a metodologia da pesquisa.
O julgamento foi interrompido por um pedido de vista da ministra Estela Aranha e ainda não há previsão para sua retomada. Durante a sessão, Nunes Marques afirmou que abriria um canal de diálogo com os institutos de pesquisa, iniciativa que resultou no encontro realizado nesta terça-feira.
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